Crítica

Tudo isto é arte?

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Hélder Beja

Na Feira Internacional do Livro de Bogotá deste ano houve um fenómeno a que o jornal Semana chamou “O efeito Avelina Lésper”.

Lésper, académica e crítica de arte, é a autora de um pequeno e incendiário livro, El Fraude del Arte Contemporáneo. Na obra, a mexicana arrasa artistas, curadores, museus, galerias, críticos e, em suma, toda a engrenagem da máquina de arte contemporânea dos nossos tempos.

O livro está organizado em quatro segmentos. Aborda aquilo a que a autora chama “o dogma inquestionável” da arte contemporânea, a performance, as “formas de cópia na arte” e a relação entre arte e feminismo.

Avelina Lésper defende que a arte contemporânea, esvaziada de talento, originalidade e sentido estético, se transformou em crença. “Tudo o que o artista elege e designa converte-se em arte. A arte fica reduzida a uma crença fantasiosa e a sua presença a um significado.” Para a autora, “vemos como em nome da crença de que tudo é arte se está a demolir a própria arte”.

Um dos pontos mais interessantes do argumentário nem sempre coerente de Lésper é este: qualquer objecto se transforma em arte através de um fenómeno de linguagem, centrado na conceptualização da obra, no significado, na intenção do artista, no discurso curatorial, no contexto e, em última análise, num exercício retórico. Lésper acredita que tal acontece “para encobrir a sua banalidade e superficialidade com ideias, num disfarce retórico para o vazio de criação e talento”.

Recorrendo a exemplos práticos, que vão de Damien Hirst a artistas latino-americanos, Lésper não poupa nem mesmo as instituições nacionais. “A arte converteu-se numa ONG que lucra com a ignorância do Estado”, escreve. Fala de obras “supostamente contestatárias, que se realizam com a comodidade e protecção das instituições e com o apoio do mercado”.

O livro ataca ainda o contexto, ou seja, a legitimação dada a obras de arte por museus e galerias. “Esta falsa arte chamada contemporânea requer esses muros, essa instituição, esse contexto para poder existir aos olhos do público como arte.”

Finalmente, sobra pancada para os curadores. “Ao converter a arte em especulação retórica e teoria, ao reduzi-la a uma construção discursiva, o artista deixa o seu lugar de criador para entregá-lo ao teórico, ao[s] curador[es]”, que qualifica de “incontinentes retóricos”.

Em suma, Avelina Lésper vê na arte contemporânea um “desprezo endémico” pela beleza e pelo talento. Sendo muito politicamente incorrecta, tem, como seria de esperar, ferozes detractores e outros tantos partidários. De um modo geral, El Fraude del Arte Contemporáneo peca pelas generalizações, sempre perigosas, e por uma postura que alguns considerarão demasiado purista, para não dizer retrógrada, sobre os diferentes fenómenos artísticos. Abre, no entanto, um importante debate: tudo isto que nos é impingido por artistas, curadores, associações, galerias, museus e quejandos é verdadeiramente arte? Dá que pensar.

 

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