Uncategorized

“Queremos fazer um grande projecto com Pessoa”

VII-1Min Xuefei é a mulher por trás da tradução para chinês da obra completa de Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa, a ser publicada em Agosto. É o começo de um projecto que quer verter todos os escritos do poeta luso para caracteres. Clarice Lispector é o outro nome no coração da jovem tradutora.

Hélder Beja

Min Xuefei tinha pouco mais de 20 anos quando começou a andar pelas ruas de Coimbra com os versos de Fernando Pessoa. “Não sou nada/ Nunca serei nada/ Não posso querer ser nada/ À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”. As palavras de “Tabacaria” eram apenas algumas a ressoar na cabeça desta chinesa que fora de Pequim para Portugal aprender o idioma.

“Vivi dois anos em Portugal, fazendo o doutoramento. Estava muito só e tinha muito tempo livre. A melhor maneira para passar pacificamente esse tempo de solidão foi fazer a tradução de Pessoa. Pessoa é a melhor escolha para partilhar esse sentimento de solidão”, conta a tradutora, hoje com 35 anos, responsável por verter para chinês todos os poemas de um dos heterónimos do autor português, Alberto Caeiro. O livro será editado pela Commercial Press, terá cerca de 300 páginas e uma tiragem de cinco mil exemplares. Será apresentado na Feira do Livro de Xangai, que decorre entre 14 e 20 de Agosto.

Os 104 poemas de Caeiro, acompanhados de duas prosas e de um texto de outro dos heterónimos, Ricardo Reis, quer servirá de prefácio, é o primeiro capítulo daquilo que a tradutora espera ser um acto maior de amor pela literatura de que gosta. “Queremos fazer um grande projecto com Pessoa. As obras completas de Alberto Caeiro são o primeiro volume. Depois faremos Ricardo Reis, mas sozinha não consigo fazer tudo”, ri-se. “Agora traduzo, mas acho que no futuro vou passar a coordenar, vamos chamar mais tradutores. Não sei quanto tempo vai demorar, mas tem de ser devagar, para fazer bem.”

A ideia passa por traduzir os heterónimos de Pessoa, fazer uma nova tradução de “O Livro do Desassossego”, de Bernardo Soares, que já existe em chinês mas a partir da versão inglesa, num trabalho cunhado pelo escritor Han Shaogong, e traduzir também os textos de Fernando Pessoa ortónimo.

Espanhol antes de Português

A professora de Português na Universidade de Pequim (Beida) esteve na fundação do departamento de estudos de português naquela instituição de ensino. Antes de chegar à língua de Pessoa, Min Xuefei estudou espanhol. “Não havia departamento de Português e quando a minha universidade decidiu abrir esse departamento mandou-me para o Instituto Politécnico de Macau, para estudar a língua.” Depois da passagem pelo território seguiu-se Portugal e, novamente, Pequim. Em 2007 já estava a dar aulas na capital e, ao mesmo tempo, a traduzir literatura.

Pessoa apareceu por gosto pessoal e também por influência de amigos ligados às letras. “Tenho dois amigos chineses, grandes poetas contemporâneos chineses que vivem nos EUA, e que estão muito curiosos pela poesia de Fernando Pessoa. Eles são muito sensíveis à arte de fazer poesia. Já leram as traduções de Pessoa para inglês e queriam introduzir ao público chinês alguns dos seus poemas”, continua Min. A ideia era que Min fizesse a correcção dos poemas vertidos do inglês para chinês, a partir do original em português, mas o projecto acabou por não avançar nesses termos e a tradutora tomou em mãos a empreitada de o fazer sozinha.

Alberto Caeiro foi a escolha óbvia para esta mulher que vê na tradução “a base para toda a investigação” académica que faz. “Quero ter contacto com os colegas, mas o que eu mais quero é que as pessoas chinesas tenham acesso a estes textos. Esse é o primeiro passo. Então, a tradução é a minha responsabilidade.” Caeiro, o heterónimo da natureza, surge-lhe como “matriz de todos os poetas heterónimos, a base do sistema filosófico e de pensamento de Fernando Pessoa”.

As dificuldades em traduzir os versos de Caeiro estão paradoxalmente ligadas à lisura da linguagem que o poeta usa. Min Xuefei explica que “é muito difícil de traduzir, porque a linguagem é muito simples”. “Como se faz para o público chinês acreditar que um grande poeta possa utilizar uma linguagem tão simples? Não é nada fácil”, considera.

A natureza e outros autores

“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é.

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem por que ama, nem o que é amar…”

De Caeiro, falou Fernando Pessoa assim, ao inventar-lhe a vida: “Nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão, nem educação quase alguma, só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia avó. Morreu tuberculoso.”

Alberto Caeiro era o pretenso mestre de Álvaro de Campos e Ricardo Reis, o homem que bebia da vida e da natureza, o cérebro distante das luzes e da ilustração mas próximo da terra. É aqui, nesta proximidade aos elementos, que Min encontra paralelismo entre muitos dos poemas escritos de rajada por volta de 1914, como os 49 da série “O Guardador de Rebanhos”, que Pessoa disse ter escrito numa só noite. “O taoismo é uma filosofia da natureza. Caeiro também escreve principalmente sobre a natureza. Encontro relações entre as duas correntes”, explica.

Quando não está ocupada com Fernando Pessoa e todos os poetas que o poeta tinha dentro, Min Xuefei dedica-se à sua outra fixação literária: Clarice Lispector. A tradutora já verteu para chinês um livro de contos da autora brasileira nascida na Ucrânia e prepara-se agora para apresentar a tradução de “A Hora da Estrela”, também na Feira do Livros de Xangai.

Porquê Clarice? “Não posso negar que o meu sexo é feminino e acho que Clarisse Lispector é a melhor escolha para uma mulher que procura a sua identidade interior. Já traduzi várias obras dela.”

Antes de decidir dedicar-se inteiramente ao estudo e tradução destes dois nomes maiores das letras lusófonas, Min Xuefei também trabalhou em obras de Paulo Coelho como “Verónica Decide Morrer” e o “Vencedor Está Só”, ajudando a traduzir “o escritor lusófono mais popular na China”. Esses tempos já lá vão. Agora, ainda no começo de uma carreira que se adivinha longa, a tradutora é cabal: “Só me interessa traduzir dois escritores lusófonos. Um é Pessoa, a outra é Clarice Lispector. São só eles que me interessam”.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s