Crítica

Empurrar os fantasmas para fora do prato

Sara Figueiredo Costa

vegetariana

Uma mulher deixa de comer carne e tudo mudará à sua volta. Podia ser o arranque de um livro de auto-ajuda, ou de um daqueles opúsculos sobre como a alimentação pode fazer de nós pessoas felizes, realizadas, prontas para assumir o primeiro plano num qualquer anúncio de bem-estar generalizado. Não é. A mulher que deixa de comer carne chama-se Yeong-hye e a sua decisão resulta de um sonho perturbador. Nenhuma apologia do bem-estar animal ou da alimentação saudável, apenas a constatação de um mal-estar generalizado e já impossível de localizar. A família, coreana e ciosa das suas tradições, não reage bem e as represálias sucedem-se. O marido de Yeong-hye, que nunca viu nela mais do que uma mulher satisfatória para cumprir a sacrossanta estrada do casamento e da gestão da casa, não aguenta. O edifício começa a ruir e a narrativa é a história dessa ruína. Por entre os destroços, há traumas antigos, vontades adiadas e as consequências de todos os gestos de conformação. Há sobretudo desejo, e sempre reprimido, matéria que Han Kang transforma em radiografia dilacerante de uma solidão sem amparo.

As notícias que circularam aquando da atribuição do Man Booker Prize a este romance destacavam a capacidade de retratar a realidade coreana, as exigências de uma arquitectura social e familiar que será estranha a muitos leitores ocidentais, quase encurralando este livro numa visão localista. Ora, a ideia de que a narrativa decorre de um contexto cultural identificado com a Coreia do Sul, e que tudo aquilo que causa incómodo ao leitor deriva desse contexto, será um modo seguro de afastar fantasmas existenciais, mas diz mais sobre a preguiça da leitura do que sobre este livro. A universalidade do que aqui se narra não tem como reduzir-se a idiossincrasias locais, por mais que tudo aconteça, de facto, na Coreia. Podemos começar nas famílias infelizes de Tolstoi e prosseguir pela literatura do século XX e XXI afora e não esgotamos os diálogos possíveis. Sobretudo, o que aqui se lê é uma prosa bem trabalhada, que puxa os fios que do cérebro nos dizem o quão pouco sabemos sobre nós, que abana os alicerces possíveis como quem afirma sem rancor que para a violência de um grande terramoto, de pouco servem as bases.

A clareza da estrutura, dividida em três partes com o classicismo de uma tragédia menor, não nos prepara para o embate ou para a estranheza que A Vegetariana contém. Não há Dr. Freud, psicoterapia ou hosanas de vão de escada que salvem os personagens do reflexo dos seus próprios labirintos, os da vida quotidiana e os que a cabeça engendra. Uma das artes em que Han Kang é exímia é na de ir mostrando as costuras e os ligamentos que unem gestos, remorsos e cobardias. A outra é a de erguer uma narrativa fragmentada que vai confirmando que as três histórias são uma só e que é difícil isolar fantasmas quando o mundo inteiro parece assombrado.

Han Kang
A Vegetariana
D Quixote

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