Reportagem

Uma pausa no tempo

Sara Figueiredo Costa13335650_10209135258236231_647457910926420541_n-2

O Mapa Esquivo, de Fernanda Dias, foi apresentado na Feira do Livro de Lisboa, marcando o regresso da autora à Livros do Oriente, editora que publicou o seu primeiro livro, em 1992.

Em dias de Feira do Livro, os lançamentos e apresentações sucedem-se no auditório montado no alto do Parque Eduardo VII, em Lisboa. O tempo para cada apresentação é contado ao minuto, mas nem por isso há menos agitação entre editores, autores e leitores, todos parecendo correr contra o relógio antes que o evento seguinte traga os seus convidados. No passado dia 3 de Junho, a pressa foi quebrada e nem por isso houve atrasos no cumprimento do horário. Entre amigos e conhecidos de Macau, Fernanda Dias apresentou o seu mais recente livro de poemas, O Mapa Esquivo, edição da Livros do Oriente. Na mesa, para além da autora, estiveram Rodolfo Faustino, do Turismo de Macau, Rogério Beltrão Coelho, editor da Livros do Oriente, e Cecília Jorge, também editora da casa e igualmente responsável por apresentar o livro de Fernanda Dias.

Dividido em quatro partes, O Mapa Esquivo tem Macau como eixo temático, cruzando memórias, leituras e fragmentos que tanto podem pertencer a quotidianos observáveis como imaginados. Na apresentação que fez do livro, Cecília Jorge referiu o “modo como [Fernanda Dias] deixou entranhar em si a essência de Macau” e os poemas confirmam essa leitura. Acreditando que o que os seus poemas têm para dizer está dito neles próprios, Fernanda Dias preferiu falar sobre a sua ligação com Macau, uma ligação que dura desde que, em 1986, se mudou para o território. Em 2005, regressou a Portugal, mas continua a dividir o tempo entre os dois lados do globo, passando muitos meses por ano em Macau.

Num dos poemas de O Mapa Esquivo lê-se: “o sapal deu em casino/ a cidade engendrou turbas”. As mudanças aceleradas na cidade, na paisagem, em alguns hábitos, percorrem estes poemas. Há uma certa ideia de perda, também reflectida na cidade, mas parece ser uma perda inevitável pela passagem do tempo e não tanto um olhar melancólico em direcção a um passado ou à sua ideia. Tudo o que tem mudado em Macau encontra eco nestes versos, mas o eco não é lamentação e sim registo de uma mudança em curso, como explicou a autora ao Parágrafo: “Não considero que essas diferenças na cidade, por fortes que sejam, sejam só uma perda. Essas características que os poemas podem dar a ideia de serem repudiadas, os néons, as multidões, o turbilhão, acabam por ter um valor, uma personalidade. Aos olhos de um poeta isso não pode ser desprezado.” Não há, portanto, lugar para qualquer leitura saudosista quando o que está em causa é procurar perceber o pulsar presente de Macau. “Os poemas podem parecer saudosistas, mas isso é sobretudo a representação das vozes das pessoas que vivem em Macau e lamentam a mudança. Toda essa lamentação, que é uma coisa comum, é apropriada pelos meus poemas, portanto não poderei dizer que tudo isso são só perdas. Tudo passa e tudo se refaz. Os casinos, agora, são tão reais como o Rio das Pérolas.”

Tantas mudanças vêm acompanhadas de uma certa ideia de velocidade, como se o tempo fosse transformado em coisa visível à força de tanto vermos nascerem edifícios em lugares que estavam vazios. Espaço ocupado e tempo acelerado parecem conviver em Macau, mas Fernanda Dias não acredita que tenhamos capacidade para observar o segundo com o mesmo rigor que notamos o primeiro: “Não sei se é o tempo que passa ou se nós é que adquirimos uma noção diferente do tempo, porque as coisas acontecem tão vertiginosamente que nós ficamos com a sensação de estarmos a ver o tempo passar. A noção de tempo também sofre variações, também se submete à rotina da cidade, ficando subsidiária das imagens, da cor, de tudo.” Em Lisboa, o tempo passou com a calma das celebrações bem aproveitadas. Depois das intervenções, houve salgados e doces com sabor macaense, espaço para conversas e reencontros, livros assinados. Quando chegaram os participantes do evento seguinte, ainda puderam provar as iguarias macaenses antes que o relógio voltasse a marcar os minutos no acelerado ritmo da Feira do Livro lisboeta.

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