Crítica

Um génesis apocalíptico

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Sara Figueiredo Costa

Tatiana Salem Levy foi apresentada pela Granta como uma das mais promissoras vozes da literatura brasileira contemporânea. Sem a eficácia narrativa de Chave de Casa ou Dois Rios, o seu terceiro romance não deixa de reforçar esta visão, confirmando a originalidade e a vontade de experimentação formal de uma autora para lá de comentários que podem (ou não) ajudar a vender livros.

Entra-se em Paraíso como num buraco negro, a voz do narrador a anunciar sem preliminares que o homem com quem a protagonista acaba de passar a noite tem SIDA. A condenação há-de pairar durante todo o romance, umas vezes como ameaça eminente, noutras, mais adiante na narrativa, como um espectro que espera afastar-se à força de conjuros, gestos de um quotidiano forçado a reinventar-se ou invocações de memórias próprias e alheias. A memória é, aliás, o grande motor deste trabalho, em coerência com o que tem sido a escrita da autora, mas onde se esperaria um olhar único em direcção ao passado, Tatiana Salem Levy finta o óbvio com várias outras digressões ao passado, misturando personagens que, de modos diferentes, têm no enfrentar do seu passado um desafio para resolver. Ana, a protagonista, recolhe-se na quinta de uma amiga para fugir à condenação e escrever a história da escrava que a antecedeu em várias gerações, mas aí encontrará Rosa, a braços com um caso de violência doméstica que que virá do passado e se prolonga, forçando uma redenção inaceitável. Mais importante, aí se cruzará com Daniel, um artista vivendo isolado na mata, espécie de Thoreau dos tempos modernos a tropeçar na história do seu avô judeu.

Não há, neste Paraíso, quem não transporte uma mágoa imensa, um desajustamento do mundo que se traduz na linguagem abrupta, nos diálogos misturados com o discurso indirecto, no mergulho da voz que narra em direcção ao abismo emocional de cada personagem e na sobreposição de tempos narrativos, um recurso utilizado de modo notável e que permite criar um novo tempo, sem necessidade de o situar cronologicamente, onde passado e futuro se tornam uma única dimensão. Fiel à ideia de rascunho, de tentativa e erro, que atravessa todo o livro, Paraíso termina de modo pouco ortodoxo. Sem estragar a leitura, digamos que o modo abrupto deste final poderá desiludir quem espera que um romance conte uma história, com princípio, meio e fim. Ora, há outros modos de contar e Tatiana Salem Levy parece mais interessada em explorar a hipótese de uma história ser o conjunto de fragmentos, fantasmas e suposições que vão compondo as horas nossas de cada dia, e não tanto a narrativa ordeira que aspira ao arranque e ao ponto final com a ordem harmoniosa de um génesis, Adão e Eva cumprindo os papéis sem perguntas, a árvore do conhecimento perfeitamente identificada entre a vegetação.

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