Reportagem

Bookworm: Um Festival na cidade grande

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Sara Figueiredo Costa

A escala é uma coisa complicada em Pequim. Chega-se à cidade para acompanhar um festival literário e não há como encontrar-lhe as pistas. Entre o primeiro e o segundo anel de longas estradas onde o trânsito nunca pára, a livraria Bookworm é um oásis de sossego no meio do ruído, mas encontrá-la exige de quem pouco praticou a locomoção em cidades desta dimensão a perícia de um geógrafo sem certezas perante o mapa. Saindo do metro em Tuanjiehu, saída B, há que virar à esquerda três vezes, primeiro enfrentando o terceiro anel, depois a Gong Ti North Road, até se encontrar um rasgo de pacatez na Nan Sanlitun, prenúncio de um bairro aparentemente bem ordenado, com espaço para passear sem medo dos carros. Quando se encontra o café iQiyi, estamos a poucos metros da Bookworm, das suas estantes de madeira escura carregadas de livros maioritariamente em língua inglesa e das mesas que são de café-restaurante, mas onde também se lê e se conversa sem necessidade de menu.

Há dez anos que a Bookworm é a casa do festival literário com o mesmo nome. Criado por Peter Goff e organizado por Anthony Tao e pela equipa da livraria, o Bookworm Literary Festival tem extensões em Chengdu e Suzhou, mas foi em Pequim que deu os primeiros passos. Uma década passada sobre a primeira edição, Anthony Tao disse ao Parágrafo que a edição deste ano foi “a maior em termos de número de eventos e de participantes, mas também aquela que teve maior presença de público”. Todas as sessões a que o Parágrafo assistiu estavam, de facto, cheias, algumas mesmo esgotadas, o que é notável num festival onde quase todos os eventos são pagos. Com bilhetes entre 50 e 150 RMB, o festival literário de Pequim consegue ter a casa sempre composta, pelo menos, e assegurar uma parte do financiamento necessário para as despesas da organização. Como explicou Anthony Tao, “é importante lembrar que o Bookworm Literary Festival é um festival completamente independente, algo raro na China, e queremos mantê-lo assim.”

Dezasseis dias de programação intensa, dos quais o Parágrafo acompanhou apenas quatro, fizeram a edição deste ano. Cento e oitenta autores passaram pelas mesas do festival, vindos da China, mas também de Espanha, Índia, Estados Unidos da América, Canadá, Austrália ou Israel, entre muitos outros países de origem. Nem todos os autores presentes escrevem literatura, havendo uma participação importante de jornalistas, muitos deles correspondentes de órgãos de comunicação social estrangeiros em Pequim ou noutros pontos do país. Sem um tema agregador, a programação do Bookworm Literary Festival deixa clara a sua intenção de conversar sobre temas literários, mas igualmente sobre as grandes linhas da actualidade, nomeadamente as que definem o quotidiano nesta região do globo. Foi assim que um conjunto de painéis intitulado China Future Perfect integrou a edição deste ano, discutindo o problema da poluição, o futuro da economia chinesa, os direitos das minorias sexuais ou as desavenças no mar da China.

Num desses debates, “Territorial disputes and regional stability”, o jornalista Philip Wen moderou um painel de jornalistas cujo trabalho se centra na Ásia e onde se destacou a intervenção de Tin Yi, especialista em temas relacionados com Taiwan e a Coreia do Norte. Foi este último país a centrar as atenções do debate, com a jornalista a explicar a dificuldade de confirmar as informações que chegam aos jornais estrangeiros e a analisar os possíveis cenários futuros, sempre com a consciência de ser este um tema escorregadio, tendo em conta a dificuldade referida. “É muito complicado reportar a Coreia do Norte. Lembro-me de uma reportagem sobre as trocas de casa em Pyongyang que me levou um ano a fazer, porque envolvia questões políticas. É mais fácil escrever histórias sobre a economia, porque as pessoas falam mais facilmente, mas os leitores preferem, claro, as histórias sobre política…”.

Repartidas entre os espaços da livraria e o pequeno café iQiyi, que oferecia uma bebida quente a qualquer pessoa que apresentasse o seu bilhete para o Bookworm, as sessões do festival incluíram conversas sobre cinema, artes plásticas ou religião, entre muitos outros temas, quase sempre motivados por livros escritos pelos convidados (e disponíveis nos escaparates da livraria, onde diariamente se notava a renovação de stock das obras dos autores presentes). Poesia, entre conversas e leituras, banda desenhada, ficção científica e fantástico, biografias, romances e ensaios, não houve género ou linguagem que não integrasse a edição deste ano do Bookworm Literary Festival. Numa das sessões com maior interacção entre mesa e público, a autora indiana Anurag Viswanath falou sobre o seu livro Finding India in China, uma obra onde o discurso académico e o jornalístico se cruzam com uma vocação óbvia para contar histórias e onde os paralelismos entre a Índia e a China contemporâneas abrem espaço para uma reflexão profunda sobre a história de cada um destes países e os desafios que ambos enfrentam actualmente. Começando por mostrar o seu espanto perante uma sala cheia de tanta gente interessada na Índia, Anurag Viswanath acabou a sessão em conversa amena, e já sem mediação, com um grupo de estudantes indianos e chineses que não perderam a oportunidade para colocarem todas as perguntas sobre o trabalho de uma autora capaz de sair do palco e trocar opiniões, de igual para igual, com quem a lê.

Para além das mesas de debate, o Bookworm Literary Festival integra workshops para crianças e adultos, à volta da escrita ou da narrativa com imagens, concursos como o Literary Quiz Show, que encerrou o festival, e momentos mais festivos, como aquele que acompanhámos na sessão de Storytelling. “Far from home” foi o mote escolhido por Amy Daml, animadora do programa The Pulse na 91.5 FM, em Pequim, e anfitriã desta sessão que juntou convidados do festival e participantes que se inscreveram numa roda de histórias. A sala maior da livraria já estava quase cheia quando ainda faltava meia hora para o início da sessão, cujos bilhetes se anunciavam esgotados desde o meio da tarde. Quando Amy Daml subiu ao pequeno palco para apresentar a primeira convidada, havia gente de pé e sentada nos poucos pedaços de chão que estavam livres, mas ninguém parecia desconfortável.

Estar longe de casa será tema caro a muitos dos participantes do festival, bem como a parte considerável dos frequentadores da livraria Bookworm. Aqui predominam os estudantes e trabalhadores de outros países, gente que vive em Pequim há muito ou há pouco tempo, alguns ainda tentando orientar-se na imensidão de ruas e bairros, outros fazendo a sua rotina como se nunca tivessem vivido noutro local. Decorrendo todas as sessões do festival em inglês, essa língua franca que vai ajudando a criar pontes entre falantes de uma miríade de idiomas, não há como perder o fio à meada da história contada por Magdalina Navarro, natural de Barcelona e actualmente sedeada em Pequim, sobre o ano em que viveu nos Estados Unidos da América, ou da descrição que a japonesa Mariko Nagari faz da morte do avô, em 1944, episódio que não presenciou mas que, ainda assim, integra a sua memória de modo pungente. Seria Kabu Okai-Davies, escritor australiano de origem ganesa, a contar uma das histórias que mais ecoou na noite de Storytelling, recuperando uma velha fábula onde um insecto minúsculo consegue enganar vários animais de porte superior ao seu, abstendo-se de pagar o dinheiro que lhes devia e aniquilando-os com a sua destreza negocial. No fim, acrescentou à fábula um dragão, chamando ao palco os muitos fios de conversas anteriores que, no Bookworm, andaram pelos territórios da economia chinesa.

Quanto ao idioma único em que decorre o festival, Anthony Tao explicou ao Parágrafo que “num mundo ideal, os eventos seriam em inglês com tradução simultânea para chinês, e vice-versa. Chegámos a averiguar se seria possível concretizar essa ideia, mas os meios necessários eram muito caros e a outra hipótese, ter uma aplicação que a assistência pudesse descarregar e que garantisse a tradução, seria logisticamente muito complicada, e falível. Apesar disso, temos sempre muitos autores chineses como convidados e trabalhamos para ter, também, público chinês.” Nas sessões acompanhadas pelo Parágrafo, esse público era residual, o que talvez se explique pela imensidão da cidade e dos eventos que nela decorrem. Sendo a Bookworm uma pequena livraria, os meios de divulgação não têm como alcançar grandes espaços de comunicação como as paredes das estações de metro, ou os anúncios veiculados na televisão e na rádio. Apesar disso, percebe-se que há um trabalho de contacto permanente com escolas e universidades onde o inglês e o chinês têm presença conjunta, com instituições culturais que dinamizam esse contacto – algumas integrando o painel de apoios do festival – e, sobretudo, com a comunidade local da área de Chaoyang, distrito onde se situa a Bookworm e o seu festival. Talvez nenhum evento independente numa cidade como Pequim tenha condições para afirmar uma presença semelhante à que podemos assistir em cidades mais pequenas, que em meia dúzia de dias parecem gravitar em torno de um acontecimento cultural. A escala, novamente, é um elemento incontornável. Nada disso impede o Bookworm Literary Festival de se afirmar enquanto momento alto da programação cultural de Pequim, fazendo do bairro de Chaoyang um pequeno epicentro de livros (alguns deles supostamente impedidos de circular na China, facto talvez amenizado pelo facto de estarem escritos em inglês e à venda num local discreto), conversas, leituras e partilhas. Dez anos depois da primeira sessão, tudo indica que o Bookworm veio para ficar.

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