Crítica

Livro de oração

          SEM_VISTA_PARA_O_MAR_1425866544439665SK1425866544B 

          Hélder Beja

 

Quando Carol Rodrigues começou lendo “Onde Acaba o Mapa” fez-se um silêncio de igreja no Edifício do Antigo Tribunal, em Macau. Não para levantar dúvidas de separação entre o jurídico e o sagrado, não. É que aquilo não era a literatura que a gente esperava, aquilo era uma rezinha, aquilo só podia vir de um livro de oração. Esse livro é Sem Vista Para o Mar, primeira obra desta moça de 30 anos, que se estreou com contos porque no Brasil o conto tem tradição e é bom estrear com contos e em Portugal nem pensar, sem romance não há novo prosador. Sem Vista Para o Mar, mas com vista para o interior do Brasil, venceu o Prémio Jabuti e o Biblioteca Nacional. É um livro desencabrestado, com frases torrenciais que arrastaram a pontuação, com discurso directo e indirecto a conviverem na lâmina da atenção ao leitor.
Abre com “Onde Acaba o Mapa”, conto belíssimo que é de fuga como são praticamente todos. Abre com um amor vulcânico de rapazes, a ameaçar preconceitos com a lava do prazer.“Você tá bem? Cadê você sumiu na areia. Minha tia. Que tem a tia? A minha tia morreu. Foi de quê, foi de velha, sinto muito, quem fala assim, não sei o que falar, fala nada, falo o quê, me beija, beijo nada você sumiu, tia morreu, e daí avisava, como? Se tudo o que eu sabia de você era que veio de cima do mar? Beijaram agora um beijo índio, a boca aberta, deixando o todo da língua pra agora.”
Em “Um Homem Prudente” conhecemos Murilo, caminhoneiro que dá carona e que fala daquela mulher que o espera e que é só sua até não ser mais. Murilo há-de voltar adiante, noutros contos, noutras pequenas histórias de estradas esquecidas e brasileiras, que Carol Rodrigues regista como se fotografasse o mundo com uma grande angular de palavras.
No conto que dá título ao livro, “Sem Vista para o Mar”, tem um menino que vai para cego de tanto sol, um menino que apalpa quando não enxerga mais. Aqui como noutras ocasiões – “Entre Maio e Junho”, sobre uma mulher da vida; “Homem Vespertino”, com um bandido cheio de escrúpulos; “Um Forte Chamado Estrela”, em que as pessoas cuidam de não morrer – a autora busca a musicalidade do texto. Apetece ler tudo em voz alta, como ela fez na visita ao Festival Literário de Macau.
Sexo, puberdade, violência (“Quando Eu Parei de Pensar” é forte), cultura pop, religião, homens que fogem de casa mesmo vivendo sozinhos, um trovão que é deus nervoso, uma Penélope que faz esperar o seu Ulisses – a vida vencida é grande num livro tão pequeno.
O estilo de Carol Rodrigues pode por vezes desajudar a atenção do leitor, pode cansar, pode nem resultar sempre. Mas é bom e novo, com milhas de originalidade a perder de vista, como as do mar que estes personagens nunca vêem.
Os Maus Modos, primeiro romance de Carol Rodrigues, será publicado este ano. Oremos.

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