Crítica

A salvação pelos livros

Remédios-Literários-600x600

Sara Figueiredo Costa

Ainda se encontram, em alfarrabistas e feiras, aqueles velhos volumes assinados por médicos, umas vezes, ou curiosos, outras tantas, que proclamavam a cura pela água, ou pelo ar puro, ou pelo exercício físico. Tudo coisas que sabemos essenciais a uma vida com saúde, mas ainda assim, dificilmente aceitáveis quando apresentadas em receitas que incluam banhos gelados pela madrugada ou treinos físicos impossíveis para a maioria das pessoas de hoje. Remédios Literários segue a estrutura desses volumes, listando problemas e apresentando a sua solução. A diferença é que, aqui, os problemas misturam a vertente emocional com as contrariedades do dia a dia e com a saúde, e a solução passa pela leitura de um ou mais livros.

Ella Berthoud e Susan Elderkin conheceram-se quando ambas estudavam Literatura Inglesa em Cambridge, e a sua devoção à leitura levou-as a criarem, juntas, um serviço de biblioterapia que funciona na School of Life, em Londres. Este livro será, então, uma espécie de manual para principiantes, uma pequena amostra daquilo que poderá ser desenvolvido através de uma consulta mais personalizada. Sem disfarçar alguma ligeireza, e não fugindo às fórmulas dos muitos livros de auto-ajuda que pululam pelas prateleiras das livrarias, prometendo soluções para tudo a partir de uma atitude optimista, Remédios Literários consegue, ainda assim, não se levar demasiado a sério. Receitar a leitura de O Diário de Bridget Jones, de Helen Fielding, para o “problema de ser solteiro”, ou Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, para quem se sente diferente, prenuncia um caminho escorregadio. Por outro lado, há Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, para quem consome demasiadas drogas, ou Madame Bovary, de Flaubert, e Anna Karénina, de Tolstoi, para quem se sente tentado pelo adultério, e aqui não há vestígio de moralismo, ou de conselhos cor-de-rosa para mudar a sua vida em dez minutos…

Apresentado como um guia de livros que podem salvar a vida do leitor, este volume ganha muito em ser lido como uma espécie de diário de leituras. Poucos exercícios ajudam tanto a contrariar o tédio de um leitor como espiolhar as leituras dos outros, apontar-lhes as virtudes e as falhas (como é que O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, não é remédio para a vontade de vingança?). Os cépticos da “cura”, se forem igualmente voyeurs de bibliotecas alheias, ficarão tão satisfeitos como todos aqueles que estão dispostos a acreditar no poder de um livro para resolver a sua vida. Os restantes podem sempre tentar a panaceia recomendada e dedicar-se à leitura de O Eleito, de Thomas Mann, para curarem a misantropia.

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