Crítica

A inveja como uma das Belas Artes

Sara Figueiredo Costa

arquivoconfissoes

E se os Jesuítas de Macau tivessem criado um arquivo com as confissões que os fiéis lhes entregaram, contrariando os preceitos do segredo da confissão com a desculpa de poderem compreender melhor os meandros da alma humana? É esse o gatilho para o enredo deste romance, cuja acção se estende entre os séculos XVI e XIX, cruzando personagens em torno de um personagem principal, Bernardo Vasques, um português que terá roubado um livro de versos ao maior poeta seu compatriota, deixando que a culpa o consuma tanto como a certeza de que voltaria a cometer o mesmo acto pérfido se a oportunidade surgisse. Em torno da culpa de Bernardo Vasques, e da inveja que a desencadeia, Carlos Morais José ergue uma narrativa que questiona mitos nacionais portugueses – de Camões, nunca referido no corpo da narrativa, até às boas intenções dos que aportaram em destinos longínquos no tempo em que Portugal andaria, supostamente, a descobrir o mundo – , abala pretensos heroísmos e falsos gestos de boa fé e ainda acrescenta uma peça importante ao lote de romances que parecem seguir os pressupostos de um género ou sub-género para logo confirmarem que a boa literatura dispensa espartilhos genéricos. Num diálogo intenso com parte considerável da literatura universal, passando por Dante, pelas viagens tardo-medievais e renascentistas a ilhas imaginárias ou pela herança que Shakespeare foi buscar aos clássicos e espalhou pelos seus descendentes sem limites cronológicos, este romance assume a tese da inveja como motor de muitos gestos humanos e da culpa como combustível para outros tantos.

Por vezes, um certo floreado verbal parece ameaçar a prosa, revolteando em adjectivações e derivas emocionais que quase soam gongóricas, mas nada se perde numa estrutura que, não obedecendo a categorias de género, não deixa de ser um romance ambientado numa determinada época histórica. Arcaísmos e floreados verbais fazem, portanto, todo o sentido e estranho seria que narrador e personagens se exprimissem de outro modo. Onde o edifício romanesco e argumentativo deste romance quase se perde é já perto do fim, quando o narrador cede ao impulso de tudo justificar e iluminar. Num gesto que desvaloriza o belíssimo argumentário romanesco até aí construído, as páginas finais arriscam muito ao quererem fazer a síntese do que lemos, como se a narrativa não fosse suficiente para se perceber a sordidez, as contradições e os impulsos que movem Bernardo Vasques. Felizmente, o final do romance afasta essa deriva estrutural, retomando a linha narrativa de um modo simultaneamente lógico e inesperado (sobre o qual importa não acrescentar mais detalhes sob pena de arruinar o prazer da leitura). O Arquivo das Confissões. Bernardo Vasques e a Inveja não deixa, por isso, de ser um sólido romance de tese, mergulhando com elegância nos abismos da natureza humana e na sua tendência para a audácia aventureira e para a mesquinhez mais sórdida, ambas possíveis de encontrar nos mesmos espécimes, por vezes no mesmíssimo momento. Será o que nos torna desprezíveis, mas será igualmente o que faz de nós seres com algum interesse, histórias para contar e memórias que nos acalentem e sirvam de ilusão quanto à nossa permanência na memória alheia após a morte. É disto que somos feitos e a literatura não se tem cansado de o confirmar, século atrás de século.

Carlos Morais José
O Arquivo das Confissões. Bernardo Vasques e a Inveja
Livros do Oriente

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