Editorial

Parágrafo #11

Sara Figueiredo Costa

fullsizerender-6O português e o chinês são as duas línguas oficiais de Macau, assim está escrito, mas nem o português está disponível na maioria dos serviços públicos, nem o chinês está definido de modo claro. De que chinês falamos? Do mandarim que é língua oficial da República Popular da China ou do cantonês que a maioria da população de Macau fala? Para complicar, basta olhar para a escrita, procurando decifrar se o que se escreve usa os caracteres tradicionais ou a sua versão simplificada. Afinal, de que falamos quando falamos de chinês? Macau é um bom lugar para se ler A Billion Voices – China’s Search for a Common Language, de David Moser, um percurso analítico e muito bem apresentado sobre a criação do mandarim enquanto língua comum (putonghua) e sobre o muito o que foi ficando para trás nesse processo, entre línguas, identidades e direito à expressão no idioma com que se cresceu. Por isso quisemos, nesta edição, ouvir o autor sobre o seu trabalho e dedicar o tema de capa a um livro que devia, a partir de agora, ser leitura obrigatória para quem vive na China, a continental ou as outras.

Em Lisboa, a Associação Amigos do Livro está a levar a literatura e os livros de Macau ao encontro de um público ainda escasso, mas com potencial para crescer se houver desenvolvimentos neste diálogo que talvez ainda não tenha verdadeiramente começado. É sempre difícil fazer governos e governantes perceberem a importância da cultura no desenvolvimento dos seus países e na sua abertura ao mundo, mas pode ser que iniciativas como esta contribuam para acabar com o enorme desconhecimento que Portugal revela sobre um dos lugares do mundo onde se fala português e, sobretudo, com a ausência de relações editoriais que permitam a circulação de autores em língua chinesa no espaço da língua portuguesa, acabando com as traduções feitas a partir do inglês e com a ignorância quase absoluta sobre uma produção literária vastíssima e muito interessante. Edita-se muito em chinês, mais do que qualquer discurso sobre a saturação do mercado editorial português consegue imaginar, e não se percebe como é que Macau, lugar onde chinês e português se encontram diariamente (ou, pelo menos, podiam encontrar-se) não é o espaço por excelência para uma aposta na tradução, na leitura e na circulação em duplo sentido de autores de ambas as línguas. Se assim fosse, não teríamos de lamentar o facto de os dois livros recentemente publicados do poeta F. Hua Lin, que também destacamos nesta edição, só existirem em chinês.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s