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A melancólica arte de saber

Pedro Mexia, Biblioteca, Tinta-da-China

Hélder Beja

A ideia do bom selvagem – aquele que não foi corrompido pela civilização e que, por isso ou também por isso, é ‘bom’ e ‘feliz’ – é tanto mais actual quanto mais avançamos na direcção da ‘sociedade do conhecimento’. Apesar de ter mantido durante anos alguns dos melhores blogues em língua portuguesa, Pedro Mexia não será de todo um homem dessa sociedade do conhecimento, não no sentido mais tecnológico do termo. Mas é por certo um homem do conhecimento.

Ao ler Biblioteca, é difícil não pensar nisto uma e outra vez: até que ponto o conhecimento traz felicidade? E até que ponto é essa ideia de ‘felicidade’ aquilo que de mais importante se pode retirar desta experiência de estar vivo?

Não se pretende aqui escrutinar a felicidade de Mexia, tarefa que não só se revelaria impossível como disparatada. Apetece, isso sim, olhar de fora o caminho intelectual de um homem que, sem exagero da palavra, se tem revelado notável enquanto colunista, ensaísta, poeta. E ao mesmo tempo perceber uma certa melancolia que atravessa parte desta colecção de crónicas de jornal sobre escritores e livros.

Raramente pessimismo e desencanto foram tão belos como nos textos de Pedro Mexia. Se Cinemateca é uma obra mais homogénea sobre filmes e cineastas de que Mexia gosta, Biblioteca é uma a colectânea mais desigualada mas por vezes mais pessoal e passional, como na crónica “A Balada do Café Triste”.

O livro abre com uma homenagem às enciclopédias a daí viaja por temas como o tempo, a amizade, o amor, a traição, a melancolia. Com o avançar das páginas, ou são os textos de Pedro Mexia que melhoram, ou somos nós que melhoramos enquanto leitores. Porque Biblioteca é acima de tudo um livro para leitores, aqueles que gostamos de referências, que ficamos curiosos com o primeiro romance de Leonard Cohen, com escritores menos conhecidos, como Barbara Pym, ou menos lembrados, como William Inge. Leitores que, como o autor, querem o cânone e querem ir além do cânone; querem saber por que Agustina e Herberto são para Mexia os grandes génios literários portugueses do nosso tempo, e por que vale a pena ler o livro de Pedro Paixão sobre a sua amizade com Miguel Esteves Cardoso.

Kafka, Roth, Pound, Beckett, Kundera, Chandler, Hergé, Camus, Larkin, Dostoiévski, Camilo Castelo Branco, Tolstoi, Conrad, Raul Brandão, Pirandello e muitos outros autores cabem neste livro notável, cheio de pistas para outros livros notáveis.

Karl Kraus, a quem é dedicada uma crónica, tem uma frase que sintetiza muito do conforto encontrado nos livros e que Pedro Mexia confessa querer cravada no seu túmulo: “A vida é um esforço que seria digno de uma melhor causa”.

 

 

 

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