Reportagem

Um cometa resgatado à voragem dos tempos

Marco Carvalho

leafletAté meados do próximo mês, o Instituto Cultural reabilita a memória de um poeta nascido em Macau que encantou a cosmopolita Xangai de finais da década de 1930. A escrita robusta e febril de F. Hua Lin valeu ao poeta o epíteto de “O Arauto dos Tempos”

Magro, lábios grossos, carão moreno. De Bocage não terá herdado a estatura, mas com ele partilhará certamente a irreverência: a primeira impressão de F. Hua Lin, poeta nascido em Macau há um século e agora resgatado à voragem do tempo, é visual e não se furta ao desconcerto.

Logo à entrada da galeria da Academia Jao Tsung-I – onde até 13 de Novembro é recordada a vida e a obra do poeta, ensaísta e pedagogo – salta à vista uma fotografia quase em tamanho natural: um jovem homem, de tronco nu – a pele tisnada, adulada pelo sol – retesa uma toalha sobre os ombros, o olhar sumido num horizonte incerto. Pelo registo fotográfico, em tons de cinzento e cobre, adivinha-se no jovem um qualquer tripulante de um junco ou, quem sabe, o último dos apanhadores de pérolas dos mares meridionais da China. Nunca um poeta e muito menos aquele a quem chamaram “O Arauto dos Tempos”.

Nascido em Macau em 1915, F. Hua Lin – pseudónimo literário de Fung Kam Chiu – foi uma das figuras de proa do fugaz, mas vibrante movimento literário que se afirmou em Xangai entre 1937 e 1941, nos anos do chamado “período de isolamento” de uma metrópole que rivalizou, durante as primeiras décadas do século XX, com Paris, Londres ou Nova Iorque em termos de irreverência e de pujança cultural.

A Xangai a que F. Hua Lin ruma em meados da década de 30, para completar uma licenciatura em inglês no Departamento de Línguas Estrangeiras da Universidade Nacional de Jinan, é ainda uma cidade varrida pelo optimismo, mas as nuvens negras que pairavam sobre a Ásia Oriental cedo se transformaram em tempestade. Em 1937, o Japão invade o nordeste da China, Nanquim é palco de uma barbárie incomensurável e Xangai é sitiada. Na “Paris do Oriente”, um grupo de jovens escritores e artistas responde ao amargar dos tempos com uma produção literária e artística notável: “Hua Lin movimentava-se num ciclo literário e artístico muito dinâmico. Entre os seus amigos estavam alguns dos maiores escritores chineses da época. Nessa altura, ele dedicava-se muito à escrita de poesia, sobretudo poesia moderna chinesa”, explica ao Parágrafo Teresa Fu Barreto, coordenadora científica da exposição com que o Instituto Cultural reabilita a obra e a memória do autor.

“Os poemas e os ensaios que Hua Lin escreveu nunca chegaram a Macau por várias razões. A China estava envolvida na Guerra contra o Japão e a comunicação era muito mais difícil. Essa é a principal razão pela qual a maior parte dos leitores de Macau não conhecem o autor e a sua obra”, complementa Teresa Fu Barreto.

A coordenadora científica da exposição “O Arauto dos Tempos: O Poeta F. Hua Lin”, patente ao público na zona do Tap Seac até meados do próximo mês, lembra que, apesar de estar concentrada num período bem definido, a produção poética do autor é vibrante e robusta, materializando-se quase com um pendor diluviano: “As obras mais importantes deles foram publicadas na China. As primeiras duas obras foram publicadas em 1938. Em Junho de 1939 publicou dois outros livros de poemas. O objectivo de Hua Lin era o de publicar seis livros de poemas, mas acabou por abrir mão da ideia por causa da guerra”, explica Teresa Fu Barreto.

Entre as obras publicadas nos últimos, intensos anos da década de 30 contam-se Mei Gui (“Rosa”), Xiang ri kui (“Girassol”), Man tian xing (“Céu estrelado”) e Qian niu hua (“Glória-da-manhã”). A impetuosidade da escrita, a produção febril e os temas abordados – “a vida, a relação com a natureza, a relação com as pessoas … ainda a guerra” – levaram Li Jianwu, professor com quem privou na Universidade Nacional de Jinan a brindá-lo com o mais revelador dos epítetos: “O Arauto dos Tempos” é uma grande honra por causa de poemas que ele escrevia, cheios de paixão, muito bonitos, alguns denunciando as atrocidades dos japoneses. Hua Lin estava, de certo modo, à frente da sua época”, sublinha Teresa Fu Barreto.

Na cerimónia de inauguração da mostra “O Arauto dos Tempos: O Poeta F. Hua Lin”, Guilherme Ung Vai Meng, presidente do Instituto Cultural, foi ainda mais longe e comparou o percurso de juventude do poeta ao trajecto de um intenso e magnânimo cometa: “À semelhança de um belo cometa que deixa um rasto de brilho no firmamento, F. Hua Lin surpreendeu os seus pares no continente nos anos de 1930 e de 1940, mas depois disso retornou a Macau e viveu uma vida simples. Tornou-se uma figura lendária da expressão poética, como um som que ecoa num vale. Sabíamos que ele existia, nas não o enxergávamos claramente”, admite Un Vai Meng.

Depois do fulgor, o eclipse

A razão pelo qual o cometa se eclipsou permanece ainda, e em grande medida, um mistério. Depois de ter percorrido cidades e províncias como Chongqing, Guilin, Guizhou e Yunan, Fung Kam Chiu regressa a Macau em 1952. Casado, com uma família para sustentar, o jovem professor de inglês parece apostado em enterrar F. Hua Lin e os anos passados em Xangai num recanto obscuro do seu passado: “O Hua Lin regressou a Macau em 1952 e por cá viveu até à sua morte, em 1992. Durante estes 40 anos, o Hua Lin foi director de uma escola e ensinou inglês, tendo-se dedicado em simultâneo ao estudo da poesia clássica chinesa, tornando-se um grande conhecedor dos poemas clássicos”, explica Teresa Fu Barreto. “De certa forma, a vinda para Macau foi como que um corte com o passado: o poeta deixou por completo de escrever poesia moderna. Por outro lado, Hua Lin era um outsider, alguém que não convivia muito com o círculo literário de Macau”, complementa a coordenadora científica da exposição.

Com uma ascensão meteórica no cenário literário da cosmopolita Xangai dos finais da década de 30, só nos últimos anos de vida do autor o nome de F.Hua Lin regressou aos escaparates das livrarias, uma vez mais pela mão de editoras da República Popular da China. Em 1989 é publicada a obra Huo Hua Jia (“Brilho Cintilante”) e em 1994 é lançada, a título póstumo, no Continente uma antologia de poemas e de ensaios do autor. Agora, 22 anos após a morte de F. Hua Lin resgata a obra de um dos filhos mais notáveis da terra com o lançamento de duas obras, uma colectânea de textos do autor – O Arauto dos Tempos: O Poeta F. Hua Lin – e um estudo sobre a obra do poeta – Apelos Ardentes: Poemas e Ensaios Escolhidos de F. Hua Lin – conduzido por Song Zijiang. Nenhum dos volumes tem, no entanto, tradução em língua portuguesa.

Para a reabilitação da memória e da obra do alter-ego literário de Fung Kam Chiu contribuiu, de forma decisiva, a família do poeta. Em Março do ano passado, Fung Ping Buck, filha de F. Hua Lin, manifestou interesse em doar o acervo do autor ao Instituto Cultural, oferecendo desde então mais de 1700 peças – manuscritos e correspondência, mas também recortes de imprensa e objectos pessoais – ao organismo liderado por Ung Vai Meng. Fung Ping Buck diz-se orgulhosa da dignidade oferecida pelo IC à herança literária do seu pai: “O meu pai foi sempre escrevendo. Foi sempre um professor dedicado, que corrigia os textos e os trabalhos dos seus alunos e mesmo no anonimato continuou a fazer o que lhe competia sem desgosto. Continuou a escrever, continuou a promover a poesia e a ser um educador. Era uma pessoa muito protectora”, recorda a filha do poeta.

A exposição “O Arauto dos Tempos: O Poeta F. Hua Lin” está patente na Academia Jao Tsung-I até 13 de Novembro, diariamente das 10 às 18 horas, incluindo os dias feriados. A entrada é livre.

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