Uncategorized

Continuamos a olhar para as estrelas

 

Wendi Song

A edição de 2015 dos Prémios Hugo para Melhor Romance distinguiu Liu Cixin, autor chinês de ficção científica.

Antes do lançamento da trilogia The Three Body, Liu Cixin já era conhecido entre os leitores chineses de ficção científica pelos seus contos publicados em revistas do género, e várias vezes premiados, desde 1999. Há cinco anos, acabou de escrever a trilogia The Three Body (na versão original, em língua chinesa), uma obra que causou sensação entre os fãs e que, para além disso, colocou pela primeira vez a ficção científica chinesa no espaço público. A trilogia começou a ser publicada em inglês pela Tor Books em 2014 e o primeiro volume, The Three Body Problem, ganhou o Hugo Award de 2015, um dos mais prestigiados prémios mundiais para o género.

A escrita de Liu é herdeira da ficção científica clássica, com enredos fortes e um ritmo marcado pela tensão. A vontade de colocar no centro da narrativa o grande poder da ciência e a força da natureza são elementos notórios e os seus textos são muitas vezes atravessados por uma certa sensação de heroísmo. Exímio nas narrativas densas e nos saltos temporais, o trabalho de Liu incorpora frequentemente as características da Space Opera ou da ficção científica mais clássica de produção soviética: cenários grandiosos e descrições delicadas, cenas detalhadas, questões centrais em torno do bem e do mal e um desafio constante à complexidade do mundo, sempre a par com a procura da verdade. O estilo de escrita do autor e a aparentemente infinita criatividade combinaram-se na perfeição nesta trilogia, angariando milhares de leitores pelo mundo inteiro.

Nesta obra-prima épica, descreve-se o momento em que a Terra enfrenta o ataque de uma civilização alienígena e a emocionante “teoria da floresta negra”, um esforço colectivo em busca da sobrevivência que acabará por falhar. Entre as obras da literatura mundial que mais o influenciaram, Liu destacou, em diferentes entrevistas, 2001: Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke, 1984, de George Orwell, e Guerra e Paz, de Lev Tolstoi. Lendo a trilogia, percebe-se porquê.

Liu Cixin trabalha como engenheiro informático numa central de produção energética estatal numa zona remota do Norte da China, na província de Shanxi. É um lugar pequeno, chamado Niangziguan, rodeado de montanhas e a cerca de quarenta minutos de carro da cidade mais próxima. Apesar de o trabalho na central ser calmo, apenas com alguns meses mais agitados todos os anos, Liu tem de permanecer no seu posto, para o caso de alguma emergência acontecer, mas pode usar o tempo livre sem restrições. Ao contrário dos colegas, que preferem ficar na conversa, o autor costuma aproveitar o tempo passado à secretária para escrever. E foi assim que começou.

A ficção científica sempre foi um nicho marginal na China, com poucos autores e ainda menos leitores. E apesar de Liu ter vencido várias vezes o Galaxy Award, o mais prestigiado prémio do género atribuído na China, apesar de a trilogia The Three Body se ter tornado o maior bestseller de ficção científica alguma vez publicado no país, nenhum dos seus colegas de trabalho fazia a menor ideia de nada disto. Nem sequer os seus amigos e familiares alguma vez deram importância aos textos que Liu escrevia.

Depois da fundação da República Popular da China, as obras de autores famosos como Jules Verne foram traduzida com frequência, mas graças à influência das políticas de controle cultural da época, a ficção científica foi sempre encarada como ferramenta para popularizar a ciência ou, em alternativa, como modo de controlo ideológico. Os autores que cultivavam o género eram, portanto, considerados como escritores de ciência ou de literatura infantil.

Depois da Revolução Cultural, entre 1977 e 1983, a ficção científica viveu a sua época áurea na China. Ao longo desses seis anos, o número e a qualidade dos livros de ficção científica e das publicações dedicadas ao género cresceu substancialmente, com as grandes obras canónicas a serem escritas nesse período. Influenciada pela chamada ‘scar literature’ que sucedeu à Revolução Cultural e pela literatura de reflexão, a ficção científica começou a adoptar a realidade como tema central e os autores passaram a dedicar o seu interesse à sociedade, às pessoas e à discussão sobre o destino da ciência e da humanidade.

Esse renascimento foi travado em 1983, com a Campanha Anti-Poluição Espiritual. Nesta nova fase, também conhecida como ‘pequena revolução cultural’, a ficção científica foi administrativamente caracterizada como ‘poluição espiritual’ e todos os editores do género foram silenciados de um momento para o outro, com a proibição total de publicação de livros e com muitas revistas a encerrarem. Durante um período de tempo considerável, ninguém voltou a falar de ficção científica, até que chegámos ao século XXI.

No seu posfácio à edição americana de The Three Body Problem, Liu Cixin escreveu: “Não posso fugir e deixar para trás a realidade, do mesmo modo que não posso viver atrás da minha sombra. A realidade marca-nos de modo indelével. Cada época coloca correntes invisíveis naquelas que a atravessam e eu só posso usar as minhas próprias correntes para dançar.” As correntes nunca conseguiram prender em absoluto aqueles que são mentalmente livres, pelo que mesmo em alturas complicadas, Liu continuou a escrever. Durante anos, esteve sossegado no seu canto a pensar, ler, escrever, rever, esperando pacientemente, sempre sozinho.

Quando recebeu o Hugo Award, os media destacaram-no como “aquele que, por força e virtude próprias, colocou a literatura de ficção científica da China ao nível da melhor que se faz no mundo”. E foi precisamente isso que Liu fez.

 

 

 

 

 

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s