Entrevista

Ma Lin abensonha estreia de Mia Couto em chinês

foto ma lin (1)

Cláudia Aranda

Ma Lin é a tradutora da obra de Mia Couto A Confissão da Leoa, a primeira de um autor moçambicano a ser transposta para chinês. Ao Parágrafo, a tradutora adiantou que tenciona entregar a versão final adaptada para chinês no final de Agosto de 2016, “como foi combinado com a Penguin Books”. O romance deverá ser publicado na China ainda este ano.

Assim que o Parágrafo teve conhecimento de que o livro A Confissão da Leoa, de Mia Couto, iria ser traduzido para chinês, procurou saber quem iria fazer essa tradução, a primeira para chinês de um autor moçambicano. Chegámos, assim, ao contacto com Ma Lin, nascida no ano de 1989, em Pequim, e actualmente a prosseguir o doutoramento no Estado de São Paulo, no Brasil. Nesta entrevista, Ma Lin fala em detalhe sobre os desafios que se colocam ao tradutor e descreve alguns dos “truques” para os ultrapassar. A especialista, que traduziu já várias peças de teatro brasileiro contemporâneo e outros textos, adiantou que tenciona entregar a versão final da tradução no final de Agosto de 2016, “como foi combinado com a Penguin Books”. A entrevista foi realizada por escrito, dada a grande diferença horária que separa Macau de São Paulo (11 horas) e a fraca ligação telefónica existente. Num português moldado pela musicalidade da norma brasileira, a tradutora do livro de Mia Couto explica que se formou em 2011 no curso de Língua e Literatura Portuguesa na Universidade de Pequim (Peking University ou PKU). Depois de se licenciar, decidiu sair do país em direcção ao Brasil para continuar os estudos. Realizou um mestrado em Teoria e História Literária no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) entre 2012 e 2015. Encontra-se agora no segundo ano de doutoramento do mesmo curso. Esta edição de A Confissão da Leoa vai integrar a secção em língua chinesa da editora britânica fundada em 1935, Penguin Books. O romance situa-se na aldeia ficcionada de Kulumani, em Cabo Delgado, no norte do país, que é sujeita a ataques de leões, e é narrado alternadamente, na primeira pessoa, por dois personagens centrais, o caçador Arcanjo Baleiro, e Mariamar, uma habitante da aldeia. Segundo um comunicado da Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo, o romance em chinês deverá ser lançado na China ainda este ano. Com esta edição na China, os livros de Mia Couto – um dos autores em língua portuguesa mais premiados internacionalmente – vão passar a estar publicados em 35 países, para além de Moçambique.

Onde aprendeu português?

Aprendi o português na graduação que fiz na Universidade de Pequim. Antes disso, não tinha a menor ideia desta linguagem, porém, tinha a certeza de que deveria ser muito diferente do chinês.

Tem ligações familiares ao Brasil ou a algum país de língua portuguesa?

Não, não tenho nenhuma ligação familiar aos países de língua portuguesa. Quando comecei a estudar o Português, tudo era novo para mim, a linguagem e a cultura.

Aprendeu a língua portuguesa e foi essa língua que a levou ao Brasil?

Sim, aprendi primeiro a língua. No curso da graduação, tínhamos aulas não só de língua, mas também da história, cultura e da literatura dos países lusófonos, principalmente Portugal e o Brasil. As aulas me ofereceram a oportunidade de usar o português como uma chave para abrir a porta desse novo mundo.

Como é que a editora Penguin Books a descobriu?

A Penguin Books entrou primeiro em contacto com a minha professora da graduação, a professora Min Xuefei (Angela Min), que já tinha traduzido as obras dos grandes escritores como Fernando Pessoa ou Clarice Lispector. Ela me recomendou à Penguin Books. Eu traduzi um trecho de A Confissão da Leoa e mandei para a editora como se fosse um teste. Eles avaliaram a minha tradução e me deram esse trabalho.

Já fez outras traduções de português para chinês? Ou vice-versa, de chinês para português?

Sim, já fiz algumas traduções literárias de português para chinês.

Quais os livros e autores que já traduziu?

Traduzi o romance O Filho Eterno, do escritor brasileiro Cristovão Tezza. A tradução foi publicada em 2013 pela editora Literatura do Povo – uma tradução minha, o nome oficial, em inglês, é People’s Literature Publishing House. Traduzi também seis peças do teatro brasileiro contemporâneo que foram publicadas pela mesma editora no ano passado. Além disso, traduzi quatro textos da edição dos melhores jovens escritores brasileiros da revista Granta, publicados também em 2015 pela editora Literatura e Arte de Shanghai – tradução minha, o nome official em inglês é Shanghai Literature and Art Publishing House. As seis peças de teatro são, O fim de todos os milagres, de Paulo Santoro, Agreste, de Newton Moreno, O Céu Cinco Minutos Antes da Tempestade, de Sílvia Gomez, Por Elise, de Grace Passô, Trabalhos de amores quase perdidos, de Pedro Brício, e Andaime, de Sérgio Roveri. Os quatro textos são “Fragmentos de um romance”, de Carola Saavedra, “Violeta”, de Miguel del Castillo, “Natureza-morta”, de Vinicius Jatobá, “O Rio Sua”, de Tatiana Salem Levy.

Como é que surgiu esta relação com o trabalho de tradução?

Eu gosto da literatura, cresci lendo romances nacionais e estrangeiros. Para mim, o que posso aproveitar mais em termos de estudar uma língua estrangeira é poder ler as grandes obras literárias que são escritas nesta língua. Sinto que desta maneira consigo apalpar a história e a cultura que estão no fundo do livro e consigo conversar directamente com o autor sem os limites do tempo e do espaço. Às vezes, quando encontro uma frase muito linda ou forte na minha leitura, eu páro e penso como seria a tradução em chinês, tenho este costume. Além disso, queria muito que as obras fossem lidas por mais pessoas, então, quando há editoras que querem lançar a versão chinesa dos livros de língua portuguesa, fico muito feliz de poder fazer a tradução e faço tudo para que a tradução seja o mais fiel possível ao livro original.

Quais os próximos trabalhos depois de A Confissão da Leoa?

Agora estou a focalizar na tradução de A Confissão da Leoa, depois disso começarei a escrever a minha tese de doutoramento. Acho que não traduzirei outro livro antes de acabar o meu estudo.

Já esteve em Moçambique? Conhece o autor Mia Couto? Quais os livros de Mia Couto que já terá lido ou de que ouviu falar?

Não, infelizmente nunca fui a Moçambique. Não conheço pessoalmente o autor. A primeira vez que ouvi falar o nome Mia Couto foi numa aula da graduação em que lemos uma crónica dele intitulada “O viajante clandestino”. O professor fez uma breve introdução do autor. Eu gostei muito da crónica, isso foi a primeira impressão. Já ouvi falar sobre alguns romances do autor, até este momento só tinha lido A Confissão da Leoa e queria muito ler Terra Sonâmbula e Mulheres de Cinza. Para ter uma visão mais ampla do livro A Confissão da Leoa, li também artigos críticos e estudos académicos depois da minha própria leitura.

Já começou a fazer a tradução? Em que ponto está? Quando acha que a tradução estará finalizada?

Sim, já comecei. Tenho três etapas para fazer tradução literária, a primeira é conhecer o livro: ler várias vezes, consultar as palavras novas, entender a história, sentir o ritmo da linguagem, procurar informações de fundo (o background) sobre a criação do livro, sobre o autor. Depois, faço mais uma leitura com muita prudência e quando surgem ideias da tradução de algumas frases ou passagens, anoto na página com lápis. Depois disso, entro na segunda etapa que é realmente o processo de traduzir e digitar no computador. A terceira etapa é fazer várias revisões depois de terminar a primeira tradução. Agora estou na segunda etapa, tento manter o ritmo de traduzir todos os dias, às vezes mais, às vezes menos, o mais importante é manter esse ritmo. Entregarei o versão final da tradução no final de Agosto, como foi combinado com a Penguin Books.

Quais os maiores desafios que está a encontrar, ou espera encontrar?

Neste livro, tem duas vozes que estão a conduzir a história, uma é a versão de Mariamar, a outra é o diário do caçador. O que eu acho um grande desafio é de diferenciar essas duas vozes em chinês, fazer sentir a diferença não só por causa do conteúdo, mas igualmente pela linguagem, que em si já as diferencia. Sinto que se a tradução puder se aproximar o mais possível a cada uma, vencerei esse desafio. Além disso, tem coisas que não existem na China, por exemplo, alguns rituais da cultura africana ou simplesmente um tipo de árvore ou animal. Quando encontro essas palavras, preciso pesquisar o que eles realmente são e decidir como traduzi-las dependente do contexto.

Como encontra a harmonia certa para a frase ter o mesmo sentido, ou o sentido mais próximo possível, em chinês?

É um processo que exige a compreensão total do texto e muito pensamento. Imaginamos que no livro encontramos uma frase com um verbo que é muito importante, porque não só indica a acção do personagem mas também mostra a sua emoção, então a tradução deste verbo é o essencial para esta frase. Na minha cabeça talvez possa ter cinco verbos em chinês que têm o mesmo significado que o verbo português, mas cada um se diferencia um pouco dos outros. Pode ter mais outros verbos e advérbios que funcionam juntos e que são mais usados segundo a gramática do chinês. O que eu posso fazer é colocar a acção que o verbo indica no contexto do parágrafo ou de toda a página para avaliar qual a opção em chinês mais adequada neste contexto específico e escolher aquela que pode mostrar, o mais possível, a emoção do personagem. E, ao mesmo tempo, manter a característica da linguagem do autor. É difícil mesmo, mas para mim, ser fiel ao texto original é o mais importante.

O Mia Couto tem um estilo complexo ao nível linguístico, cruzando expressões da oralidade, inventando palavras que não existiam, pelo menos na escrita. Tudo isso trará dificuldades para o tradutor. Pode comentar?

Cada um tem seu estilo próprio de linguagem. Quando traduzo um livro estrangeiro, na minha opinião, o essencial é compreender o ritmo e a característica da linguagem do autor. Eu sinto que entender esse estilo complexo com expressões da oralidade e palavras inventadas não é a parte mais difícil, embora aumente realmente a dificuldade de traduzir. Porque, com muita leitura e pesquisa, depois de ponderar dentro do contexto, entendo o que o autor quer expressar. O mais difícil é expressar fielmente em chinês esse estilo complexo ao nível linguístico. O que faço é manter na minha cabeça “a voz do autor ”, que é o ritmo e a característica da sua linguagem que eu tinha compreendido depois dessas leituras e pesquisa. No caso de A Confissão da Leoa, são “duas vozes”, a da Mariamar e a do caçador, e decidi qual o estilo linguístico em chinês que usaria para expressar cada uma quando comecei a tradução, fazendo mudanças no processo quando sinto que, por exemplo, “Sim, essa palavra chinesa pode expressar o que a Mariamar disse, mas causa também um sentimento um pouco fora do contexto, preciso trocar a palavra, se a Mariamar falasse chinês, não usaria essa palavra. ” Então, dentro das opções possíveis de traduzir, escolho aquela que é, em todos aspectos, mais próxima do estilo do autor. Ou, se for preciso, embora ainda não tenha encontrado uma situação assim, inventaria palavras chinesas para poder causar a mesma sensação e ter o mesmo gosto do texto original.

Um dos dramas de qualquer tradução entre duas línguas é também o da tradução de uma cultura para outra. Neste caso, entre Moçambique e a China há diferenças muito grandes, de referências, contextos, realidades. Como é que lida com essas diferenças? Onde é que encontra as referências para conseguir transpor para a realidade chinesa a realidade africana e moçambicana?

Como eu já disse, existem coisas da cultura e realidade africanas e moçambicanas que não existem na China, claro, como o livro trata justamente dessa realidade, é razoável ter esse “choque de culturas”, porém, tudo pode ser entendido dentro do contexto. Às vezes o próprio personagem explica depois o que significa tal palavra segundo a tradição. Às vezes, preciso de pesquisar e depois deixo a nota de explicação abaixo quando eu, uma leitora chinesa, sinto que os leitores chineses talvez precisem saber mais o background para entenderem melhor a realidade do livro. Acho que é muito importante transpor essa diferença cultural exactamente como ela é e não tentar procurar alguma coisa próxima na cultura chinesa para substitui-la, porque não é um livro da realidade chinesa. O que preciso fazer é usar o chinês para interpretar fielmente a realidade africana e moçambicana registrada pelo Mia Couto. Além disso, sinto que os contextos podem ser muito diversos, mas os sentimentos humanos que as pessoas poderiam ter depois da leitura são comuns. No livro A Confissão da Leoa, a consciência feminina, o desespero e a raiva que as mulheres sentem numa sociedade patriarcal é comum e podem gerar ressonâncias na outra cultura. Muito interessante que, quando eu li o livro pela primeira vez, veio a mim uma memória remota da minha infância, lembrei que alguns anos atrás assisti um filme chinês que estava passando no televisão, e o filme conta a história de uma família de uma aldeia chinesa que fica dentro das montanhas, onde tudo funciona sob a tradição da aldeia e o sistema patriarcal. As mulheres fazem tudo, trabalham muito e são, como sempre, subordinadas. A mãe e as filhas fazem tudo sob ordem do pai. A filha mais nova foi vítima de um ataque de javali. Claro que a realidade que o Mia Couto mostra no seu livro é bem mais complexa do que esse filme. O que quero dizer é que, embora sejam muito diferentes os contextos e as realidades, existe sempre esse aspecto de sentimento comum do ser humano que causa nas pessoas, seja quem for, uma ressonância.

Será que uma tradução não resulta sempre em outro livro, talvez muito diferente?

Quer dizer “tradutor, traidor”? Eu não acho necessariamente que uma tradução resulte sempre em outro livro muito diferente. Pelo menos eu faço tudo para que a minha tradução não seja assim. Porém, compreendo que durante o processo de traduzir, de transpor uma realidade para a outra, é quase inevitável perder certa percentagem do gosto da língua original, especialmente no caso da tradução da poesia. Mas isso não significa que uma tradução não consiga ser o mais fiel possível ao texto original. Para mim, a fidelidade é fundamental, é minha responsabilidade fazer o mais possível para revelar em chinês essa obra maravilhosa do Mia Couto e não ser “traidora”.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s