Crítica

Reaccionário genial

Sara Figueiredo Costa

mw-768

É fácil não gostar de Nelson Rodrigues. O tom misógino em tantos textos, o reaccionarismo perante quem tentava mudar o Brasil e talvez o mundo em tempos de ditadura militar, a veia conservadora a sentir-se tumultuosa sempre que alguma coisa se alterava na vidinha de todos os dias. É ainda mais fácil ver através dessas e de outras irritações possíveis – e prováveis – a prosa genial de quem fazia da vidinha matéria para um retrato possível da humanidade, misturando política, futebol, quotidianos e uma úlcera como quem sabe que nada do que é humano será estranho à grande literatura. E entre crónicas, teatro e prosa, Nelson Rodrigues sabia bem como se faz a grande literatura.

As crónicas publicadas neste volume foram seleccionadas de entre as muitas que saíram diariamente nas páginas do jornal O Globo, nas décadas de 50 e 60 do século passado. As obsessões do autor estão lá todas, e quase todas são retomadas em diferentes crónicas. A juventude, por exemplo, é tema recorrente, com Nelson Rodrigues lamentando a idolatria que todos parecem alimentar perante uma fase da vida que, na sua visão, nada tem de interessante. As passeatas de protesto, o Maio de 68, os padres que se tornaram modernos esquecendo os dogmas que lhes sustentam a carreira, tudo coisas que o autor não perdoa. Também lá está o anti-comunismo ferrenho e o apoio aos militares brasileiros, algo que parte do público leitor nunca perdoou, relegando o autor para o purgatório dos que mereceriam o esquecimento pelas posições que assumiram politicamente. Ora, lê-se Nelson Rodrigues e percebe-se que tal não é possível, sobretudo pela qualidade do que escreveu, mas igualmente porque o mundo arrumado em facções não era coisa que coubesse no seu pensamento. Lendo melhor, está lá a defesa intransigente da liberdade de imprensa, a todo o custo, e a oposição frontal à pena de morte, independentemente do crime (e se Nelson Rodrigues sabia do que falava no que ao sentimento de justiça diz respeito, tendo visto o irmão ser assassinado à sua frente). E está uma reflexão sobre o racismo no Brasil que ainda hoje merecia ser discutida, por não terem mudado tanto assim os termos que a sustentam: “Eis a nossa paisagem: – os cargos estão aí, as funções estão aí, as estátuas estão aí, e não vejo os negros.” (pg.119). Sobre tudo isto e sobre a sua úlcera, alimentada a leite para contrabalançar o álcool, escreve Rodrigues como quem alimenta uma conversa amena, a prosa a parecer fácil, num tu-cá-tu-lá com o leitor que poucos cronistas sabem construir sem resvalar.

Em boa hora a Tinta da China decidiu publicar a obra completa de Nelson Rodrigues em Portugal, onde pouco ou nada estava publicado. Para além deste conjunto de crónicas, já podem ler-se igualmente A Vida Como Ela É, livro de contos, e A Menina Sem Estrela, volume de memórias. Esperemos que o teatro e as crónicas sobre futebol, entre elas as prosas épicas sobre os encontros entre Flamengo e Fluminense, não tardem muito.

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