Crítica

Uma literatura perdida no tempo

Hélder Beja

capa_a-chama-e-as-cinzasLer sobre literatura portuguesa contemporânea – e ler assim, de modo profundo e sistematizado, mas também escorreito e cativante – é um privilégio raro. A Chama e as Cinzas, de João Barrento, nasce das conferências dadas pelo autor na Feira do Livro de Frankfurt de 1997, ano em que Portugal foi país convidado. Barrento falou ao público alemão sobre a literatura portuguesa produzida entre a Revolução de Abril de 1974 e o final do século XX. Em 1999, essas conferências resultaram num livro editado naquele país. Agora, Barrento verteu os seus próprios textos para português, actualizou-os e, mais importante, juntou-lhes um capítulo que tem por base uma intervenção feita no Brasil em 2005 e que traça o retrato da literatura portuguesa no começo do século XXI.

O autor começa por olhar as “hipóteses de Abril” reveladas na literatura, acima de tudo no romance. Do novo neo-realismo de Fernando Namora ao sobre-realismo de Agustina Bessa-Luís; da literatura alegórica de José Saramago às sátiras e paródias de Mário de Carvalho e Luísa Costa Gomes; da meta-ficção de Augusto Abelaria ao hiper-realismo quase niilista de Pedro Paixão – o autor encontra nos autores portugueses “mensagens de cepticismo, de desencanto e de morte” (pp. 47), que contrastam com o optimismo político que marcou o virar do século.

Seguem-se depois capítulos que vão das “Leituras da História: Facto e Ficção no Romance”, onde é destacado O Memorial do Convento, de Saramago; à “A Nova Desordem Narrativa: Escrita Feminina”, em que Barrento olha as muitas e muito talentosas mulheres que dominaram a literatura portuguesa durante aqueles anos, e em que evidencia O Vale da Paixão, de Lídia Jorge. Há ainda um capítulo dedicado à arte da narrativa curta, com uma viagem que vai de nomes como Raul Brandão, Jorge de Senna e Mário de Sá-Carneiro, a Maria Judite de Carvalho, Maria Ondina Braga e José Riço Direitinho. E outro longo capítulo dedicado à poesia, esse “rio de muitos braços” que se alimenta “do silêncio de uma época”, para citar Eduardo Lourenço.

Mas talvez o mais interessante de todos os capítulos de A Chama e as Cinzas seja o último, porventura o mais ensaístico e aquele em que, a par do primeiro relacionado com Abril, o autor mais se revela. Em “Perspectiva e Balanço: A Literatura Portuguesa em Tempos de Indigência”, Barrento sedimenta a visão pessimista que atravessa o livro, fala da “crescente insignificância da literatura nacional enquanto esteio de uma consciência nacional” (pp. 177) e da “diluição do literário na configuração global do estado do mundo”.

Esta actual “existência sem memória”, em que predominam “paradigmas economicistas, pragmáticos e vivenciais” está a aniquilar “o simbólico e a letra”, defende João Barrento. Quando olha a literatura portuguesa e o seu tempo, um tempo de indigência, o autor questiona-se: “Se a literatura deixou de ser transmissível, que fazemos nós aqui?” (pp. 178).

A Chama e as Cinzas é também um rico compêndio de referências para autores que conhecemos bem, outros que deixámos para trás e ainda outros de que praticamente não ouvimos falar. Barrento não tem a pretensão de buscar soluções para o vazio da contemporaneidade, mas disseca-o o bem e lembra-nos de coisas essenciais como a necessidade de parar, ler, pensar. É preciso aprender tudo outra vez.

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