Editorial

Parágrafo #6

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Sara Figueiredo Costa

Quando um autor ouve anunciar o seu nome como vencedor do Prémio Nobel da Literatura, sabe que a vida não voltará a ser a mesma. Doris Lessing, recebida pela imprensa à porta de sua casa, quando regressava das compras, lamentava a confusão toda ali instalada e, depois de saber que era a mais recente galardoada, explicava que tinha coisas para tratar em casa. Aconteceu em 200 e terá sido difícil voltar a esse ritmo que cada escritor define como estruturante da sua vida – e que passa pelo tempo da escrita, mas também, imaginamos, pela vida doméstica, familiar, afectiva – quando todos os convites para todos os debates e sessões e conversas caem diariamente na caixa do correio. Svetlana Alexievich, distinguida com o Nobel em Outubro passado, parece não se deixar afectar demasiado pela notoriedade pós-Nobel, participando em sessões com leitores com a candura de quem quer conhecer os que a lêem e, simultaneamente, com um espírito de missão que muito deverá aos textos que escreve. Jornalista de profissão, a autora trabalha a partir da realidade, talvez como muitos romancistas, mas com a particularidade de não escrever ficção. A tragédia de Chernobyl, a guerra no Afeganistão ou o desmoronamento da União Soviética são alguns dos temas espinhosos a que se tem dedicado. Na Feira do Livro de Bogotá, na Colômbia, Svetlana Alexievich falou sobre o seu trabalho, sem dar demasiada importância ao debate sobre se o que escreve é literatura (e, portanto, merecedor de um Nobel), perante uma plateia esgotadíssima e nós fomos até lá ouvir o que tinha para dizer.

Noutra latitude, na cidade portuguesa de Matosinhos, escutámos os autores que participaram na décima edição do Literatura em Viagem, um festival literário capaz de encher uma sala com centenas de pessoas em dia de final do campeonato de futebol e com a concorrência da festa do Senhor de Matosinhos a poucos metros. Claudio Magris, um dos grandes pensadores da Europa contemporânea, deixou pistas para pensarmos o futuro sem esquecermos a memória e lançou alguns alertas sobre o drama dos refugiados e o perigo de uma nova ascensão da extrema-direita.

Entre livros e leituras, há ainda espaço para destacar a atribuição do Man Booker Prize à autora coreana Han Kang, pelo livro The Vegetarian, para espreitarmos as novidades publicadas neste último mês e para mais um conto finalista dos concursos anuais que o festival literário Rota das Letras tem realizado, abrindo espaço para a prosa com Macau como pano de fundo.

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