Crítica

O dever de lembrar

1507-1

Sara Figueiredo Costa

Quando Svetlana Alexievich foi anunciada como a vencedora do Prémio Nobel da Literatura de 2015, não faltaram as vozes acusando a academia de ceder a uma agenda política, desta vez indo longe demais pelo facto de escolher uma jornalista e não uma escritora. A discussão estendeu-se, umas vezes no terreno infértil que procura decidir o melhor modo para catalogar um objecto, outras abrindo espaço a uma reflexão pertinente sobre os limites de duas linguagens que tantas vezes viram, e vêem, os seus caminhos cruzarem-se.

Em Vozes de Chernobyl, Alexievich não faz ficção, é certo, mas também não assume as linhas estruturantes de uma reportagem. De um certo modo, ao recolher mais de cinco centenas de entrevistas com pessoas que foram afectadas, em maior ou menor grau, pelo desastre nuclear de Chernobyl, a autora cruza o jornalismo, a sociologia, o relato de não-ficção, a objectividade de quem não utiliza o material recolhido para criar outra coisa, a subjectividade de quem não consegue esconder o quanto a matéria abordada a comove. Talvez por isso este seja um livro tão brutalmente armadilhado, porque dá a ler o discurso das vítimas sem o filtro amenizador de uma contextualização detalhada em cada entrevista, e porque encontra um registo que faz de todas as entrevistas uma espécie de voz colectiva, não homogénea, mas uníssona. E é difícil não ler aqui a presença do coro grego, prenunciador de tragédias ou acusador dos seus resultados.

A mulher que acompanhou o seu marido, bombeiro enviado para o terreno contaminado sem qualquer informação sobre o que lá se passava, e que o acompanha até à morte dolorosa rovocada pela radiação, as pessoas que recusam abandonar as suas casas, e que acabam por ser arrastadas pela mesma polícia que não foi capaz de as avisar sobre o que estava realmente a acontecer, as mulheres que deram à luz crianças com toda a espécie de problemas de saúde, quase todos fatais, e que não entendem como foi possível esconder as reais dimensões do desastre de modo a não manchar a imagem intocada de uma União Soviética que era o garante da suposta felicidade geral, todas essas pessoas encontram neste livro um espaço para terem voz, o espaço que deveria ter sido público e que foi sendo silenciado pelos vários interesses envolvidos (em Chernobyl, particularmente, mas igualmente na discussão sobre as garantias de segurança da energia nuclear). Como diz a autora numa auto-entrevista, abrindo o livro, “este livro não é sobre Chernobyl, mas sobre o mundo de Chernobyl. Sobre o acontecimento em si, já se escreveram milhares de páginas e filmaram centenas de milhares de metros de película. Pois eu ocupo-me daquilo a que chamaria a história omitida, os sinais, sem deixarem sinal, da nossa permanência na terra e no tempo.”

Um livro é um livro e não há como transformá-lo em objecto salvador. Não saberemos se a publicação destes relatos mudou alguma coisa na vida das pessoas que partilharam a sua história. Sabemos, ainda assim, o quanto poderá mudar na perspectiva de quem o ler. Conhecer os factos sobre o acidente de Chernobyl não tinha bastado, até agora, para estruturar um olhar sobre o acontecimento que fosse além dos dados mais crus. Quantos mortos, quantos desalojados, quantos hectares de terra contaminada, quantas partículas. Em Vozes de Chernobyl, não são os números que falam e talvez por isso se possa dizer, sem retórica estilística, que este é um livro absolutamente cruel no retrato que compõe sobre a natureza humana, mas também absolutamente essencial para que não nos esqueçamos de quem somos e do que somos capazes.

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