Crítica

Em busca do ouro branco

RotaPorcelana

Sara Figueiredo Costa

Oleiro de profissão, com exposições espalhadas por vários museus do mundo, Edmund De Waal revelou-se escritor há seis anos, com a publicação de A Lebre de Olhos de Âmbar (Sextante). Já nesse livro, cuja narrativa se organizava em torno de um conjunto de figuras japonesas feitas de madeira e marfim (os netsuke), era visível um trabalho de linguagem intenso, revelando a escrita como modo de pensamento e a memória como matéria essencial para o processo. Em A Rota da Porcelana, tudo isso se confirma, agora num livro que é diário de viagem, caderno de campo e registo de um processo de conhecimento e descoberta que passa tanto pela história da porcelana como pela identidade e o trabalho artístico do seu autor.

Em Jingdezhen, onde o livro começa, encontramos um De Waal perdido entre caracteres chineses e uma miríade de pessoas que lhe dão indicações contraditórias sobre a cidade conhecida pelo fabrico de peças de porcelana. Algumas dessas pessoas morreram há muitos séculos, como o jesuíta Père d’Entrecolles, que ali viveu no século XVIII e testemunhou modos de recolha da terra e dos minerais necessários para criar porcelana, processos de fabrico, questões sociais associadas às pequenas oficinas. De Waal não distingue quem fala em função do tempo em que vive ou viveu, mostrando, ao longo das páginas, que a fala dos outros é um contínuo ecoar de sons, partilhas e dúvidas, atravessando eras e reflectindo-se naquilo que somos quando procuramos escutar.

Há nesta história um permanente murmúrio do mundo, em Jingdezhen, Versalhes, Dresden, Plymouth, os lugares onde a porcelana ganhou corpo, por vezes depois de muitas experiências falhadas para encontrar a correcta proporção das matérias. De Waal conhece a substância e as técnicas associadas ao material sobre o qual escreve, não fosse ele próprio um oleiro que trabalha frequentemente a porcelana, mas não é no que já conhece que cresce a estrutura deste livro, e sim na procura desmedida pelo muito que ainda falta conhecer. A sua busca pela história da porcelana é uma obsessão; não uma loucura desregrada e incapaz de ver mais além, mas um interesse dedicado, profundo, obstinado com a matéria que usa habitualmente. Informado sobre a documentação e os lugares fundamentais da sua história, De Waal não cumpre a metodologia académica ou a arrumação cronológica, preferindo sobrepor tempos enquanto percorre cada um dos lugares do seu itinerário, fazendo da história da porcelana uma parte da sua própria história. Errando entre fórmulas, terra e caulino, o autor cruza a história da porcelana com a de parte da humanidade, não no tom épico de quem procura grandes feitos, mas antes com a sobriedade – por vezes melancólica – de quem sabe ver nessa história um quotidiano de séculos, feito de sonhos alucinados, desilusões, anedotas diplomáticas e uma imensidão de cacos espalhados por diferentes chãos e lutando contra a inevitável condenação ao esquecimento.

Edmund De Waal
A Rota da Porcelana
Sextante

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