Reportagem

Todas as vozes de Svetlana Alexievich

Svetlana Alexiévitch La Guerra no Tiene Rostro de Mujer - Fotografo - David Prada (16)

Hélder Beja, em Bogotá

A mais recente vencedora do Nobel da Literatura esteve na Feira Internacional do Livro de Bogotá para falar da sua obra e do acontecimento que marcou para sempre a sua vida e a do povo bielorrusso: o desastre nuclear de Chernobyl, há 30 anos. “O horror é sempre vizinho da beleza”, diz Svetlana Alexievich.

É um dia qualquer depois de 26 de Abril de 1986, há 30 anos. O dia exacto não interessa. O tempo, como tudo o resto, dilui-se numa mancha radioactiva que alastra de Chernobyl para a então República Socialista Soviética Bielorrússia e para todos os lugares onde sopra e chega o vento venenoso do progresso.

Svetlana Alexievich, jornalista, está em Chernobyl para, como muitos outros repórteres, tentar perceber o que se passa. “Recordo-me de estar num táxi e de o condutor me dizer ‘vou parar de trabalhar, não aguento mais isto. Todos os dias sete ou oito pássaros se estatelam contra o vidro do táxi e morrem’. Tudo estava a mudar, mesmo que isso ainda não fosse visível.

Vieram os helicópteros, as viaturas marciais e as fardas que as enchem. Vieram pessoas de todo o lado para ver, para ver o espectáculo de uma catástrofe sem par às mãos do homem e que à noite brilhava a partir dos reactores nucleares. Os militares “estavam perdidos”, enfrentavam um inimigo invisível. “Contra quem iam eles disparar? Não sabiam. Eles recolhiam material radioactivo com as mãos, aguentavam meia hora… Pagámos com as nossas vidas”, recorda Alexievich.

Hoje, 30 anos volvidos, a mais recente vencedora do Prémio Nobel da Literatura está na Feira Internacional do Livro de Bogotá (Filbo) e o auditório principal, que leva o nome de José Asunción Silva, poeta modernista colombiano do século XIX, transborda para ouvi-la falar.

O que vi foi um mundo antes e depois de Chernobyl. Tudo se transformava em Chernobyl (…). Toda a gente dizia ‘queremos ver’. À noite, a central [nuclear] iluminava-se e era bonito. Vi pessoas nas aldeias com caras completamente loucas. Havia espécies de cemitérios onde as pessoas iam enterrar a comida” que já não podia ser ingerida. “Percebi que não poderia escrever rapidamente sobre aquilo.” E não escreveu.

Vozes de Chernobyl, agora editado em Portugal pela nova Elsinore, com tradução de Galina Mitrakhovich e prefácio de Paulo Moura, foi publicado pela primeira vez em 1997. Com ele entra-se num mundo em que a morte e o amor, temas de sempre, aparecem não pela voz da autora mas das mais de 500 pessoas que ela entrevistou uma e outra vez.

Svetlana Alexievich foi percebendo devagar algumas coisas. Que, para falar de Chernobyl, não queria seguir o modo simplista que os jornais privilegiavam, que era preciso ouvir e, acima de tudo, que “não somos assim tão fortes quando o horror nos ultrapassa”.

Com o desastre nuclear desapareceram mais de 300 aldeias, contabiliza a autora. Famílias abandonaram as suas casas, deixaram para trás paisagens bucólicas que ainda conservavam toda a beleza, mas que estavam contaminadas por um mal oculto, que não dava tréguas. “As pessoas passaram a viver num mundo novo, a dizer coisas novas, inesperadas, que nem a nossa literatura conhecia. Há pouco tempo falei sobre isto no Japão e disseram-me que para eles era mais fácil perceber, porque tiveram Fukushima”, diz a Nobel da Literatura.

O que mais me comoveu e me ajudou a expressar-me foi andar por aquelas aldeias e sentir a morte ao meu redor – não a vês, mas não podes comer, não podes banhar-te no rio. Estás parada num mundo de morte nova. Comoveu-me ver como as pessoas deixaram esses lugares bonitos, dos mais bonitos do meu país. Não estávamos preparados para isto, achávamos que nem sequer tínhamos uma central nuclear.”

O acidente de Chernobyl mostrou, talvez como nunca antes, que “o horror é sempre vizinho da beleza” que, “a beleza e a morte vão de mão dada”. E foi fazendo esse caminho que a autora encontrou uma forma de contar as histórias daquelas pessoas.

O livro abre com o testemunho de uma mulher que, no meio da tragédia, viveu e morreu uma história de amor formidável. “É a história destas pessoas recém-casadas, que até ao supermercado iam de mão dada”, lembra. Ele, Vassíli Ignatenko, era bombeiro. Recebeu o alerta de incêndio na central de Chernobyl e lá foi, com a farda normal a cobrir o corpo, para dar conta do fogo. Os níveis de radioactividade a que foi exposto, com os seus companheiros, superam os limites do imaginável. As consequências também.

Depois do acidente nuclear tudo foi feito com grande segredo, incluindo o tratamento de homens como este, expostos à radiação, e todos aqueles a quem chamaram ‘liquidadores’, por terem acorrido à central nuclear para tentar para o incêndio e terem sofrido as devidas consequências. Um avião levou Vassíli e outros bombeiros para Moscovo, deixando as famílias para trás. Mas Liudmila Ignatenko, mulher do bombeiro Vassíli, não se deu por vencida.

Ela era uma mulher pequenina, uma cozinheira, decide ir para Moscovo e, neste país em que tudo está sob segredo, o primeiro taxista com quem fala diz-lhe onde estão os bombeiros de Chernobyl.” Toda a gente sabia.

Alexievich interrompe a história, faz uma pausa. Diz: “As pessoas morrem de radiação de uma forma horrível.”. O auditório da Filbo sente o peso daquelas palavras. Lá fora, centenas de leitores que esperaram durante horas para ouvi-la não puderam ouvi-la. A autora prossegue.

As famílias não tiveram acesso aos bombeiros de Chernobyl, mas Liudmila conseguiu ver o marido. Enganou os médicos, escondeu que estava grávida, inventou que já tinha dois filhos. De repente, está do lado de lá da caixa de vidro onde os homens, contaminados, eram observados. “Ela subia pelas escadas de incêndio para visitá-lo, subornava funcionários (…). Mas os médicos só lhe perguntavam porquê e se ela sabia o que estava a fazer. Diziam-lhe ‘esta não é a pessoa que amas mas um objecto que deve ser desactivado, tu não podes tocar-lhe, nem sequer deves vê-lo’. Mas ela não escutava, acompanhou-o até ao fim.” Esse fim, terrível fim, está descrito nas páginas que abrem o livro de Svetlana Alexievich.

Liudmila sobreviveu, foi mãe e a criança viveu apenas uns dias. Não deixou que a levassem para que pudesse ser estudada pela ciência. Arranjou uma caixa de bonecas, colocou-a lá dentro e enterrou-a ela mesma junto ao marido, no cemitério onde depositaram os corpos dos bombeiros de Chernobyl.

Percebeu-se depois que foi a filha que a salvou, foi a filha que absorveu quase toda a radiação. Fui com Liudmila ao cemitério, eu caminhava mas ela não. Foi de joelhos até à campa, a chorar, a gritar e a pedir perdão à filha. Eu não sabia sobre o que estávamos a falar, se sobre a morte, se sobre o amor”, descreve a escritora.

A arrogância do homem e da ciência

Chernobyl pôs tudo em causa, aquilo em que as pessoas acreditavam e não acreditavam, o lugar do homem e da ciência.

Acho que o homem deve avaliar de outro modo a sua posição no mundo. É certamente necessário haver formação ecológica, teremos de deixar de usar algumas máquinas. A natureza já começou a vingar-se de nós”, diz Svetlana Alexievich.

Depois da catástrofe de há três décadas, os cientistas que tentaram visitar as aldeias da região foram “corridos a pau” e as poucas igrejas que existiam estavam cheias. “Era claro que o mundo das ciências estava à beira do colapso.”

Se a ciência estava prestes a colapsar, a Bielorrússia não estava muito melhor. Anos depois de Chernobyl, em 1994, Alexander Lukashenko é eleito Presidente da República, cargo que ainda ocupa em 2016, e a vida de qualquer livre pensador torna-se difícil. “Na época em que saí da Bielorrússia [em 2000], fi-lo para protestar, como outros”, conta Svetlana Alexievich. “Acreditávamos que o comunismo estava condenado. Naquela altura os livros de Aleksandr Solzhenitsyn já estavam por todo o lado mas as pessoas não queriam saber. As pessoas queriam mais comida, roupas novas, ver o mundo. Os livros que falavam de campos de trabalho, dos gulag, já não eram proibidos, estavam nas lojas, mas ninguém queria saber.”

Ninguém queria saber? Como é isso possível? “Alguém que sai de um campo de concentração não pode ser completamente livre porque não sabe o que é a liberdade. Nós íamos para as praças, gritávamos ‘liberdade!’, mas não sabíamos o que isso significava. Assustei-me quando vi escritores a contarem, com brilho nos olhos, como tinham espancado um polícia. Eram escritores!”

Alexievich passou mais de uma década entre Paris, Gotemburgo e Berlim. “Saí para ver como viviam as pessoas noutros lugares do mundo. Vejo que aqui na Colômbia também têm uma cultura de guerra. Ou estamos preparando a guerra ou estamos vivendo a guerra. Não entendemos quão anormal é o nosso mundo e quão anormais sãos os nossos valores”, lamenta.

Com os anos e o muito trabalho vieram os livros – as cinco obras em prosa que constituem o projecto literário “Vozes da Utopia” e que são Vozes de Chernobyl, A Guerra não Tem Rosto de Mulher, O Fim do Homem Soviético, As Últimas Testemunhas e Rapazes de Zinco – e veio também o reconhecimento. Entretanto, foi preciso voltar a casa, em 2011. “Não se pode ir do socialismo ao capitalismo em um passo. Entendi que ia demorar muito. Durante esse período morreram os meus pais, a minha neta cresceu. Eu só tenho uma vida, quero estar com aqueles que me são queridos. Além disso, para escrever estes livros tenho de estar com as pessoas, não é qualquer coisa que se faça pela internet. Então, regressei.”

Como antes, “o poder [político] fez de conta que não existia”. Só que entretanto veio o Prémio Nobel da Literatura e “agora é mais difícil para Lukashenko ignorar” o poder das palavras de Svetlana Alexievich.

A vida na Bielorrússia, apesar dos prémios e das honras, não é fácil para a escritora. “Os meus livros são muito caros lá. É uma das formas de fazer com que não muitas pessoas os leiam. Não posso dar conferências ou entrevistas, como aqui.” Essas limitações, no entanto, são largamente compensadas por aquilo que sente junto das pessoas. “O que sei é que quando saio à rua, as pessoas abraçam-me, agradecem-me, dizem-me ‘mostraste que nós existimos’. Isso não é o mais importante agora, o importante é que o escritor faça o seu trabalho e que esteja do lado da bondade”, acredita.

A força do real

Svetlana Alexievich conta que “quando era jovem não era nada compassiva” com o seu pai bielorrusso e com a mãe ucraniana. “Dizia-lhes ‘Como foram capazes [de compactuar com o regime]?’ Agora é estranho pensar nisso. Quando a minha neta crescer pode também perguntar-me ‘Como foste capaz?’ A força de um regime autoritário é que nos converte a todos em cúmplices, com leis de medo.”

A Nobel da Literatura esteve no terreno durante a Guerra do Afeganistão, que se estendeu por uma década (1979-1989). Quando regressou, a sua visão do mundo tinha-se alterado. “Já não falava do mesmo com os meus pais. Ali percebi que a única coisa que nos pode salvar não é o ódio, mas o amor. Hoje, se pudesse voltar a falar com o meu pai [já falecido], só falaria sobre o amor”, confessa. “Diziam-nos que o Afeganistão era uma guerra justa, mas não era. Regressei do Afeganistão uma pessoa livre. Não acreditava no socialismo, no comunismo. Não se pode romantizar a violência, é um caminho sem saída. Temos de encontrar um caminho de igualdade.”

Quando encara a realidade e os sistemas que criámos para torná-la mais suportável, Alexievich continua a ter dúvidas. Acredita que o socialismo possa regressar, mas lembra que “o socialismo requer avanço tecnológico e um nível de desenvolvimento alto”. Já o capitalismo “é sem dúvida uma das nossas utopias”. A autora considera que a justiça pura não existe, que haverá sempre injustiças”, mas, olhando para o Ocidente, “percebe-se nas sociedades europeias que as pessoas podem defender-se” melhor perante os sistemas em que estão inseridas. “A vida será sempre uma luta entre o bem e o mal, como dizia o grande Dostoievsky. Posso concluir que a democracia é um mecanismo humano melhor trabalhado e que podemos e devemos falar sobre como melhorá-la”, conclui Svetlana Alexievich.

Uma pessoa-ouvido

Há qualquer coisa de poético e ao mesmo tempo profundamente triste na forma como a Nobel da Literatura se dirige à audiência colombiana. Fala dos sonhos e das aspirações do ser humano, diz que “tudo o que estamos sonhando é uma utopia”. Está a escrever um livro sobre o amor e um dos protagonistas diz-lhe que haverá um avião que nos levará ainda mais rapidamente de um lugar ao outro. Ela atira: “Para quê? Para se chegar duas horas antes à mulher que não se ama? A tecnologia não nos salva.”

Alexievich trabalhou sete anos como jornalista, viajou muito, escutou incontáveis conversas. “Sempre tive esta ideia de que a ficção é algo que não capta [a realidade]. É a minha opinião. Não estou a dizer que é preciso reescrever o Guerra e Paz, só acho que a verdade não cabe num só coração, mas em muitos.”

Por isso, o seu método é como uma melodia polifónica. “Quando escrevo, o meu mundo é um tecido que escuto. Demoro muito a escrever os meus livros. Dediquei 40 anos a cinco livros, falei com milhares de pessoas. Era como criar uma enciclopédia do sonho comunista”, diz.

Svetlana Alexievich considera-se “uma pessoa-ouvido”. Conta que “é intuitivo o modo como sente que uma pessoa pode ser umas das suas personagens. “Posso voltar cinco ou sete vezes para falar com ela. O mais importante não é reunir uma colecção de horrores, mas formar um novo ponto de vista, um novo significado. Vivemos num mundo muito banal, o trabalho do escritor é retirar as pessoas dessa banalidade e dar-lhes uma meta mais alta na vida, mostrar-lhes que não vivemos apenas para comprar coisas caras.”

A escritora não se aproxima dos seus protagonistas como de objectos ou como emissores prestes a debitar informação, “mas como alguém que vive o mesmo tempo e a mesma realidade” que essas pessoas. “As minhas personagens são pessoas pequenas, a quem ninguém faz perguntas, nada, a quem só diziam ‘vai e morre’, na melhor das hipóteses em troca de algum dinheiro.” Das histórias desses “pequenos homens e mulheres” nasce uma “grande história”, acredita. “A história colectiva dos Estados é uma grande mentira”, diz. “A guerra não é tudo na vida, a vida é muito mais que a guerra.”

Svetlana Alexievich recorda a infância, a avó ucraniana vestida com trajes tradicionais, um tempo sem carros, sem progresso. “Sim, tenho o prémio Nobel, mas o mais importante ficou na minha infância. A vida é um enigma, um mistério.”

Para conseguir viver a este eterno enigma, “qualquer pessoa tem de se agarrar a alguma coisa. Ao amor de um filho, por exemplo”. Na Bielorrússia, com Chernobyl, sofreu-se talvez como nunca antes e o enigma alastrou, tornou-se mais complexo e continua à espera de respostas. “Dizem que nós, bielorrussos, somos caixas negras. Estamos a guardar informações para o futuro.”

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