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LISBOA LONGE DOS GUIAS

Sara Figueiredo Costa

Primeiro chegou a Zona de Desconforto, uma colectânea de histórias curtas escritas e desenhadas por autores portugueses que, por motivos profissionais ou apenas emocionais, passaram uma temporada noutro país. Espanha, Brasil ou Argentina foram alguns dos lugares onde dez autores colocaram as suas narrativas, umas vezes em jeito de registo de viagem, outras com histórias alheias servindo de mote para outros voos.

Lançado esse volume, ficou a ideia de criar um livro em sentido inverso, uma nova antologia onde as histórias fossem assinadas por autores estrangeiros a residir, por muito ou pouco tempo, em Portugal. Do país, acabou por resumir-se tudo à capital, não por qualquer vontade de elogiar o centralismo, mas apenas porque os autores que se envolveram no novo projecto vivem todos em Lisboa. Chegou, assim, às livrarias Lisboa É Very Very Typical, volume que junta doze autores de banda desenhada noutras tantas histórias curtas. Apresentado no final do ano passado, o livro apresenta uma cidade onde não se reconhecem as atracções turísticas que têm colocado Lisboa no palco de tantas publicações especializadas em viagens, mas onde os quotidianos de quem narra acabam por revelar espaços menos óbvios, alguns descobertos com espanto, outros vividos com a mesma naturalidade de quem os conhece há décadas.

Com várias antologias originais de banda desenhada no currículo, para além de outras edições em nome individual, a Chili Com Carne tem sabido rodear-se de alguns dos mais prometedores autores de banda desenhada, muitas vezes apostando em principiantes, sempre sem ceder no capítulo da qualidade e da vontade de experimentar caminhos a partir da linguagem da banda desenhada. Marcos Farrajota, o editor responsável por esta vertente da associação, conversou com o Parágrafo sobre esta nova edição, explicando como nasceu a ideia de fazer este Lisboa É Very Very Typical. Depois de Christina Casnellie, uma das autoras que integra o Zona de Desconforto ter apresentado ao editor o trabalho de Begoña Claveria, Farrajota percebeu que o tema dos portugueses no estrangeiro podia ser ampliado: “A ideia era boa, ter um reverso (uma estrangeira em Portugal) mas acabou por não haver espaço, porque o Zona… cresceu, a dada altura. Ficou a banda desenhada dela em banho maria – kj cheguei até em colocá-la num Mesinha de Cabeceira [fanzine editado por Marcos Farrajota desde 1992] – mas a dada altura decidimos arriscar em fazer um ‘Zona 2’, mas com estrangeiros em Portugal. Ficaram-se por Lisboa…”

Com um título como este, o livro arrisca-se a aliciar turistas para uma suposta cidade que, afinal, não cabe nestas páginas. Apesar disso, Marcos Farrajota acredita que Lisboa É Very Very Typical não deixa de ser um cartão de visita da capital, sobretudo para quem não ande à procura de tuk-tuks, tascas gourmet e casas de fado com preços astronomicamente inflacionados: “Não é um diário de viagem ou um daqueles livros de esboços chatos. Quase nunca se vê a cidade, mas daí, qual o problema disso? São as pessoas que fazem as cidades e não os monumentos e museus. Se calhar até é um livro de despedida da Lisboa anacrónica e do século XX para uma nova, menos romântica, provavelmente…” Menos romântica, mas com espaço para gente que se descobre estrangeira apesar de falar a mesma língua, como na história de Téo Pitella, infiltrações inevitáveis nos prédios antigos, a despertarem a bronquite e a narrativa de Alejandro Levacov, casas que desaparecem e voltam a erguer-se à medida que alguém precisa de as habitar, na história de Taís Koshino.

Se Zona de Desconforto se tornou conhecido do público generalista com a atribuição do prémio para melhor álbum nacional, nos Prémios Nacionais de Banda Desenhada atribuídos pelo Amadora BD, em 2014, talvez este Lisboa É Very Very Typical aproveite a boleia. Marcos Farrajota não atribui grande importância ao prémio, para além da comercial. “O livro ganhou o prémio e vendeu mais, até esgotar, porque apareceu em vários jornais, mas se não tivesse o tema que tinha – o da emigração contemporânea de portugueses – não teria chamado atenção aos media. Num mundo perfeito, não seria necessário o prémio para chamar a atenção e vender bem, mas como sabemos, a banda desenhada é ignorada pelos media, pura e simplesmente, e nesse sentido, foi muito positivo. Artisticamente, o prémio não nos afecta nada.” Sabendo que a Chili Com Carne não tem por hábito reeditar os seus livros, preferindo apostar em novas edições, quem quiser conhecer Lisboa pelos olhos de quem nela vive vindo de fora, talvez deva apressar-se. Nunca se sabe se um novo prémio não pode esgotar o título antes que se dê por isso.

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