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BABEL NO SUL DA CHINA

 

 

Sara Figueiredo Costa

Doze personagens procuram as suas histórias e é a região do Delta do Rio das Pérolas que lhes serve de cenário. South China Morning Blues faz um trocadilho óbvio com o jornal de Hong Kong, assumindo as cidades do sul e os ambientes onde estrangeiros e locais se encontram (ou não) como lugares literários.

Nascido em Israel, Ray Hecht cresceu nos Estados Unidos da América, em Cincinatti, e diz de si próprio que os muitos filmes e livros que lhe chegaram durante a adolescência foram fundamentais para a construção do escritor que hoje quer ser. Vivendo em Shenzen desde 2008, é natural que o sul da China tenha sido a matéria prima privilegiada para o seu mais recente romance, uma narrativa a várias vozes que reflecte a polifonia – por vezes, também a cacofonia – que as grandes metrópoles chinesas ecoam na sua agitação diária.

No turbilhão de quem quer captar o quadro completo, a cena geral e os ínfimos detalhes, Ray Hecht cria um Sul da China que talvez só exista no seu modo de olhar a região. Por um lado, temos o caos urbano, os grandes arranha-céus onde poucos se conhecerão, o dinheiro que nem sempre é tão fácil de ganhar como alguns gostariam de acreditar, mas que apesar disso vai surgindo com abundância e um ou outro esquema menos legal. Por outro, há uma calma que parece não fazer parte deste mundo, um tempo onde a tradição ainda exige longos jantares de família, o respeito pelos mais velhos, a manutenção de certos papéis sociais. Ao Parágrafo, o autor definiu assim esse contraste: “A era das grandes cidades mudou-nos, deixámos de viver na comunidade de vizinhos e passámos a ter uma nova vida, sozinhos no meio da multidão. Isso não tem de ser sempre uma coisa má, mas gostando ou não, as grandes cidades são assim e não há nada tão esmagador como as mega-metrópoles do Delta do Rio das Pérolas. A combinação única de uma cultura chinesa introvertida com a incerteza de um desenvolvimento económico aceleradíssimo – para não referir a estranha sensação de ser um expatriado – tornou o fenómeno do ‘sozinho na multidão’ particularmente relevante nos dias que correm.”

Entre os dois ritmos e as suas muitas gradações, doze personagens vão tropeçando nos dias. Uma dessas personagens, Terry, é um escritor algo frustrado em cuja cabeça a ideia de uma ‘Cantonland’ começa a ganhar corpo. Nesse espaço geográfico, o escritor que é personagem persegue o seu livro ainda por escrever e é difícil não ver na perseguição o gesto do próprio Ray Hecht: “Apesar de South China Morning Blues não ser um romance autobiográfico, tenho de admitir que a personagem de Terry é aquela que mais ecoa a minha própria voz. Talvez isso se torne um pouco óbvio ao longo do livro, mas uma vez que Terry é um escritor tentando captar a essência da China moderna, isso permitiu-me expressar isso mesmo. De facto, a ideia de uma ‘Cantonland’ como um encontro do caos com uma estranha harmonia era exactamente aquilo que eu queria escrever”, conta o autor.

À medida que os fios desta trama se vão desembaraçando, percebe-se a importância da cábula que, no início do livro, faz corresponder o nome de cada personagem a um caracter chinês e a um signo do zoodíaco. O recurso aos doze animais parece um modo óbvio de invocar a cultura tradicional para um romance contemporâneo, mas o avançar da narrativa vai revelando outras camadas de significado. Personagens e signos relacionam-se mais pelo trabalho de caracterização psicológica do que pelo gesto forçado de uma correspondência, acabando por prevalecer a ideia de que signo algum define tão bem uma personagem como os seus enganos e ilusões à medida que o tempo vai passando. Com uma dúzia de personagens entre mãos, como lidou Ray Hecth com a ameaça da amálgama de vozes? “Equilibrar todos os personagens e cada uma das histórias foi um desafio, mas era assim que tinha imaginado este romance. De outro modo, não poderia escrever sobre a magnitude de um país como a China. A minha esperança foi conseguir que as vozes de cada personagem fossem suficientemente distintas para que os leitores não lhes perdessem o rasto, também porque acredito que nem sempre a máxima simplicidade é sinal de respeito para com os leitores inteligentes. Acredito que é um desafio que vale o esforço”, explica o autor.

Entre os doze personagens de South China Morning Blues, há chineses do Continente, chineses de Hong Kong e gente de vários outros pontos do mundo – os que emigraram para o sul da China e cuja imagem de uma certa sofisticação parece justificar sua arrumação estatística no campo dos expatriados, e não no dos emigrantes. Ray Hecht capta bem este universo de estrangeiros que chegam a Shenzhen, Guangzhou ou Hong Kong para trabalharem, nos negócios ou no ensino do inglês, sempre como resultado de uma escolha ponderada, uma vontade de mudar de vida longe de casa ou uma tentativa de desvendar aquela ideia de exotismo que se vende diariamente no espaço a que chamamos Ocidente. Aqui não há gente fugindo da miséria e disposta a trocar a sua força de trabalho por meia dúzia de moedas, apenas as suficientes para impedir a fome, e isso define o ambiente narrativo, ao mesmo tempo que cria o cenário ideal para uma reflexão sobre o modo como estes emigrantes a quem todos chamam expatriados se relacionam com os locais. E há de tudo, do desprezo de Marco, unicamente interessado no sucesso igualitário dos seus negócios e das suas conquistas sexuais à demanda por uma suposta autenticidade da cultura chinesa por parte de Amber. Sobre essas diferentes abordagens, Ray Hecht resume: “A relação entre expatriados e chineses mostra quão diferentes e subjectivas são as experiências humanas. Muita gente vem trabalhar para a China e não aprende nada sobre a cultura local, limitando-se às queixas e às festas. Outras pessoas estão mais interessadas na profundidade e aprendem o máximo que podem, relacionando-se com os habitantes locais. Há de tudo. Quis escrever sobre o modo como algumas pessoas vivem numa espécie de bolha de expatriados, enquanto outras se dedicam a conhecer a cultura e a língua, procurando uma integração na comunidade. Essa diversidade de atitude dos expatriados interessa-me muito e, pessoalmente, acho impossível que haja uma integração completa, mas acredito que quanto mais aprendermos sobre a China e procurarmos viver aqui, e não numa bolha mental, melhor.”

Apesar de o sul da China, e concretamente a região do Delta do Rio das Pérolas, ser o cenário deste romance de Ray Hecht, alcançando o estatuto de personagem colectiva em algumas passagens, Macau não integrou a lista de cidades onde a acção decorre. Ainda assim, sem competir com o protagonismo de Shenzen, Guangzhou e Hong Kong, nem sequer com Zhuhai, que merece algumas páginas onde se regista a deambulação e a decadência anunciada do namoro de Danny e Kyla, Macau tem uma breve aparição nesta história a muitas vozes. Quando Steven Lee, regressado à sua condição de solteiro, percebe que não tem um rumo definido para a sua vida, é aqui que vem parar para umas horas de esquecimento do mundo. Entre casinos e casas de massagens, a escolha não é inocente: “Infelizmente, Macau é, para muitos expatriados da região, uma espécie de ponto de passagem rápida. Na verdade, a cidade não tem de ser um espaço de hedonismo e escape, mas dentro do alcance limitado da minha narrativa, foi nesse ponto que decidi focar-me. Num romance situado na província de Guandong, essa visão era a que melhor servia a história. Até Zhuhai teve direito a maior destaque… desculpem! E mesmo Hong Kong acabou por ser mais sobre pessoas que vêm de fora em visita do que sobre a cidade propriamente dita. Macau tem uma história única e muito mais para oferecer, por isso pode ser que, numa sequela, me dedique a aprender mais sobre a cidade e a explorá-la…”

Não há como saber se Ray Hecht cumprirá esta hipótese, escrevendo sobre Macau e o seu papel nas enormes mudanças urbanas, económicas e sociais que as metrópoles da região do Delta têm vivido, mas não será arriscado dizer que as geografias urbanas do sul continuarão a marcar presença na obra do autor. De Pearl River Drama a The Ghost of Lotus Mountain Brothel, incursões anteriores de Hecht pela literatura, percebe-se que a mudança dos Estados Unidos da América para o sul da China foi o gatilho para um novo universo literário, assente na constatação das diferenças culturais, mas igualmente na vontade de conhecer e aprender. Resta esperar por próximas abordagens.

 

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