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Uma cidade, múltiplos olhares

MacauPastPresent

Quinhentas páginas, quinze autores, quatro idiomas, Macau Past and Present reúne as comunicações apresentadas no colóquio homónimo, realizado em Lisboa, em 2012. O volume é imponente e o seu conteúdo atesta a diversidade de pontos de vista, disciplinas e escopos permitida pela história de Macau, mas igualmente pela sua sociedade, economia, urbanismo e cultura, sempre num sentido necessariamente lato. Da religião à gastronomia, passando pelas questões da identidade, do desenvolvimento económico ou do comércio e das suas rotas, o livro coordenado por Luís Filipe Barreto e Wu Zhiliang compõe um quadro múltiplo sobre a cidade e as suas muitas declinações, na geografia e na história.
Luís Filipe Barreto, co-editor do volume, falou ao Parágrafo sobre a importância de tornar públicos estudos como estes, fazendo o balanço dos contactos e partilhas de informação e conhecimento entre Macau e Portugal ao longo dos últimos anos. Diz o editor, também presidente do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), em Lisboa: “Entre Macau/RAEM e Portugal, as trocas e os contactos académicos, culturais, científicos foram ao longo do século XXI crescendo em quantidade (de projetos e de organização comum, de intercâmbios vários) e em qualidade dos objetivos e dos parceiros, cada vez mais vastos e plurais. Estas relações entre a RAEM/R. Popular da China e Portugal são hoje – e sempre foram – multilaterais, envolvendo outros asiáticos e europeus, africanos e americanos. São também multilinguísticas, não ficando pelo chinês, português, inglês, mas implicando outras línguas asiáticas e ocidentais.” Nessa plataforma de discussão e conhecimento, o CCCM, em Lisboa, tem tido um papel central no apoio à investigação e cooperação desenvolvidas na área das Ciências Sociais e Humanas relativamente a Macau e à China, bem como à Ásia Oriental e às relações euro-asiáticas. Explicando o modo como esse apoio se concretiza, o director do CCCM resume: “os domínios da investigação do presente e do passado de Macau, em si mesmo e enquanto rede e função internacional/global para a restante China/Ásia Oriental e Relações Eurasiáticas, marcam a cooperação do CCCM com a Fundação Macau e restantes parceiros institucionais da RAEM. Esta investigação em cooperação tem gerado colóquios internacionais, programas próprios (acerca, por exemplo, da História da Tradução em Macau), publicações, exposições realizadas em conjunto e envolvendo por vezes, também, outros parceiros asiáticos e ocidentais.”

Um desses colóquios, Macau Past and Present, foi precisamente o que esteve na origem do livro agora publicado. Com textos sobre a gastronomia macaense, traçando os muitos percursos da fusão que lhe esteve na origem e as influências mais recentes que hão-de mantê-la viva no futuro, sobre a missionação jesuita no sul da China, ou sobre as migrações que fizeram de Macau um espaço onde se cruzam pessoas de muitas origens, o livro que agora se publica é um passo importante para o estado da arte sobre a investigação dedicada a Macau, mas igualmente uma montra de temas, ideias e abordagens sobre uma cidade com séculos de história e ainda tanto por estudar. Acima de tudo, Macau Past and Present é um contributo mais para o conhecimento da evilução e das características de Macau, em Portugal como em qualquer parte do mundo. Como diz Luís Filipe Barreto, “o conhecimento de Macau, tanto no passado e no presente como nas possibilidades futuras, é um exercício de ampla e de plural cooperação internacional”, que tem vindo a crescer em Portugal e na China, bem como em muitos outros países. “Em Portugal, no século XXI, existe cada vez mais interesse no conhecimento das Ásias da Ásia, muito em especial do Indico e Pacífico Asiático, da Ásia Oriental, Ásia do Sueste e Ásia do Sul. Macau tem beneficiado desse interesse crescente, quantitativo, qualitativo e de novas gerações de investigadores, divulgadores, público específico. A Ásia é hoje moda universitária, académica, empresarial, política. Pode na verdade dizer-se que hoje, no Portugal do século XXI, se conhece Macau não apenas de forma diferente como de forma bem mais aberta, plural, comparativa, internacional. Conhecem-se mais e melhor dados e em diferentes línguas, conhecem-se mais e melhor as implicações de Macau com Guangdong e o Fujian, Beijing e Shanghai, Nagasaqui, Manila, Malaca, Batavia, Singapura, Goa e Cochim, Lisboa e Salvador, Roma, Amesterdão, Londres e outros centros e cidades da Europa e da América. Muita da função e utilidade de Macau, no passado e no presente, passa por um fazer multilateral, mais de ação do que de visibilidade. Isso esconde realidade, mas alimenta ainda mais a necessidade de mais e de melhor conhecimento.” O volume cor-de-laranja, com uma capa onde se sobrepõe um velho mapa de Macau à fotografia do enorme lótus do casino Grand Lisboa, soma mais um contributo para esse conhecimento. Possa o futuro dar-lhe continuidade, com novos estudos e outras propostas de investigação, mas sobretudo com a vontade colectiva de resgatar a memória de Macau dos arquivos pessoais e institucionais onde tantos documentos aguardam quem os traga para o espaço público.
Sara Figueiredo Costa

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