Entrevista / Literatura Infantil e Juvenil

O rei chinês dos contos de fadas que vive preso à imagem de contador de histórias para crianças

zheng

Cláudia Aranda e Elisa Gao

Na China, pelo menos nove em cada dez pessoas conhece o escritor de livros para crianças, Zheng Yuanjie, garante a imprensa chinesa, que costuma tratar o autor como “o Hans Christian Andersen chinês”.

O autor, que criou os personagens Pi Pi Lu, Lu Xi Xi, Luoke, Shuke e Beita, que influenciaram duas gerações de chineses, há anos que integra a tabela dos 10 escritores mais ricos da China. Em 2012, o escritor ficou na primeira posição. Em 2013, com 18 milhões de yuan (22,1 milhões de patacas) ganhos em direitos de autor, só foi ultrapassado pelo primeiro Nobel da literatura chinês, Mo Yan, que recebeu nesse ano 24 milhões de yuans (29,5 milhões de patacas), e o autor de contos online, Jiang Nan, com 25,5 milhões de yuans (31,4 milhões de patacas) ganhos em direitos de autor. O sucesso de Zheng, com 61 anos, começou cedo. Em 1985, fundou uma revista com o título de O Rei dos Contos de Fadas, para publicar as suas próprias obras. A revista com contos para crianças de Zheng Yuanjie nunca mais deixou de se publicar. No seu auge, teve uma circulação mensal de mais de um milhão de cópias. A sua obra infantil continua a atrair milhões de crianças e de adultos. Em entrevista ao Parágrafo, o autor-ídolo de milhões de chineses confessa que, depois de escrever vinte romances e publicar sete sobre a China actual, teve de abdicar de continuar a escrever outra literatura sem ser contos para crianças, devido às fortes críticas por parte da imprensa e do público a que foi sujeito.

Tem uma visão da educação que encontra pontos de contacto com algumas teorias pedagógicas que geralmente identificamos com o Ocidente, sendo muito crítico de uma educação formatada e de um sistema baseado na aprendizagem por objectivos iguais para todos. Porquê?

Acho que a educação deve ser um processo de as crianças ganharem conhecimento, que deve ser feliz e não doloroso. O sucesso da educação depende de os instruendos terem ou não interesse no processo de aprendizagem. Se os instruendos tiverem interesse por esse tópico de aprendizagem, então significa que a educação é bem sucedida.

O sistema de educação na China oferece condições para as crianças aprenderem de forma feliz?

Provavelmente não.

De que forma o seu trabalho reflecte essa forma de pensar?

À medida que as crianças vão crescendo e tornando-se mais velhas, há algo que deve ser protegido e mantido, que é a imaginação e a curiosidade. A educação tal como existe tende a apagar a imaginação e, conforme vão crescendo, as crianças vão perdendo a capacidade de serem criativas, porque no processo de obtenção de conhecimento, a criança tende a pensar que a imaginação não é científica. Mas, se eu abandonar a minha capacidade de imaginar, mesmo que obtenha mais conhecimento, não sou capaz de inovar e de inventar. Então, o meu trabalho é manter desperta nas crianças a sua criatividade, imaginação e curiosidade.

Educou o seu filho em casa, não é verdade?

Pelas razões que acabei de dizer, as crianças na escola não são felizes. O sistema que existe não coincide com os meus princípios, a criança não estava feliz na escola. A maneira como o professores julgam os alunos, categorizam as crianças por diferentes níveis, conforme as suas notas… As crianças não têm dignidade na escola, não são respeitadas. Se for um aluno com notas altas, é respeitado, se não for, não é sequer considerado. A escola só vai encontrar pretextos e usar todos os meios para fazer lucro com esses alunos. Por exemplo, se convidam um escritor para apresentar uma palestra numa escola, a preocupação é vender livros para ganharem dinheiro. Se organizam ciclos de cinema, o objectivo é ganharem uma comissão por mostrarem esses filmes.

O que é que Zheng Yuanjie ensina nos seus livros?

Em primeiro lugar, os meus livros tem sempre uma história com a qual quero dizer às crianças que todas as pessoas são iguais, e que tudo deve ser resolvido de forma civilizada e democrática. Outros aspectos são orientados para fazê-los usar a sua imaginação e curiosidade. A maioria dos personagens principais nos meus livros, como Pi Pi Lu, têm notas péssimas, mas ganham pela simpatia e grande sentido de justiça, elas partilham amor.

É um escritor muito bem sucedido na China. De acordo com dados da Feira de Livro de Frankfurt, as vendas de livros para crianças têm crescido em média 7 a 8 por cento ao ano, e em 2012 a literatura para crianças representava 16,5 por cento da quota de mercado livreiro. Gostava que comentasse este assunto. Há hoje mais interesse em comprar literatura infantil do que no passado?

Penso que há razões para o crescimento. Os pais têm muita importância na influência que têm sobre o interesse dos filhos pela leitura, eles sabem que a leitura pode influenciar a vida dos filhos. No caso dos pais que querem manter os filhos longe da tecnologia, compram livros. Os livros (em papel) sem ser para crianças estão a reduzir, porque há um maior uso de livros digitais, através de equipamento como o Kindle. Mas, para as crianças, está a crescer.

Quando era mais novo, os pais também compravam livros para as crianças? Ou há hoje mais dinheiro para comprar livros, e por isso há mais vendas?

Os livros são muito baratos na China, acho que não é um fenómeno recente. Não é que as crianças tenham, de repente, começado a gostar mais de livros do que antes, mas os pais sabem que a leitura faz bem às crianças. Também há mais capacidade financeira, mas, os livros são muito baratos.

Comprar livros é um hábito cultural na China?

Penso que sim. Quando era criança, os meus pais compravam livros para mim.

Quais eram os autores em voga na sua época?

Zhang Tianyi, por exemplo. A Walt Disney fez um filme baseado no livro The Secret of the Magic Gourd (O Segredo da Cabaça Mágica).

Os seus livros influenciaram o aparecimento de outros escritores de literatura infantil?

Sim, bastantes, e muito famosos.

O mercado da literatura infantil tem estado em crescimento, sendo dos mais apetecíveis na China. Acha que poderá ser essa a motivação para novos escritores aproveitarem para começar?

Não sei.

Quando você começa a escrever, partiu logo para a literatura infantil?

Comecei com poemas. Mais tarde, dediquei-me com a literatura infantil.

Mas publicou vários livros de literatura sem ser para crianças.

Sim, foram publicados sete. Mas, na verdade escrevi 20.

As pessoas questionam por que deixou de escrever esses romances.

Os meus leitores, em criança, costumavam ler os meus contos na revista King of Fairy Tales, mas estes leitores começaram a crescer e pensei em começar a escrever para eles. Escrevi 20 livros, mas, depois de publicar os primeiros sete romances, o meu trabalho foi questionado no programa Jin Ri Shuo Fa (Relatório Jurídico), do canal de televisão CCTV. Usaram os meus livros como exemplo para dizer que não deveria escrever aquele tipo de livros ‘inapropriados para crianças’. Porque são histórias de amor. Eles achavam que eu estava muito conotado como escritor de contos para crianças e que não deveria escrever outro tipo de literatura. Então, parei. Apenas sete lete foram publicados, e cada um deles vendeu bem, mais de um milhão de cópias cada um, como Jin Mu Zhi (Polegar Dourado), ou Zhi Chi (Dente da Sabedoria). Já não publiquei os outros, porque se o fizesse, iriam continuar a criticar-me.

De que falavam estes livros?

Sobre a bolsa e o mercado de valores, o mundo dos negócios. Envolviam homens de negócios, como por exemplo em Jin Mu Zhi, que tinha como cenário a bolsa e o facto de esta ser um campo de batalha entre diferentes empresas. Além disso, eram histórias de amor.

O que é que é considerado “inapropriado para crianças”?

Acho que as crianças são bastante capazes de aceitar as coisas como elas são e não acho que não têm de saber certas coisas. Mas, neste caso, fui questionado várias vezes pelas pessoas, que me diziam que eu era um escritor de literatura infantil e que não era apropriado escrever outro tipo de histórias, onde abordava assuntos como aqueles. Também me perguntei, porquê parar? Mas acabei por dar comigo a ter cuidado com as palavras que dizia. Uma vez, quando falava publicamente, alguém disse “você é um escritor para crianças, em todas as ocasiões, não pode estar a mencionar um certo tipo de coisas em público”. Aconteceu várias vezes, então pensei, muito bem, vou escrever coisas “apropriadas para as crianças”. Já não preciso de provar a mim mesmo que posso escrever para adultos. Os sete romances são muito populares, no futuro serão adaptados para cinema.

Parece ter uma responsabilidade muito grande sobre as costas, porque as pessoas esperam que escreva apenas livros para crianças. Como se sente em relação a isso? Sente-se limitado na sua liberdade para escrever e criar?

Acho que não. Apenas não posso escrever coisas inapropriadas para crianças.

Fez um plano de estudos para o seu filho aprender em casa, que incluía jogos de computador, da parte da manhã. A tecnologia, hoje, chega cada vez mais cedo às crianças, com um, dois anos de idade começam a jogar no telemóvel. Qual é o benefício da tecnologia?

Tudo tem efeitos colaterais. No caso dos alimentos ricos, quando você come muito, não é bom; os alimentos de má qualidade, se comer em porções pequenas, não faz mal. Todas as coisas são assim, incluindo os produtos de alta-tecnologia. Ser moderado é o caminho.

Alguns de seus contos infantis estão a ser encenados, filmados, ou usados em jogos de computador. O projecto já está concluído? Qual é o seu plano para o futuro?

O espectáculo de palco já foi apresentado mais de cem vezes, os outros estão em fase de conclusão. Terminámos uma série para televisão de Lu Xi Xi, com o melhor actor da Malásia a representar o personagem, mas devido a atrasos do produtor, ainda não foi transmitido.

Um dos seus contos de fadas foi usado para um jogo de computador, para dar noções jurídicas às crianças. Que impacto é que teve?

Foi Pi Pi Lu e os 419 crimes. Zheng Ya Qi [filho de Zheng Yuanjie] pensa que os jogos de computador são mais atractivos para as crianças, é educar e entreter ao mesmo tempo, é daqueles jogos em que você vai passando de nível à medida que responde a uma questão sobre assuntos jurídicos e legais. Acho bem. Estamos a considerar transformar outros contos em jogos de computador.

Os seus livros conseguem competir com a tecnologia?

A tecnologia não me vai vencer, porque tenho duas gerações de leitores. Os que agora são pais, leram os meus livros em pequenos e compram os meus livros para os filhos. Ter duas gerações de leitores de literatura para crianças é uma mina de ouro para um escritor. Os pais já são meus leitores, compram os livros para os filhos e, quando os leêm, eles próprios sentem que fazem uma viagem de regresso à infância. Os pais pensam que vão ler a mesma história, mas não, há detalhes que são diferentes. Enquanto os pais forem meus fãs, vou sempre ter muitos leitores. A tecnologia dificilmente me bate com jogos de computador, porque a tecnologia não é mais influente do que os pais.

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