Crítica

Um cabrão dum escritor

reu

Hélder Beja

Escusam de ficar já todos irritados com o título, porque não sou eu que o digo mas o António Lobo Antunes no prefácio desta obra. Rui Cardoso Martins “é tão cabrão como a gente”, terá dito o Lobo a José Cardoso Pires, esse que escreveu pelo menos um grande livro que é O Delfim. O Lobo referia-se à vida e, como a gente sabe, a vida destes gajos é escrever e escrever. Logo, Rui Cardoso Martins é um cabrão dum escritor.

Levante o Réu Outra Vez, o livro, não só vem dar razão aos dois amigos Lobo e Pires como é irritantemente bem escrito. Que um cronista consiga ir a tribunal de vez em quando e esgalhar uma boa história não é grande feito – os tribunais estão cheios de gente cheia de histórias. Agora, que um homem ande nessa vida durante mais de 17 anos e 200 semanas, como se não tivesse mais nada que fazer, e que de cada vez que se põe a trabalhar para o jornal Público saque um texto que nunca é igual nem pior que o anterior, isso já é de mais.

É então natural que o leitor mais experimentado e o escritor mais remediado sintam, por diferentes razões, vontade de processar Cardoso Martins.

O primeiro, no qual me revejo, por achar que não há direito que o façam rir com a pequena desgraça alheia, com a história do septuagenário surdo que se incomoda com os barulhos do vizinho ao ponto de o varrer a pau; com as aventuras do puto que rouba um carro e a culpa é do Público; com o infortúnio do polaco que ama Portugal mais que os portugueses (e isto não é uma piada com o Euro 2016); e que ao mesmo tempo o façam sofrer tanto com a grande desgraça alheia, dos polícias abalroados num túnel até à menina de quatro anos morta num cruzamento de estrada.

O segundo, no qual me revejo, quererá processar Cardoso Martins por não perceber como pode um tipo ter 100 vezes consecutivas a capacidade de ser original sem ser barroco, engraçado sem ser deselegante, emotivo sem ser lamechas. Ele é doses de heroína que não são refeições equilibradas, crianças que vêem sexo oral em vez do Vitinho, um ladrão de livros com gosto requintado, um talhante chamado Calminhas, Descartes aplicado às calças Levi’s ou o maior furto de cuecas de que há memória.

São tantas e tão boas as histórias que, mesmo num país em que o sistema judicial funciona pior que os alarmes das caixas registadoras do Lidl de Xabregas, qualquer juiz condenaria Rui Cardoso Martins a uma pena efectiva de escrita de livros ad eternum, sem hipótese de liberdade condicional que lhe permitisse mudar de ramo.

Sim, Levante-se o Réu Outra Vez é bom porque capta esses momentos em que “o livre curso da Justiça esbarra na difícil categoria dos ‘casos humanos’”, mas poucos “casos humanos” como aquele que Rui Cardoso Martins personifica conseguiriam levantar este edifício literário nas páginas de um jornal. Um gajo vai folheando e lendo, cada vez mais irritado com o bom que aquilo é, até que finalmente encontra a expiação e se liberta nas palavras do próprio narrador: “Às vezes, fodase esta merda, um homem tem de gritar.” E tem mesmo! Não há direito, senhor doutor juiz.

 

Rui Cardoso Martins
Levante-se o Réu Outra Vez
Tinta da China

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