Entrevista

A Grande Muralha da língua

Sara Figueiredo Costa

david-moser-2É a língua mais falada em todo o mundo e a língua oficial da China. Em A Billion Voices, David Moser percorre a história do mandarim desde a sua criação, já no século XX, apontando as virtudes e fragilidades de um processo que nasceu democrático e se tornou impositivo.

Linguista, sinólogo, professor na Universidade de Pequim e pianista de jazz nas horas vagas, David Moser publicou recentemente A Billion Voices – China’s Search for a Common Language (Penguin), um livro que acompanha a história do mandarim desde os primórdios da República chinesa até um presente marcado pela convivência nem sempre pacífica entre a língua oficial da China e as muitas línguas que continuam a ser faladas nos diferentes territórios que compõem o país. São 1.3 bilhões de habitantes, perto de 10.000.000 quilómetros quadrados e um idioma a tentar servir de argamassa identitária e comunicacional, mesmo quando falha os seus intentos. Cerca de 30% da população chinesa não fala o mandarim, facto reconhecido pelo Governo há dois anos e motivador de uma intensificação nas políticas linguísticas que pretendem tornar esta língua comum a todos os chineses, sem excepção.

Ao longo das pouco mais de cem páginas de A Billion Voices, David Moser mostra como o mandarim é uma língua artificialmente construída, no sentido em que a sua existência não correspondeu a um processo natural de evolução, tendo sido um sistema discutido no início da República, recriado a partir dos dialectos de Pequim e do Norte da China e, finalmente, já com Mao Tsé-Tung no poder, apresentado como a forma de falar e escrever que todos os cidadãos chineses deveriam seguir, com o objectivo de unificar um país muito grande em área e diverso em realidades socio-culturais. Nos capítulos finais, percebemos que, mais de meio século depois de iniciada essa unificação linguística imposta pelo poder, o mandarim é agora uma língua viva como qualquer outra. Ao Parágrafo, David Moser falou sobre as duas faces desta criação com mais de meio século: “Na verdade, até agora a política para o mandarim é simultaneamente um sucesso e um falhanço. É verdade que, devido ao regime de partido único e ao controle sobre os media e a educação, foi possível tornar essa agenda bem sucedida, melhor do que a maioria dos países teria conseguido. Mas na realidade, o Ministro da Educação estima que cerca de 400 milhões de pessoas ainda não falem adequadamente o mandarim, portanto ainda há um longo caminho para percorrer nesse sentido. Então, sim, devido ao governo forte e ao controle a partir do topo, foi possível alcançar uma linguagem nacional funcional, mas ainda há muitas falhas e objectivos por cumprir, e os dialectos têm-se mostrado mais teimosos do que as autoridades quiseram crer.” Quando falamos de dialectos estamos, na verdade, a utilizar uma terminologia pouco precisa. A diferença entre uma língua e um dialecto costuma ser apresentada pelos linguistas em tom humorístico, dizendo que uma língua é um dialecto com Governo e Forças Armadas, o que permite simplificar uma questão que é complexa ao mesmo tempo que clarifica, para quem não domine esta área científica, o facto de as diferenças entre ambos os termos serem mais sócio-culturais do que cientificamente exactas. David Moser explica isso mesmo ao longo de várias páginas, usando o termo ‘dialecto’ para as outras línguas da China sem com isso lhes retirar qualquer valor, identitário ou de outra ordem.

É fácil encarar a imposição do mandarim, na década de 50 do século passado, apenas como um gesto de uniformização. Em A Billion Voices percebe-se que o contexto é mais complexo e que essa imposição nasceu, também, de uma vontade de democratizar a comunicação entre as pessoas e o seu acesso aos textos escritos num país onde existiam (ainda existem) muitas línguas diferentes. Moser descarta a visão maniqueísta, reconhecendo a contradição nos termos. “Depois da queda da Dinastia Qing, havia uma necessidade muito urgente de encontrar uma linguagem que unificasse tudo. A China estava fracturada linguisticamente, com centenas de diferentes dialectos Han e outras línguas, como o tibetano e o mongol. Assim, no sentido de desenvolver um sistema educativo moderno e construir um Estado moderno, era preciso unificar a linguagem. A grande questão era a seguinte: ‘Permitimos a continuidade dos dialectos juntamente com o putonghua ou o nosso objectivo é acabar com todas as outras formas de discurso em favor de uma língua nacional?’ Esta é uma dicotomia que o governo ainda hoje não resolveu. Querem respeitar as línguas e os costumes locais, mas se não pressionarem os falantes dos dialectos para se tornarem fluentes em mandarim, os dialectos persistirão e haverá sempre regiões onde o nível de mandarim será inevitavelmente baixo. É um paradoxo com o qual o Governo ainda não sabe como lidar.” O paradoxo não é de hoje. O Movimento do 4 de Maio de 1919 queria democracia, nomeadamente no acesso à cultura, por isso defendia uma língua unitária (falada e escrita) que desse a todas as pessoas as mesmas oportunidades. Por outro lado, quando as línguas e os dialectos desaparecem, perde-se uma valiosa herança cultural e identitária e, de um certo modo, alguma democracia. Uma das questões que ocupa David Moser é perceber se seria possível ter ambas as coisas na China, democracia no acesso à cultura e diversidade cultural, ou se a única forma de construir uma nação forte no que diz respeito à política linguística era aquela que a China seguiu. “Essa é a questão. Sim, é possível ter ambas as coisas. Na América e em muitos países da Europa, temos diferentes grupos étnicos que vivem juntos, partilhando uma língua franca e, ainda assim, mantendo a sua identidade cultural e continuando a utilizar as línguas nativas entre os membros de cada comunidade. Há um processo natural de assimilação, onde as segundas e terceiras gerações de falantes começam a tornar-se fluentes na nova língua e cultura e acabam por perder a língua dos seus pais. Mas na maioria dos países livres e democráticos, há uma grande tolerância perante a diversidade linguística e cultural. Na China, infelizmente, as lideranças têm a suspeita frequente de que ‘diversidade’ é sinónimo de ‘instabilidade e por isso há um desejo nacionalista de forçar toda a gente a falar e a comportar-se de uma certa forma. Há uma tensão constante entre unidade nacional e pluralismo regional na China e esses problemas podem levar algumas gerações a resolver-se.”

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Diversidade linguística

Se cerca de 30% da população da China não fala o mandarim, é fácil perceber que as outras línguas ou dialectos continuam bem vivas em certas regiões do país, mesmo que enfrentando dificuldades diárias. No Tibete, em Xangai ou em Guandong, as formas de falar locais persistem apesar de todas as políticas linguísticas, mas o futuro é incerto quanto à sua sobrevivência. David Moser justifica a continuidade dessas línguas com elementos sócio-culturais: “Para alguns dialectos mais prestigiados, chamemos-lhes assim, como o Cantonês ou o dialecto de Xangai, é possível a continuidade, porque há muita cultura e história envolvidas, o que faz com que os falantes locais sintam uma maior relação entre a sua identidade e o modo de falar. Por exemplo, em Guagdong temos a ópera cantonense, uma tradição forte de literatura impressa em cantonês, uma ligação com a cultura de Hong Kong, etc. Para esses falantes, perder a sua língua seria também uma perda trágica de cultura e tradição. Mas há inúmeros dialectos que são muito próximos do mandarim, ou são falados apenas por um número reduzido de cidadãos, e esses estão, de facto, em perigo de desaparecer, talvez no espaço de uma geração.” Podemos temer esse desaparecimento em Hong Kong e Macau, relativamente ao cantonês? “Essa é uma questão crucial. O uso do mandarim está a crescer muito depressa nesses lugares e algumas pessoas acham que isso é bom, enquanto outras vêem o facto como mais um exemplo de ingerência do governo da República Popular da China na política e na educação de Hong Kong. Nas universidades de Hong Kong, por exemplo, muitas aulas e seminários são dados em cantonês, mas com cada vez mais professores e académicos a chegarem da China continental, a língua por defeito acaba por ser o mandarim, ou o inglês, em alguns casos. Há quem tema que o cantonês possa acabar por desaparecer. Isto pode vir a acontecer, sobretudo porque, ainda que o cantonês seja falado por toda a parte, os livros, as publicações e as revistas são muitas vezes impressas em mandarim. Num futuro próximo, é possível que a situação linguística em Hong Kong seja de trilinguismo: cantonês, mandarim e inglês coexistindo no mesmo espaço.” Em Macau, o português vem baralhar as coisas, desconhecendo-se se a sua força será suficiente para uma situação de trilinguismo, mas como em todas as áreas científicas, a futurologia não é uma hipótese de trabalho.

A internet e o futuro

No início de A Billion Voices, David Moser recupera uma história acontecida em 2014, quando o actor Jackie Chan protagonizou um anúncio de shampô e utilizou uma palavra acabada de inventar para exprimir as boas qualidades do produto que promovia. Em poucos dias, as redes sociais chinesas estavam cheias de discussões linguísticas sobre o termo e não tardou muito para que se procurasse um caracter para representar essa nova palavra, primeiro em versão simplificada, depois em versão tradicional. Os neologismos são o dia a dia da língua nas redes sociais e a China, com milhões de utilizadores, talvez seja um dos países mais férteis nessa senda de inventar novas palavras. Resta saber quantas delas passarão, de facto, a integrar o léxico da língua. O autor mantém alguma reserva, sabendo que a moda é coisa efémera, sobretudo no mundo virtual. “Como acontece com todas as línguas na internet, o calão e os neologismos em chinês aparecem constantemente. E, como com as outras línguas, a maioria das coisas novas desaparece muito rapidamente. Para a língua chinesa, a diferença está no sistema de escrita. Por exemplo, há uns anos apareceu na internet em inglês a palavra ‘noob’, redução de ‘newbie’, significando ‘recé,-chegado’. A palavra foi rapidamente adoptada porque o inglês, como o português e a maioria das línguas, é fonético. Mas em chinês, quando uma nova sílaba aparece, como aconteceu com a palavra ‘duang’ inventada por Jackie Chan, não há uma forma imediatamente óbvia de representar esse som na linguagem escrita. Assim, os internautas tiveram de criar um carácter para representar o som. Esta é a grande diferença dos neologismos da internet em chinês, é mais difícil criar palavras sem sentido.” É precisamente na escrita que Moser encontra uma das faceta mais ricas da língua no que à China diz respeito: “Há muitos aspectos interessantes na linguística chinesa, mas a área mais peculiar é a do sistema de escrita e o modo como este representa sentido e som. Resisto muito à ideia de ver a língua chinesa como uma coisa exótica… Não é uma língua indo-europeia, claro, o que faz com que muitos estudantes a achem estranha e difícil, mas do ponto de vista linguístico é perfeitamente perceptível, digamos, em termos leigos, ‘normal’. Agora, os caracteres chineses e alguns aspectos sociolinguísticos como a mistura dialectal são muito complexos e exigem mais pesquisa.” De um certo modo, e por mais pesquisa que se desenvolva no presente, só as gerações futuras terão algo a dizer sobre para onde caminhou essa mistura dialectal. E só elas saberão se o ‘duang’ de Jackie Chan terá direito a entrada no dicionário da língua chinesa.

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