Entrevista

Vêm em bandos com pés de veludo

079-Os Vampiros

Sara Figueiredo Costa

Juntaram-se pela primeira vez nas páginas de As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça & Pizzaboy, uma trilogia em banda desenhada que revisitava os filmes das suas infâncias enquanto contava uma história sobre amizade, justiça e destino. Regressam agora com Os Vampiros, uma história sobre a Guerra Colonial que é, afinal, a história de todas as guerras.

Um português e um argentino encontram-se e este não é o início de uma daquelas anedotas com nacionalidades, mas antes o primeiro passo numa parceria de sucesso que colocou a banda desenhada portuguesa nos escaparates das livrarias generalistas e nas páginas de alguma imprensa habitualmente pouco atenta a esta linguagem. Os três volumes de As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça & Pizzaboy reapresentaram ao mundo Filipe Melo e Juan Cavia, um músico que tem feito a sua carreira no campo do jazz, sempre com muitas fugas e inquietações, e um director de arte que se move entre o cinema e a publicidade. Depois do frenesi em torno de uma história que cruzava monstros com a história política do século XX, misturando os clichés cinematográficos dos anos 1980, os jogos de computador e a paródia em torno dos géneros narrativos, Os Vampiros colocam o trabalho da dupla num outro universo, mais denso e pesado. A história de um grupo de soldados portugueses na Guerra Colonial convoca a canção homónima de José Afonso para reflectir sobre as causas e consequências da guerra, lembrando traumas individuais e colectivos e questionando certezas e ilusões. O Parágrafo conversou com Filipe Melo e Juan Cavia em Lisboa, poucos dias depois de uma sessão de autógrafos na Feira do Livro que durou muitas horas, sempre com fila de espera.

O título deste novo livro é uma metáfora, e nem sequer muito subtil, sobre a Guerra Colonial, mas essa metáfora é levada mais longe, confrontada com a hipótese de não o ser, na altura em que se sugere que os vampiros serão realmente vampiros e não uma referência metafórica. Não tiveram medo que isso resvalasse para uma coisa menos séria?

Juan Cavia (JC): Os vampiros já existiam no guião original. Num primeiro momento, talvez a sua presença fosse mais concreta, mas havia uma dúvida e colocava-se um risco, um risco interessante, porque podíamos tirá-los por completo ou assumir a postura extrema de serem uma metáfora. E a nossa decisão foi a de dar ao leitor a hipótese de concluir a metáfora, ser ele a construí-la, e não o autor. Em vez de termos os autores dizendo ‘vamos construir uma metáfora sobre os vampiros’, assumimos que queremos contar uma história e cada um que tire as suas próprias conclusões. Com a devida distância, podemos tirar conclusões sobre as tragédias gregas sobre os mitos, mas a história, em si, não os explica passo a passo: a história é aquela e perante ela tiramos as nossas conclusões. O nosso desafio era não cair em algo demasiado aborrecido, que dissesse abertamente ‘estes são os monstros’ ou ‘não há monstros’. É um desafio, claro que nos criou inseguranças, porque vínhamos de fazer uma coisa mais clara.

Filipe Melo (FM): Foi muito trabalho, objectivo e prático. Tentámos trabalhar o argumento de maneira a que não tivesse a pretensão de ser algo completamente metafórico, nem uma história tradicional de monstros na selva. Talvez em relação aos nossos livros anteriores a diferença seja essa capacidade de confiar ao máximo no leitor e nas suas conclusões.

Enquanto dupla de autores, vocês vêm de uma trilogia, As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça & Pizza Boy, que entre muitas coisas é também um pastiche de géneros, com alguma paródia, muitas referências aos filmes e aos vídeo-jogos dos anos 80. Agora passam para um livro mais denso psicologicamente, mais duro. Como fizeram essa transição?

FM: Temos uma confiança mútua muito grande, que fomos construindo com o Dog Mendonça. Quando começámos o segundo volume, sabia que aquilo ia ser mais ou menos uma crítica à minha culpa judaico-cristã… E o terceiro tem que ver com o medo que temos de chegar a uma altura na vida em que percebemos que estamos mais velhos e não concretizámos nada do que queríamos, e isso traz ansiedade, vontade de encontrar aquele momento em que cumprimos uma coisa e podemos descansar. Era isso que queríamos dar ao Dog Mendonça. Foram tudo decisões que, para todos os efeitos, não são assuntos menos sérios do que este da Guerra Colonial, só que a maneira como os contamos faz com que os leitores entrem mais na aventura do que no resto. Nos outros livros temos uma rede de protecção enorme, porque quem não chegar a essa segunda camada não perde a história, que funciona honestamente. Aqui, não há rede de segurança e isso traz dúvidas e angústias, claro. Até a promoção deste livro é difícil, porque eu não estou habituado a falar a sério, ainda por cima sobre um assunto sobre o qual não tenho qualquer tipo de autoridade, porque não venho dessa geração. Por outro lado, também foi isso que me motivou a fazer um livro que não é igual aos outros.

A Guerra Colonial é um tema central na nossa história, mas curiosamente não temos tantas obras artísticas sobre o assunto como seria de esperar. Como é que chegaram ao tema?

FM: Inicialmente, isto apareceu como um contexto, um cenário, e foi ganhando protagonismo à medida que a minha própria curiosidade sobre o tema me levou a pessoas e a histórias que enriqueceram a narrativa, ao ponto de quase transformarem a guerra no antagonista destes personagens. Foi o processo de investigação que me levou a isto.

JC: Entretanto, ficámos mais velhos… Se a vida o tivesse permitido, este era um projecto para ter acontecido em 2009, 2010. O primeiro rascunho fazia deste trabalho algo completamente diferente e estava mais próximo da linha dos nossos livros anteriores, mais anedótico. Às vezes, o contexto é muito condicionante.

FM: Para todos os efeitos, este é um livro só, mas tenho a certeza que para mim e para este homem, durante uma série de tempo, isto era a coisa mais importante das nossas vidas. O grau de angústia e de total desespero para tentar encontrar soluções fazem com que, sem dúvida nenhuma, isto tenha sido uma tremenda experiência de aprendizagem e de vida.

Como foi trabalhar à distância, um em Portugal, outro na Argentina?

JC: Estivemos juntos para o layout, em Dezembro de 2014, quando o argumento já estava muito trabalhado. Depois disso trabalhámos à distância durante um ano e em Dezembro do ano seguinte estivemos a trabalhar aqui, em conjunto.Entre Fevereiro e Março deste ano, acabámos o livro. Foi um trabalho muito em simbiose, ultrapassávamos muito a linha um do outro, mas tínhamos confiança para fazê-lo, mesmo que isso seja um risco. Não nos matámos porque tudo se fazia pelo bem do livro e as coisas nunca se tornaram pessoais… As colaborações têm essa vertente, é inevitável.

Que fontes usaram para a investigação?

FM: Quando escolhi a Guerra Colonial como cenário comecei pelos lugares mais básicos, essenciais. O documentário do Joaquim Furtado, por exemplo, foi muito importante. Li os relatos que saíam aos domingos no Correio da Manhã, sem qualquer filtro ou preocupação literária. E havia um blog que tinha uma série de relatos de ex-combatentes. O que notei foi que não havia muito acesso a uma versão do lado do PAIGC e isso fez-me procurar saber mais sobre o Amílcar Cabral. Depois dessa fase, quando o argumento começou a ficar mais ambicioso, comecei a falar com algumas pessoas, procurando gente que estivesse estado na Guiné. E encontrei. Fiz entrevistas muito formais e outras muito descontraídas e conheci duas pessoas que partilharam coisas muito fortes comigo. Há partes do livro que são transcrições exactas de conversas que me contaram. E houve algumas reacções notáveis. Por exemplo, quando a filha do Amílcar Cabral esteve em Portugal a apresentar um livro, não descansei enquanto ela não leu o livro. O comentário dela foi sobre as lâmpadas nas cabanas, que não eram aquelas que tínhamos desenhado naquela altura. E foi um problema, porque tivemos de trocar lâmpadas em cerca de 50 páginas…

O traço e a composição destas pranchas estão marcados por um negrume e um peso muito notórios. Que tipo de cuidados houve na definição da composição e na escolha da paleta de cores, que por vezes ajuda a definir momentos chave da narrativa?

JC: Nesse campo, recorro mais ao meu trabalho como director de arte de cinema do que como ilustrador. Escolhi uma paleta reduzida, porque uma mais ampla podia confundir a história que queríamos, e por outro lado quis que houvesse alguma empatia em determinados momentos. Parte do desafio tinha que ver com o tempo que tínhamos para o trabalho, isso também é relevante. A ideia era encontrar um método, um tipo de desenho e uma paleta que tivessem sentido, de que eu gostasse, mas também que funcionassem no tempo que fomos definindo para o trabalho.

Que tipo de argumentista é Filipe Melo no que respeita ao trabalho em colaboração? O layout já está muito definido quando chega a altura de desenhar?

JC: Pelo contrário. O Filipe é muito livre ao princípio, confia muito. Isso é bom, mesmo quando traz problemas, porque às vezes demoramos muito a tomar a decisão final sobre alguns elementos. A cena das lâmpadas, por exemplo, deixou-me muito agressivo, porque na altura discutimos sobre aquilo e eu disse que me parecia que lâmpadas de tubo não faziam sentido. O Filipe disse que sim, e ficou. Quando foi preciso mudar, disse que não mudava. O Santiago [Villa, o terceiro autor de Dog Mendonça & Pizzaboy] mudou, mas se ele não tivesse aceitado fazer isso, não deixaria mais ninguém mexer no meu trabalho e as lâmpadas ficariam como estavam! Quem ler esta entrevista vai pensar que nos odiamos, mas não é verdade.

FM: Pois não!

JC: O Filipe é muito respeitador do meu trabalho, essa é que é a verdade.

Dog Mendonça & Pizzaboy foi um marco na edição de banda desenhada em Portugal, com milhares de exemplares vendidos e edições esgotadas. Como explicam esse efeito, num país onde a banda desenhada chega a tão poucos leitores?

JC: Há um ponto que tem que ver com trabalho e perseverança de conseguir algo a um nível excelente e aí o Filipe foi o grande responsável, porque trabalhou muito para isso. Sem transformar o Dog Mendonça numa empresa, o Filipe conseguiu, com o próprio livro, através das vendas e da divulgação, um enorme feito. E sem ceder a técnicas empresariais que poderiam vender muito mais, mas que seriam uma traição a nós próprios. O mérito é esse: o Dog Mendonça chegou aonde o seu próprio conteúdo permitiu, sem mais.

FM: O esforço para fazer os livros foi o de fazer o melhor trabalho possível. Não quisemos fazer algo que o público fosse gostar de certeza, ou que fosse vender. O nosso objectivo não era fazer dinheiro – até porque, temos de dizer, há más notícias nesse departamento – e também não era uma ambição unicamente artística, porque queríamos contar uma história que chegasse às pessoas, uma história que gostássemos de ler. E eu sei que isto agora está a parecer a frase do José Rodrigues dos Santos… Mas é ao contrário: há tantas coisas que gostámos de ler e de ver, e isso teve um impacto tão grande na nossa vida, que acreditámos que tínhamos de fazer alguma coisa com isso. Foi assim que nasceu o Dog Mendonça. E acredito que a sua história funciona porque, apesar da paródia e dos clichés, é uma história universal.

As Fantásticas Aventuras de Dog Mendonça & Pizzaboy tiveram edição em inglês, nos Estados Unidos da América. Há planos de internacionalização para Os Vampiros?

FM: Toda esta coisa do Dog Mendonça e dos Vampiros é ultra-familiar. Ou seja, para que o livro seja editado noutras línguas eu terei de traduzir o livro para inglês e, fisicamente, não tenho tempo. Ou temos alguém que nos venda o livro no estrangeiro, ou é difícil. Se quisermos o livro lá fora, sei que vou ter de agarrar no carro e ir até Angoulême com ele debaixo do braço e isso nem sempre é possível, porque temos uma vida profissional nas outras áreas.

JC: Agora, é impensável, mas gostávamos, claro.

Vão continuar a fazer banda desenhada juntos?

FM: Acho que sim. E tu, Juan?

JC: Sim, pela forma de ser de ambos, há algo que temos como certo e é a combinação de humildade com ambição. Ambos queremos continuar a crescer como até agora, em que cada livro foi maior, mais complexo, melhor. Não quero perder isso. Nem isso, nem o constante desafio. Talvez o próximo seja fazer uma história muito mais simples, mais pequena. Creio que, até que o destino nos trave, vamos continuar a trabalhar juntos.

FM: Gostava de voltar a trabalhar com o Cavia e nestas nossas andanças, quando ele vem cá, temos conversado sobre uma história, muito mais pequena. E andamos com a ideia de fazer uma narrativa sobre a inveja. Quando acabar este turbilhão de promover Os Vampiros quero começar a trabalhar nisso.

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