Rota das Letras/Script Road

Hu Ching-Fang e Rui Zink: o regresso ao Rota das Letras

FullSizeRender-3

Sara Figueiredo Costa
(fotografias de Eduardo Martins)

Depois de duas semanas de intensa programação, a Rota das Letras termina amanhã, com uma festa que reunirá os convidados que ainda estão em Macau e o público que a eles se quiser juntar. A quinta edição do festival literário recebeu cerca de meia centena de autores, entre escritores, académicos, músicos, artistas plásticos e performers, ocupando o edifício do Antigo Tribunal e espalhando-se por vários outros espaços da cidade.

Rui Zink e Hu Ching-Fang foram dois dos escritores que integraram o painel de convidados, com a particularidade de estarem ambos de regresso ao festival. A escritora de Taiwan, Hu Ching-Fang, participou na primeira edição do Rota das Letras, em 2012, e Rui Zink, de Portugal, esteve presente na segunda, um ano depois. Para esta edição, a organização convidou-os não apenas a regressarem, mas igualmente a escolherem cada um outro escritor que pudesse ser convidado. Rui Zink escolheu Bengt Ohlsson, da Suécia, Hu Ching-Fang trouxe Chan Koonchung, de Hong Kong. A agenda não permitiu que estivessem os quatro numa mesma sessão, mas ainda assim a ideia deu os seus frutos, com Rui Zink, Hu Ching-Fang e Chan Koonchung encontrando-se à margem da programação, trocando ideias sobre livros e leituras, procurando saber uns dos outros e do que os move, na escrita como na vida.

Estranhos na cidade
Hu Ching-Fang tem na grande cidade o seu espaço literário. A autora de The Third Person, resiste à ideia de que as cidades são espaços descaracterizados, sem hipótese de encontro, e onde a solidão predomina sobre as relações humanas, algo que alguns participantes deste Rota das Letras defenderam, de um modo mais ou menos intenso. Em conversa com o Parágrafo, explicou que essa ideia de solidão, tantas vezes apresentada como um aspecto negativo, é algo que ajuda a definir a natureza humana, mais do que a cidade: “A solidão é algo universal. O meu ponto de vista pode não ser muito politicamente correcto, mas eu não creio que isso seja uma coisa má. Passamos tempo uns com os outros, e ao fim de um tempo somos amigos, ou não, depende se nos descobrimos, se chegámos uns aos outros. Para isso, é preciso ter a mente aberta. A razão pela qual temos tantos problemas no mundo é o estarmos tão obcecados em encontrar pessoas como nós, mas por que é que sermos diferentes uns dos outros tem de ser um problema? As fronteiras fecham-se, as pessoas estão irritadas umas com as outras e tudo porque somos diferentes… A cidade faz-me pensar muito nisso. A solidão é o meu tema e por isso gosto tanto da cidade, porque gosto da solidão, de uma certa solidão. Não aquela solidão do tédio, quando não sabemos o que fazer, não temos para onde ir. Quando as pessoas falam da cidade falam sempre da solidão, mas acho que esse é um tema constante de qualquer vida, não necessariamente da vida na cidade. Só há um eu; se eu morrer, já não há. Este é que é o grande tema.”

Com o caderno numa mão e o telemóvel na outra (para as fotografias e vídeos que vai publicando no seu Facebook), Rui Zink tem andado por Macau à procura do que não viu há três anos. “Tenho um chavão que uso muito: a diferença entre um escritor amador e um profissional é que o amador escreve e o profissional reescreve. E tenho a mesma teoria em relação às viagens: da primeira vez que vim a Macau, não aconteceu nada, não saí do líquido amniótico chamado Portugal; tive a sensação de ver, mas não vi, não entendi. Contribui com três micro-contos para o livro que o Rota das Letras publica – e que é uma das coisas fantásticas deste festival, haver um livro depois, como se houvesse um festival também em livro –, que foram escritos por uma pessoa deslumbrada, mas que não viu nada. Este regresso, pelo qual estou muito grato, é um privilégio porque me permite finalmente ver Macau, coisa que agora estou a fazer. Há pouco fomos ao Porto Interior, onde eu já tinha estado, mas agora vi de novo e desta vez sinto que começo finalmente a entender esta cidade-mundo.”

Criar raízes
A reflexão sobre o espaço que se organiza sob a forma de cidade marcou muitas sessões deste Rota das Letras. Mais além de uma certa ideia de urbanismo como cenário da escrita, e da cidade como espaço onde facilmente nos perdemos, tanto Hu Ching-Fang como Rui Zink encontram nas ruas e nos edifícios que as conformam um local propício à criação de raízes. No caso de Rui Zink, essa sensação pode ser um artifício, uma experiência para atestar do nosso grau de envolvimento com um sítio, mas ainda assim, um artifício eficaz: “Há uma coisa que eu aconselho sempre a quem está numa cidade que não é a sua. Vá um dia a outra cidade, por exemplo, aqui, a Hong Kong. Depois de estar uma noite noutro sítio, quando voltar, tem a sensação de voltar a casa. É um truque, uma auto-hipnose muito simples. Claro, tudo pode ser dito de outra maneira e eu podia dizer que antes de ter vindo a Macau já tinha vindo a Macau, porque toda a gente já veio a Macau, porque Macau faz parte do imaginário, como Nova Iorque. Macau foi título de livros, há a Macau do Orson Welles, as narrativas… Tanto posso dizer que vim a Macau há três anos e não vi Macau, como posso dizer que antes de ter vindo a Macau, já cá tinha vindo muitas vezes. É sempre este movimento de ignorância e conhecimento, yin-yang, inspirar expirar, é isso que faz com que as coisas se compreendam.”

Para Hu Ching-Fang, compreender a respiração das cidades passa, na China contemporânea, por aceitar que a realidade mudou e que a cidade já não é apenas o sítio para onde se deslocam pessoas vindas de outros lugares: “O que quero fazer é redefinir uma certa ideia de cidade. No passado, a literatura chinesa centrava-se nas vilas, nas aldeias, e quando os personagens deixavam esse ambiente e iam para a cidade, tornavam-se tristes. Mas essa já não é a nossa realidade. Claro que continua a haver migrações, mas há muitas pessoas para quem a cidade é sua terra, o seu lugar de nascimento, e às vezes parece que se quer passar a ideia de que quem vive toda a vida numa vila não se sente sozinho. Isso não faz sentido. Os seres humanos sentem-se sozinhos em qualquer lugar. Não tem a ver com a cidade. A cidade é como uma máquina, sempre a bombear, e pouco importa se nós estamos cá, se vivemos ou morremos, porque a cidade nunca pára. Talvez daí venha a solidão.”

Fugir ao cliché
A literatura chinesa contemporânea continua a ter nas vilas e aldeias, por um lado, e no passado histórico, por outro, o seu campo mais fértil, pelo menos na visão das editoras estrangeiras que publicam autores chineses. Na conversa com o Parágrafo, a escritora de Taiwan defendeu uma perspectiva diferente, mostrando-se pouco ligada a esses temas: “Sou uma escritora de língua chinesa, escrevo a partir daí. Tem a ver com a expressão, a minha própria expressão. Mas escrevo sobre cidades, sobre temas universais, e às vezes parece que as pessoas não querem ler isso escrito por um escritor de língua chinesa, porque esperam que os chineses escrevam sobre a vida nas aldeias, a história, o passado, a condição das mulheres… Eu escrevo de um modo muito racional e os meus temas são outros. Além disso, as mulheres chinesas já não têm todas essa vivência da luta por outra condição, muitas de nós crescemos de um modo perfeitamente banal e ainda assim temos coisas para dizer.” De um certo modo, o olhar que o resto do mundo lança sobre a China continua a depender de uma vontade de encontrar a estranheza, e não de uma hipótese de descobrir o comum:

“Quando olhamos para o outro, para os outros que são diferentes daquilo que conhecemos, temos sempre tendência para procurar o exotismo. E queremos forçar esse exotismo. Tenho um amigo, escritor, de Taiwan, que publicou um livro em França e quando lá chegou, perguntaram-lhe por que não tinha escrito sobre Taiwan, sobre o Oriente, no fundo, sobre uma certa ideia de Oriente exótico que se esperava dele. Mas ele escreveu um romance de ficção científica, que é algo muito universal, e isso não era o que se esperava. Ao contrário, um escritor francês escreve sobre qualquer coisa e eu leio na mesma, não preciso que ele escreva sobre os clichés associados à cultura francesa.”

Para fugir a esses mesmos clichés e ao risco do lugar-comum, Rui Zink tem escrito sobre Macau sem ceder à vontade de resumir Macau. “Gosto muito do conto de apontamento e acho que escrever uma novela ou um romance sobre Macau, talvez daqui a vinte anos, quando voltar pela quinta vez, mas neste momento, se escrevesse um romance sobre Macau, seria superficial, seria cliché. O pequeno conto é diferente, é quase como um poema ou um post de Facebook. É uma forma boa para agarrar um sítio com uma pequena história, é delicado, não é tão óbvio que tropece arrogantemente. Só se imagina o que se conhece. Tem de haver uma base que a pessoa domine. Claro que há um contraponto a isto, que só se conhece o que se imagina… Há o objecto e o que fazes com ele e isso é que é interessante. Mas sem o objecto, não existe nada.”

A segunda vez
De regresso ao Rota das Letras, Hu Ching-Fang e Rui Zink notaram diferenças, no festival e na cidade. A autora taiwanesa destaca a organização, muito mais eficaz sob todos os aspectos, e recorda que em 2012 ficou surpreendida por ter encontrado tantos pontos de contacto com os portugueses que aqui conheceu: “Talvez os taiwaneses sejam parecidos com os portugueses, até pela dimensão do território e da população. Quando falava sobre a indústria editorial, os problemas era comuns. Estamos perto dos grandes mercados, mas o nosso é pequeno. De qualquer modo, não imaginava que tinha tantas coisas em comum com os portugueses e demo-nos muito bem, e também por isso aceitei voltar, pelos amigos que fiz aqui.” Quanto à cidade, as mudanças não são tão positivas como as que encontrou no festival literário: “Não voltei cá durante estes três anos. Sou cidadã de Hong Kong e para nós, Macau é uma cidade adorável, cheia de charme, um local que nos dá uma certa sensação de conforto. Agora, com tantos casinos, acabamos por ter mixed-fellings. Isto pode ser muito bom para a economia, mas sinto que cria uma certa perda para as pessoas daqui, que acabam por sentir-se estranhas na sua cidade. Espero que estas mudanças não tornem o espaço sufocante para quem vive aqui, e para quem escreve, pinta, cria… Espero que isso não aconteça com os meus amigos de Macau.”

Mais do que agradado com as mudanças que encontrou no Rota das Letras, Rui Zink parece ter cumprido os propósitos que o festival tem vindo a afirmar como seus, servindo de ponto de encontro para escritores e leitores de diferentes origens e contextos e permitindo que esse encontro não seja efémero: “Uma das grandes vantagens é que, desta vez, sinto que comuniquei, acho mesmo que houve contacto, naquela coisa um bocadinho de ficção científica, com essas pessoas completamente diferentes de mim que são os escritores chineses. Não me lembro se há três anos já havia tradução simultânea, mas lembro-me de ir para cafés com os escritores chineses e eles estarem num sítio, com os seus fãs, e eu estar noutro sítio (sem os meus fãs), e de haver uma espécie de apartamento. Desta vez, pela parte que me toca, houve um entrosamento, não apenas com com a Hu Ching-Fang, mas também com outros escritores. Claro, quando as pessoas não falam a língua é difícil, mas desta vez houve mesmo contacto. Fiquei a perceber muito melhor, acho eu, o que está a acontecer na escrita da China. Não me tornei um especialista, mas já tenho um corpus de leituras, algumas delas feitas cá, ao vivo, no momento em que conheci os escritores, que me ajuda a compreender melhor. É só a segunda vez que cá venho, mas sinto-me como um casino: o meu lucro é sete vezes maiores do que da primeira vez.” Resta esperar pelo livro de contos do próximo ano para confirmar se vale ou não a pena regressar aos lugares onde já se esteve.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s