Crítica

Histórias inverosímeis que aconteceram em Macau

jguedes3João Guedes

O quase inventor do surrealismo Boris Vian, disse, a propósito da sua Espuma dos dias que era “uma história completamente verídica já que a tinha inventado do princípio ao fim”. O exacto oposto se poderia dizer de Eu também estive em Macau durante a guerra, memórias de Maria Clementina de Andrade Silva, recentemente dada à estampa pela editora Praia Grande. Não se tratando de uma obra surrealista, o surrealismo por ela perpassa como a “espuma dos dias”, num fluir de película cinematográfica sobre a realidade virtual que Macau sempre foi, mas que se vincou particularmente no período em que a antiga colónia portuguesa esteve imersa no drama ingente da Guerra do Pacífico (1939-1945). Ler esta obra é mergulhar num dos períodos mais inacreditáveis da história de Macau. Um momento sobre o qual nenhum académico encartado se atreve a debruçar-se, ou porque sobre ele não existem documentos fiáveis, ou porque sobre ele não existem fontes, ou porque sobre ele é melhor não falar para não ferir susceptibilidades, eventualmente herdadas, já que os protagonistas desta história há muito desapareceram e o que ficou foram figuras de brumosa e duvidosa memória.

Macau sempre vogou na realidade virtual de nunca ser aquilo que parece, ou o contrário (tanto faz…). Daí a impossibilidade de se fazer uma história geral do Território e, com muito mais razão, de se não fazer uma história de um período em que, durante cerca de seis anos, a colónia portuguesa permaneceu formalmente neutral no conflito, embora o governo fosse estritamente supervisado por um coronel japonês que tinha o comando militar instalado numa magnífica vivenda de um dos bairros mais elegantes da cidade. Não muito longe do comando japonês, na íngreme calçada que dava acesso ao Farol da Guia, erguiam-se as residências dos dois cônsules inimigos, o inglês John Reeves e o japonês Fukuda. As casas eram contíguas e entre elas havia um corredor secreto que permitia aos dois legados das potências beligerantes conversarem em segredo trocarem opiniões, ou combinarem sabe-se lá o quê.

Um dia, Fukada, ao sair de casa, já quase no final da guerra, caía varado pela balas de um comando assassino. À partida poderia supor-se que por trás do atentado estariam os ingleses, ou americanos, mas não! Tinham sido os sicários da “Kempentai”, a temida polícia política japonesa, às ordens do coronel Sarva, que tinha eliminado o cônsul para evitar que aquele denunciasse as suas traficâncias à frente da companhia que monopolizava o comércio do arroz e, na prática, de todos os bens essenciais na região. Um dos assassinos do cônsul seria preso quando tentava refugiar-se na vivenda do coronel Sarva. A sua captura deveu-se ao facto de, numa árvore fronteira, dissimulado entre os ramos da larga copa, se encontrar instalado um polícia munido de telefone que ali tinha sido camuflado para vigiar os japoneses. E surtiu efeito! Esta história parece retirada da mais pura ficção das aventuras de Tintin, mas aconteceu mesmo. A operação “telefone camuflado” tinha sido implementada pelo capitão Gorgulho, agente secreto um tanto improvisado que, no final da guerra, foi louvado por Lisboa, por isso e vários outros rasgos de expediente ao serviço de Macau. Isto porque a colónia portuguesa da China era então o paraíso dos espiões e havia-os de todos os géneros, desde os profissionais, civis e militares, aos mais puros amadores. Maria Clementina contava-se entre os agentes que pertenciam a esta última condição. Ninguém acreditaria que Macau pudesse ter sido assim, nem os netos, no seus íntimos infantis, acreditavam lá muito na veracidade das histórias da avó a deambular pelos estreitíssimos e exóticos becos do bazar chinês, dissimulando mensagens secretas nas imaculadas luvas brancas para as entregar à fabulosa figura de “Fu Manchu”, que era o dono de uma casa de antiguidades e quinquilharias, onde as esposas dos funcionários do governo se perdiam às compras nos fins-de-semana.

A história, por muito que custe ao cepticismo dos netos, que há muito deixaram de ser crianças, era muito menos fabulosa do que a realidade do mundo da espionagem que se movia nas sombras de Macau, em conluios, boatos e troca de informações, entre tríades, refugiados vindos de parte incerta e arrivistas de ocasião que apenas espreitavam uma oportunidade para fazer dinheiro ou, afinal, apenas sobreviver por entre as agruras de uma cidade onde o quotidiano era o cheiro da morte que exalava dos corpos anónimos que sucumbiam diariamente às torturas da fome lancinante nas ruas.

Quem era espião nesses tempos? Ninguém sabia. Para quem trabalhavam era outro segredo tão bem escondido como o do jovem refugiado Gardner que apregoava alto e bom som, pelos passeios da San Ma Ló (Avenida Almeida Ribeiro), a sua admiração pelo Império do Sol Nascente. Gardner, para alardear o fervor de que estava possuído, chegou mesmo a passear-se pela avenida trajando o uniforme das forças imperiais, para escândalo dos seus compatriotas, refugiados como ele, que o mínimo que lhe desejavam é que alguém o matasse numa das vulgares rixas que caracterizavam a vida nocturna dos cabarés do Hotel Central, que frequentava juntamente com os militares japoneses de licença em Macau.

Mas afinal Gardner estava longe de ser o que dizia. Na verdade, terminada a guerra, surgiria fardado de oficial americano (que na verdade era) a bater à porta do Palácio da Praia Grande, na sua qualidade de adido militar encarregado da ligação das forças aliadas do Pacífico com o governo de Macau. Gardner era um agente da OSS (Office of Strategic Services) que durante toda a guerra se fez passar por refugiado, mas que na verdade era um dos operacionais que recolhia informações sobre as movimentações da marinha e do exército japoneses na região, enviando-as para o alto comando aliado através de uma intrincada rede de espiões, contrabandistas, piratas, militantes comunistas, agentes nacionalistas e outros, que constituíam a rede do BAAG (British Army Aid Group).

Essa rede era chefiada por outro célebre oficial dos serviços de inteligência, o coronel médico Lindsay Ride, que dissimulava as suas actividades dedicando-se à investigação histórica em Macau. Foi ele que pacientemente coligiu as biografias das pessoas sepultadas no Cemitério Protestante que se ergue discreto à sombra dos penedos do Jardim de Camões. Nunca ninguém suspeitou que Lindsay Ride era algo mais do que o bizarro biógrafo dos mortos anglicanos.

Aliás, essa organização era integrada pela maior diversidade de espiões improvisados que é possível imaginar.

Para além de alguns estudantes idealistas das escolas de Macau, entre os quais se contava Li Cheng Jun, comunista convicto que mais tarde dirigiria durante várias décadas o influente jornal Ou Mun Iat Po, contava também com o seu oposto, o anticomunista Y. C. Liang, que chefiava uma seita, a qual se dedicava ao contrabando de arroz entre a Indochina e Macau. Um dos seus lugares tenentes era Siu Keng Siu o “Imortal”, intrépido pirata que ganhou o cognome pela habilidade com que, ao leme dos seus juncos, iludia a vigilância dos navios-patrulha da marinha japonesa que mantinham um feroz bloqueio dos mares do Sul da China e, particularmente, da foz do Rio das Pérolas.

Neste conjunto heterogéneo oriundo das mais diversas proveniências e movido pelas mais díspares motivações contavam-se também os homens e as mulheres do cônsul John P. Reeves. Estes agentes, quase todos igualmente improvisados, tinham sido recrutados de entre os refugiados de Hong Kong. A maior parte deles eram funcionários da administração britânica daquela colónia, todos de nacionalidade portuguesa.

A sua acção consistiu essencialmente em recolher e enviar informações sobre o movimento dos japoneses e a localização dos pilotos aliados abatidos. Curiosamente, o coordenador desta organização era, nem mais, nem menos do que o major do Inteligence Services, Charles Boxer, que mais tarde se tornaria professor da cadeira de Camões da Universidade de Londres e celebrado historiador da expansão portuguesa para Oriente. Boxer, que tinha sido capturado pelos japoneses, encontrava-se internado no campo de concentração de Stanley, em Hong Kong. Como é que conseguia coordenar toda essa rede é realidade que permanece ainda envolta num manto diáfano de fantasia e que nem os seus mais minuciosos biógrafos abordam.

A acrescentar a tudo isto registe-se a actividade dos espiões da rede privada do todo poderoso chefe dos Serviços Económicos de Macau, Pedro Lobo, figura que inspiraria Ian Fleming na criação do seu Gold Finger, o mau da fita num dos filmes do agente secreto 007.

Entre os agentes que Pedro Lobo utilizava contava-se o próprio filho Roger Lobo, que, por ostentar o apelido de família, passava sem ser incomodado pelos controlos nipónicos, podendo assim levar e trazer correio secreto entre Macau e Hong Kong. Tal como no caso de Maria Clementina, o estatuto social era o que melhor contava nessa altura para despistar os japoneses.

Neste emaranhado de serviços de inteligência de todos os matizes, rondavam na sombra os verdadeiros profissionais da espionagem, que nunca seriam descobertos. Deles apenas se sabe o que há poucos anos foi desclassificado dos arquivos britânicos. Do acervo dado à luz consta um relatório do dinamarquês F. A. Olsen, que ali se revela como o verdadeiro chefe da rede de espionagem inglesa nesta região da China. Olsen, detentor da cidadania dinamarquesa, país que se manteve neutral, podia deste modo mover-se nos territórios ocupados sem levantar suspeitas.

Nesse relatório Olsen não abona muito sobre o profissionalismo das redes de espiões que pululavam por Macau.

Dito isto, pode compreender-se melhor porque é que as memórias de Maria Clementina de Andrade e Silva estão bem longe de ser um conjunto de histórias para entreter. De facto, o seu livro é uma obra historiográfica sobre um período de Macau a propósito do qual, durante demasiados anos, ninguém teve a coragem de escrever, daí se perdendo inexoravelmente os testemunhos que o poderiam ajudar a documentar.

Vale a pena ler este livro tanto mais que ao rigor possível de antigas memórias a autora acrescenta as necessárias pitadas de fantasia que tornam sempre mais apelativas as rememorações escolásticas da ciência histórica. E não podemos esquecer que esta era inicialmente uma estória para contar aos netos.

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