Crítica

Todas as estações e apeadeiros

Hélder Beja

mtrain

Há um momento na longuíssima letra de “Horses”, essa enorme música que deu título ao disco de estreia da Senhora Smith, há mais de 40 anos, que vai assim: “There is no land but the land / (up there is just a sea of possibilities) / There is no sea but the sea / (up there is a wall of possibilities) / There is no keeper but the key / (up there there are several walls of possibilities) / Except for one who seizes possibilities, one who seizes possibilities”.

É claro que Horses tem muito pouco que ver com M Train, o livro sobre o qual aqui se escreve, a não ser ter saído da mesma cabeça. Mas cada um lê conforme quer e eu fui regressando às músicas da Senhora Smith enquanto lia M Train. Músicas que ela aliás praticamente ignora neste livro.

Não é assim tão fácil escrever sobre coisa nenhuma.” Como qualificar um livro que arranca com esta frase e que nos leva por uma viagem geográfica, literária e interior que não esqueceremos? Foi mais ou menos pela altura em que lia sobre o passeio da Senhora Smith à Guiana Francesa com o seu então marido Fred Sonic Smith, falecido em 1994, para visitar a prisão onde estivera e sobre a qual escrevera Jean Genet; ou quando lia sobre a viagem da Senhora Smith à Islândia para participar num encontro de uma sociedade secreta; ou quando lia sobre a sua fixação pela cadeira de Roberto Bolaño; ou quando lia sobre o seu amor por Murakami, tanto no Japão como no México; ou quando lia como fez gente chorar na Casa Azul de Frida Kalo; ou quando lia como decidiu comprar uma casa em Rockaway Beach para logo ver toda a zona ser destruída pelo furacão Sandy; ou quando lia sobre todos os cafés do mundo de que ela gosta e onde bebeu chávenas atrás de chávenas para regressar sempre a Manhattan e aos seus lugares essenciais; ou quando lia sobre o seu gato Cairo; ou quando lia sobre o seu amor por séries de detectives e acima de tudo por The Killing, que estou a ver agora e que é do caraças – foi quando lia sobre isto tudo e descobria mais sobre a Senhora Smith poeta e, ainda mais, sobre a senhora Smith fotógrafa, que nos dá neste livro várias imagens captadas por si, foi quando lia isto tudo que me lembrei de Horses e daquelas linhas sobre “possibilidades”.

Patti Smith, uma mulher marcada pela perda – do marido, do irmão, do amigo e companheiro Robert Mapplethorpe, que foi figura central do seu livro anterior, Just Kids – transformou-se ou terá sido sempre uma artista completa. Viveu muito, sonhou mais, explorou tantas possibilidades. M Train é um livro carregado de obsessões, de uma mulher que nunca nos diz que acredita mas que nos faz acreditar que acredita no sobrenatural, no poder quase feiticeiro das palavras, na importância das coisas aparentemente pequenas, como um casaco de que se gosta muito.

M Train é um livro quase confessional, sobre a passagem do tempo e a solidão. Nada de muito novo, a não ser esta rara mulher que o escreve. Dizer que a Senhora Smith tem um olhar singular sobre o mundo poderia ser o maior dos lugares-comuns, mas por favor leiam-na e percebam que não é. A verdade é que não há muitos seres humanos como Patti Smith. Ela guarda a chave para um lugar qualquer onde muitos de nós nunca fomos nem iremos.

Se a encontrarem por aí, não se esqueçam de lhe oferecer uma chávena de café.

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