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TINTA DA CHINA: UMA DÉCADA A DEIXAR MARCA

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Há dez anos, Bárbara Bulhosa e Inês Hugon fundavam uma editora que haveria de conquistar leitores contra todas as previsões de crise, no mercado editorial ou no país, afirmando-se como uma das mais prestigiadas editoras portuguesas. Na sede da Tinta da China, em Lisboa, o PARÁGRAFO conversou com Bárbara Bulhosa sobre esta primeira década de actividade.

A Tinta da China nasce em 2005, com a publicação de O Pequeno Livro do Grande Terramoto, de Rui Tavares. Antes desse primeiro livro, como foi a génese deste projecto?
Sempre gostei muito de livros. Quando fui para a faculdade, fui para História, mas poderia ter ido para Literatura. Entretanto, comecei a namorar com um livreiro e quis logo começar a trabalhar na livraria, portanto, aos dezoito anos, estava a fazer os Natais na Bertrand das Amoreiras, que era do Jaime Bulhosa e dos irmãos. Quando apareceu a Bulhosa Livreiros, acabei por ficar. Isto foi em 1996 e comecei a fazer recrutamento de pessoal, o que me fez conhecer o Olímpio Ferreira e o Pedro Serpa, por exemplo. Em 2004, há uma cisão na Bulhosa e eu e o Jaime somos despedidos. Nessa altura, fiquei desempregada e fui fazer uma pós-graduação em Técnicos Editoriais na Faculdade de Letras de Lisboa, porque havia toda uma área técnica que eu não dominava.

Essa pós-graduação já é feita com o intuito de criar uma editora?
Sim, e foi muito bom, porque pude aprender o que me faltava. Quando acabei, já tinha definido que ia fazer uma editora. Como estava no subsídio de desemprego, havia a hipótese de pedir todo o subsídio concentrado caso apresentasse um projecto viável para criar o próprio emprego. Desafiei o Olímpio Ferreira para ser meu sócio, que não aceitou, embora tenha acabado por ficar muito ligado ao projecto, e depois fui ter com a Inês Hugon, que tinha sido minha colega na faculdade, que aceitou. Concorremos a esse projecto de criação do próprio emprego, portanto, a Tinta da China começa com um apoio do Estado, e eu acho que isto é uma coisa relevante, porque é importante que as pessoas que não têm dinheiro possam, com um projecto consistente, ter o Estado a apoiá-las. A editora começou instalada em minha casa, até termos espaço próprio, mas esse dinheiro pagou-nos os computadores, o sistema informático, os dicionários, a fotocopiadora…

Os vossos livros representaram uma mudança visual muito grande naquilo que se via nas livrarias. Como é que isso acontece?
Isso deve-se muito à Vera Tavares, que faz a capa do primeiro livro e o nosso logotipo. E depois há o Olímpio [Ferreira], que trabalha as paginações e o tipo de letra. O que eu tinha muito claro era que não queria fazer livros como eles se estavam a fazer na altura; queria fazer objectos na linha dos livros clássicos, percebendo-se que eram novos. A Vera foi mais longe e decidiu que todas as fontes das capas seriam desenhadas por ela. Isto tudo foi um encontro muito feliz e quando a Vera propõe aquela mancha de tinta na lombada, percebi logo que era com ela que queria trabalhar.

 

E o nome, como surge?
Essa é uma história curiosa, porque as pessoas acham que há uma grande teoria e gostam muito de efabular… Fizemos um brainstorming, eu e a Inês [Hugon], com o Jaime [Bulhosa], que acompanhou a formação da editora, e dissemos vários nomes. O Jaime disse Tinta da China, mas o nome de que gostávamos era Janela Indiscreta, que já estava registado. Quando fomos ao registo, levámos três hipóteses: Marca Amarela, por causa da banda desenhada, Preto no Branco e Tinta da China. Quando saímos de lá, éramos Tinta da China, porque os outros dois também estavam registados. Os nomes são muito aquilo que fazemos deles e, no caso da Tinta da China, a nossa associação era com a ideia de ser uma tinta que não sai, por um lado, e com o universo da escola, de um modo de trabalhar que já não se usava muito, por outro. Curiosamente, no primeiro ano em que participámos na Feira do Livro ficámos ao lado do Centro Científico e Cultural de Macau e foi muito engraçado, porque conversámos sobre o nome e perguntaram-nos, precisamente, se tínhamos alguma relação com a China. Ainda tenho um álbum que eles me ofereceram, chamado Tinta da China, com desenhos de Macau feitos a tinta da china.

 

O que mudou em dez anos?
Muitas coisas. Quando surgimos, havia muito mais editoras independentes. A concentração editorial já tinha começado na distribuição, mas o grande desastre começa com a falência da DigLivros e de outras distribuidoras, que levou à falência de muitos editores. Isso facilitou a concentração editorial, com a Leya e a Porto Editora a assumirem o papel de destaque, e teve como consequência a destruição de grandes marcas editoriais e a imposição de uma lógica que segue apenas os números de vendas. A concentração acabou com editores independentes, com livreiros independentes, e impôs regras completamente desleais no mercado.

Apesar disso, a Tinta da China tem conseguido escapar…
Sim, porque fazemos um trabalho tão distintivo que os livreiros nos querem nos escaparates de qualquer forma. E usufruímos muito do facto de trabalharmos de modo diferente e, até, de sermos independentes, porque aos livreiros, nomeadamente aos grandes grupos, não lhes interessa ficar totalmente nas mãos de um ou dois editores. De qualquer modo, tenho sempre medo, porque isto é muito frágil.

Este cenário vai continuar assim ou pode mudar?
Sou optimista e acho que as coisas vão mudar. Estão a aparecer muito mais editoras pequenas, com um trabalho interessantíssimo, e estão a surgir mais livreiros. Quando até aqui falávamos do mercado do livro, acho que vamos passar a falar de duas coisas diferentes: o livro que está no hipermercado, o bestseller, e os outros. E esses outros vão ter um peso, porque as pessoas não deixaram de gostar de livros ou de literatura.

Alguma vez pensaram na hipótese de deixarem de ser independentes e integrarem um dos grandes grupos editoriais?
Nunca. Isso para mim está fora de questão. Se as coisas não corressem bem, fechávamos as portas, mas as coisas têm-nos corrido bem. Não estou rica, nem nunca vou ficar, mas a Tinta da China é uma editora sem dívidas, com nove funcionários, todos efectivos, com seguro de saúde, com os descontos certos. E os livros chegam às pessoas e são bem recebidos. Para mim, isso chega.

A Tinta da China abre no Brasil, em 2012. Como surgiu essa expansão, sendo a editora pequena e o mercado brasileiro tão grande?
Em 2011, com o início da crise, temos uma quebra grande de vendas e eu começo a pensar que não posso despedir pessoas e que preciso de mais trabalho e de cortar na produção. Entretanto, há uma série de coincidências: a minha irmã é brasileira, o que me dava a facilidade de abrir uma empresa no Brasil, e é advogada. A minha irmã, que agora é também minha sócia, e o meu cunhado ajudaram-me a fundar a empresa e fui com a Inês para o Brasil, em Setembro de 2011, para uma viagem de prospecção. Falámos com livreiros, editores, vimos imensos livros, levámos os nossos e a maior parte dos agentes culturais com quem falámos disseram-nos que tínhamos ali muitas hipóteses, porque ninguém fazia o que nós fazemos. E foi assim.

A vossa primeira colecção é a dos Clássicos Ilustrados e seguem-se outras que acabaram por ajudar a definir o vosso catálogo. Como é que surge, por exemplo, a colecção de Literatura de Viagens, uma das mais emblemáticas?
Tinha trabalhado com o Carlos Vaz Marques, em 2006, e queria muito continuar a trabalhar com ele. Depois de várias propostas, surgiu a ideia dessa colecção, em 2008. Já não sei quem é que a propôs, mas sei que as coisas começam muito mais pela nossa ligação pessoal do que por outra coisa. O Carlos lia muitos livros de viagens e tinha viajado muito. Foi um risco enorme, com a Annemarie Schwarzenbach [Morte na Pérsia], o Paris, do Julien Green… Eram livros difíceis, mas quisemos fugir ao relato de viagem. Queríamos que fosse, antes de mais, literatura, com um sítio, real ou não. Íamos fazer setecentos exemplares, pensando que ia ser muito difícil vender, e a verdade é que correu muito melhor do que imaginei. O efeito de colecção funcionou: na Feira do Livro, acontece muito termos pessoas com uma lista a verem quais os livros que lhes faltam.

E as outras colecções?
Quando somos editores, temos de reconhecer que há áreas que não dominamos. Podemos ter um gosto pessoal, um certo faro editorial, mas se temos perto de nós pessoas que sabem muito mais do que a maioria sobre determinadas áreas, é preciso desafiá-las e foi o que eu fiz, por exemplo, com o Ricardo Araújo Pereira e a colecção de humor, ou com o Pedro Mexia e a colecção de poesia. Isto também tem muito que ver com as pessoas com quem quero trabalhar e quando temos pessoas da casa a saberem fazer as coisas, é um desperdício não aproveitar essas capacidades e fazer deles editores.

Se não tivesse fundado a Tinta da China há dez anos, voltaria a fazer o mesmo agora?
Sim. Não me arrependo de absolutamente de nada. Em 2005 já se falava na crise e é incrível a quantidade de gente que, nessa altura, nos pergunta como é que vamos abrir uma editora em época de crise. Fui respondendo que era nessas alturas que se devia arriscar e hoje, quando leio essas perguntas e respostas, percebo que estávamos tão bem em 2005… As pessoas compram muito menos hoje e os livros estão mais caros, porque os editores foram obrigados a diminuir as tiragens. De qualquer modo, voltaria a fazer tudo outra vez.

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