Entrevista

Quotidiano, botecos e reflexões profundas num país meio triste, meio sem rumo

Sara Figueiredo Costa 

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Num Brasil onde os cronistas têm tradição forte, Antonio Prata distingue-se pelo modo com mistura quotidiano e grandes questões filosóficas. Meio Intelectual Meio de Esquerda reúne noventa crónicas publicadas no Estado de S. Paulo e na Folha de S. Paulo e acaba de ser editado em Portugal pela Tinta da China. Sem esperança relativamente ao Brasil, o autor aterrou em Lisboa deslumbrado com o bom ambiente e apostado em confirmar semelhanças e diferenças entre as tascas lisboetas e os botecos paulistas.

A crónica é um género literário e jornalístico que parece fácil, até pela sua dimensão, mas que acaba por ser muito complexo. O que é que o atrai nesta forma?
A resposta sincera da atracção inicial é bem pouco romântica. Acho que muitos escritores vão parar na crónica por uma necessidade de sobrevivência, porque é uma das maneiras que o escritor tem de ganhar dinheiro com a escrita. Tristemente, uma das razões do Brasil ter tantos cronistas é porque a literatura é muito mal sucedida. Eu sabia que queria ser escritor e fui vendo as portas que havia para ganhar algum dinheiro. E assim aconteceu também com o roteiro. Acabou por ser uma coisa boa, porque se eu fosse rico, não teria aprendido muitas coisas que aprendi… Fui aprender a fazer roteiro, fiz cursos, fiz crónicas. Afinal, a crónica é o que eu mais fiz até hoje e onde me sinto mais à vontade. E ela tem algumas dificuldades, sim: a da rapidez, porque tem de ser feita semanalmente, ou até diariamente, e a de ter de agradar, porque um romancista não tem necessariamente de agradar a um número grande de pessoas, um poeta pode não agradar a ninguém, e é maravilhoso que ele tenha essa liberdade, mas um cronista é um escritor assalariado do jornal, está ali para entreter o leitor, para quebrar um pouco a coisa séria. Um cronista que não agrade aos leitores deixa de ser cronista porque é demitido, perde o seu emprego.

Escrever crónicas num país com antecedentes como Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Nelson Rodrigues e tantos outros é complicado? A herança pesa?
Acho que não, porque o cronista não tem esse peso. Se você ler o Rubem Braga, que para mim é o maior de todos, não é algo que te oprima, mas antes uma coisa que dá vontade de você escrever mais, de tentar atingir aquela leveza, aquela simplicidade que é profundidade. Pelo contrário, muitas vezes eu quero escrever uma coisa mais melancólica e vou ler o Rubem Braga, ou quando vou para a Copa do Mundo ou para as Olimpíadas escrever crónicas desportivas, leio muito Nelson Rodrigues, para pegar um pouco daquele sotaque, daquela forma… Quando você escreve, está sempre dialogando com a sua tradição, ou com os autores que você escolheu para serem da sua turma, digamos assim, de referências. Claro que eles, se já morreram, não podem escolher se querem ser da sua turma, mas enfim… É um prazer poder me alimentar dessa fonte.

E quem é a sua turma?
Meu esposo é o Rubem Braga, principalmente, mas ele foi um amor tardio. Quando comecei a escrever crónica, nunca o tinha lido, só li com vinte e tantos anos, já. Primeiro, li Luís Fernando Veríssimo, Millôr Fernandes, que eram os que me interessavam mais, até pelo humor, e depois li Nelson Rodrigues e Rubem Braga. E na crónica, são esses os que eu mais admiro, mas essa turma não é feita só de cronistas. Quando falamos de influências, tenho de falar dos Monthy Python, passei a adolescência inteira assistindo Monthy Python, Woody Allen as séries americanas como o Seinfeld, o Friends, hoje o Loius CK. A televisão e o cinema americanos são grandes influências. E também o Jacques Tati.

Antes das crónicas do Estado de São Paulo e da Folha de São Paulo, escreveu numa revista chamada Caprichos, pensada para leitoras adolescentes. Como foi essa experiência?
Foi um desafio enorme. Tinha saído da adolescência há pouco tempo, tinha uns 23 anos. Quando a editora me chamou para escrever na revista, pensei um pouco a respeito e falei “eu não posso escrever crónicas para meninas dos 13 aos 17 anos, porque eu não entendo nada de meninas dessa idade; passei dos 13 aos 17 tentando agradar a essas meninas e não consegui”. E a editora disse-me para escrever sobre isso, o que foi uma coisa acertada. Ainda me lembrava muito dessa fase e de como os adultos tentavam falar como os adolescentes, sempre usando as gírias erradas, fingido ser jovens, e fiz uma declaração para mim de que não tentaria falar como elas. Acabei escrevendo sobre a minha adolescência e deu certo, porque elas viram ali uma sinceridade e alguma semelhança. Fique quase oito anos e foi aí que aprendi a escrever crónica.

Como é que um cronista se relaciona com a efemeridade da crónica, com o saber que o que sai nos jornais morre no dia seguinte?
Bom, infelizmente, algumas ficam na internet… Às vezes, você nem queria, porque saiu mal. Quando seleccionamos crónicas para um livro, há uma escolha. Neste livro há quinze anos de trabalho reduzidos a quase trezentas páginas, o que deve ser uns vinte por cento do que eu escrevi. Então, na hora de seleccionar, oitenta por cento vai para o lixo, o que é parecido com o que acontece quando escrevo outro género. Só que aí vai para o lixo sem passar pelo jornal, o que é mais cómodo. Um cronista jamais pode pensar na sobrevivência daquele texto, tem de escrever para o momento, ter esse compromisso com aquele dia. Se você for escrever uma crónica para durar, é mais ou menos o mesmo que querer fazer um pastel de nata como refeição. O pastel de nata é um quitute, um petisco, e é bom. Acho que as crónicas que conseguem durar são justamente aquelas que foram feitas com maior despretensão e que ficam mais leves, falando de um detalhe do mundo que acaba se iluminando para sempre. Veja uma crónica do Rubem Braga, que é quase como um sketch do Monthy Python. Você fala para alguém que é uma crónica linda e a pessoa pergunta sobre o que é. Aí você começa a contar e diz que é sobre um homem nadando. E a pessoa pergunta pelo que acontece e você diz que nada, que o homem continua nadando e que fala umas coisas sobre estar nadando… Se for o sketch do Monthy Python, você diz que é sobre uns cavaleiros. E o que acontece? Eles lutam e falam “ni”… Tem de ver, tem de ler, senão não funciona. Quanto à questão da sobrevivência dos textos, eu penso como Woody Allen, que dizia preferir atingir a imortalidade não através da sua obra, mas não morrendo. É isso.

De certo modo, os livros de crónicas não são um modo de tentar a imortalidade?
Sim, ainda que a gente também não saiba qual é o prazo de validade de um livro. Mas eu acredito na crónica e acho que ela é sempre ficção, mesmo quando narra um acontecimento, digamos, acontecido, o olhar é de ficcionista e o recorte é ficcional. Muitas vezes, o acontecimento é falso, é criado. Quando eu falo que estava na padaria, é mentira. Agora, claro que você acredita que o seu livro pode ficar. Hoje eu leio crónicas do Machado de Assis, ou do Mark Twain, e são crónicas que ainda me dizem coisas.

O quotidiano é matéria de eleição de quase todos os cronistas. O que há de fascinante nessa colecção de pormenores banais e pequenas misérias que parecem ter pouca importância para a humanidade?
O que me fascina é as pessoas sempre acharem que é sem importância para a humanidade, pensando que a humanidade vive precisamente no quotidiano. Você não acorda, invade a Polónia, se separa, casa com a Scarlett Johansson e vai dormir numa caverna, nas profundezas da terra. Você corta as unhas dos pés, vai tomar café e o café cai na sua perna, encontra alguém e não sabe muito bem o que falar e quando sai fica pensando que falou uma borrada. A vida de todo o mundo é 99% feita disso e é engraçado que a gente despreze tanto a matéria da qual a vida é feita. O quotidiano é o tecido, o material da vida. Você percebe que um casamento acabou, ou que uma pessoa está apaixonada por você, pela maneira como ela joga as chaves na mesa. Um dia o seu marido, ou a sua mulher, chega em casa e joga as chaves na mesa de uma maneira diferente, e aí você percebe. Tem uma regra no roteiro que diz que se uma cena é sobre o que uma cena é, então é uma péssima cena.

A crónica que dá título a este livro, Meio Intelectual Meio de Esquerda, é um exercício de auto-ironia e de análise sobre um grupo ao qual pertence. Quando um cronista escreve sobre si e sobre o seu grupo, isso não motiva zangas posteriores com os visados, mesmo que não haja nomes?
Sim, porque muita gente não quer ser incluída. E há gente meio de esquerda que acha que se você fizer qualquer piada, qualquer crítica, você está fortalecendo a direita. Essa crónica eu fiz porque era uma coisa muito próxima de mim, essa coisa do meio intelectual meio de esquerda, o bar ruim, era tão a minha vida que escrevi sem achar que tinha qualquer alcance. Mas foi a minha primeira crónica que teve sucesso na internet, ainda na época em que as pessoas partilhavam os textos por email. Várias pessoas ficaram bravas comigo, sim, e isso acontece algumas vezes, mas também houve muitas pessoas, e ainda há, que quando me conhecem dizem que são meio intelectuais meio de esquerda, e começam dizendo todos os sítios onde tem bar ruim, pedindo para eu não falar para ninguém, para não estragar.

O futebol é um dos temas destas crónicas. Pode-se fazer humor com qualquer tema ou o Corinthians é terreno sagrado e intocável?
A minha vida é que é realmente sagrada e eu não poria ela em risco fazendo piada com um clube de futebol, mesmo que fosse o meu. E depois, quando vou para um evento de futebol para fazer crónica, acabo por não ver tanto o humor. Claro, se houver alguma coisa que dê para tirar sarro, aproveito, mas eu acabo achando aquilo tudo muito legal e comovente. Fui ver a final do mundial de clubes no Japão, Corinthians contra Chelsea, e foi incrível ver um monte de corinthianos pobres, enrolados em toalhas e cobertores, porque não tinham nem casaco, suportando 3 graus negativos. Foi muito bonito.

A revista Granta brasileira considerou-o um dos vinte melhores escritores com menos de 40 anos. Sente isso como uma responsabilidade?
É legal, claro, me envaidece. Em termos práticos, é mais importante para consumo interno, no Brasil, do que fora, até porque este é o meu primeiro livro fora do Brasil e não se publica muito crónicas traduzidas. É uma coisa que me honra, mas não muda muita coisa.

Para além de crónicas e de guiões, também escreveu contos e teatro. E o romance, não o entusiasma? Ou, como diz numa das crónicas, era preciso não ter filhos pequenos para escrever uma Anna Karenina?
Tenho um livro anterior a esse que é de contos sobre a infância. É um livro pensado como uma sequência, não é uma colectânea. E agora estou a escrever um romance sobre a adolescência. Mas é verdade que escrevo nos tempos que sobram e que são poucos, com as crónicas, os roteiros e os filhos pequenos…

Como é que um cronista meio intelectual e meio de esquerda vê a situação presente do Brasil?
É muito triste, tudo aquilo. E muito complexo. O clima de histeria geral também não ajuda. O Brasil teve momentos piores do que este, mas sempre havia alguém para quem você torcia. Eu nasci numa ditadura militar, com as piores pessoas no poder, mas tinham as pessoas que estavam lá, lutando pela democracia, pelas directas. Tinha uma esperança de que, um dia, os heróis iam chegar ao poder. A visão que eu tenho, como meio intelectual meio de esquerda é que os heróis chegaram ao poder, mudaram de uma certa maneira várias coisas, mas não mudaram o essencial. O Lula foi o melhor presidente que o Brasil já teve, mas para isso, em vez de ele mudar a maneira de se fazer política, fez da mesma maneira de sempre, e se aliou aos piores canalhas que sempre estiveram no poder desde a ditadura. O Brasil tem essa capacidade leopardiana de mudar para permanecer igual. O Lula era um génio da estratégia, da comunicação, da liderança, era um pouco aquele cara que toca a flauta e as najas dançam. Então, conseguiu trazer todas as cobras para perto dele, e aí entregou a flauta para uma pessoa que não sabia nem assobiar. Quando ela começou a soprar, as cobras foram na jugular dela. As pessoas perguntam se o que aconteceu com a Dilma é um golpe ou não. Sim, é um golpe, mas não foi um golpe que foi dado por pessoas que estavam longe, e sim por pessoas que foram trazidas pelo PT. Não foi uma coisa tão surpreendente assim. Agora, esses caras que estavam na segunda linha estão no poder e quem é meio intelectual meio de esquerda fica sem saber o que gritar. Eu não quero que a Dilma volte, porque fez uma presidência desastrosa, mas também não quero que esses caras fiquem. O mais sensato que a gente pode falar é “eleições directas, já”, mas eu não tenho ideia de quem exista para a gente votar nas directas. Então, é uma coisa sem saída e dá uma tristeza…

O Brasil está meio quê, neste momento?
Não está nem meio, está muito, muito triste. A gente é que fica no meio e não sabe para onde ir.

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