Pré-Publicação

Sou Eu Mais Livre, Então. Diário de um preso político angolano

Em Junho de 2015, Luaty Beirão e outros 16 activistas foram detidos em Luanda por estarem a ler uma adaptação do livro Da Ditadura à Democracia, de Gene Sharp, e por questionarem publicamente a liderança de José Eduardo dos Santos. Chega hoje às livrarias, com chancela Tinta da China, Sou Eu Mais Livre, Então. Diário de um preso político angolano, o diário que Luaty Beirão escreveu ao longo do seu cativeiro, durante o qual realizou uma greve de fome de 36 dias.

 

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Segunda-feira, 13 de julho de 2015

O bilhete surtiu efeito. Hoje fui chamado ao gabinete do diretor e pude esclarecer alguns pontos, deixando-lhe outros de preocupação a fermentar. É muito cansativo falar com quem tem poder formal mas está sujeito ao poder arbitrário dos cobardes que nunca assumem as suas ordens. Mesmo que no seu íntimo seja sua intenção (e fica muito difícil saber no que acreditar quando a boca diz «sim» mas os gestos a seguir mostram «não») minimizar o sofrimento desnecessário a que temos sido submetidos, na prá­tica, tal como os seus subordinados não peidam sem antes receber um despacho que lhes outorgue essa veleidade, também ele não vai arriscar tomar uma decisão sem que o seu superior direto (Sr. Baptista) dê anuência.

Este, por sua vez, muito provavelmente carecerá da luz verde vinda de ainda mais acima, e assim sucessivamente, até que o «dono do processo», comandante-chefe, arquiteto da paz, engenheiro de petróleos, homem do desporto emprestado à política kitumba avalie e emita o seu parecer, que deverá depois fazer o percurso inverso, oralmente, por toda a cadeia de comando até ao borra-botas do diretor do presídio, com a mensagem já cheia do ruído das interpretações de cada um dos ouvintes tornados emissários.

Finalmente, a mensagem chega em forma de ordem ao desgraçado que nos abre a cela. Estamos prisioneiros e reféns desses joguinhos, e a única forma de fazer pressão para as decisões nos beneficiarem é atacar diretamente o centro nevrálgico de decisões, mantê-lo sob fogo cerrado (eh pá, de forma metafórica, não vá isto cair em mãos de assustadiços agentes da «inteligência», que usarão esta infeliz terminologia como elemento de prova das minhas intenções belicistas), de tal modo que se vejam na contingência de fazer concessões.

Vamos às conclusões:

1 — Banho-de-sol: TODOS OS DIAS. Pediu desculpa pelo incumprimento no dia de ontem e lamentou que na sua ausência alguns agentes sabotem as suas instruções, que diz serem explícitas, e que, infelizmente, a esmagadora maioria não consiga tomar decisões na incerteza.

2 — No caso da interrupção do banho-de-sol, ficou por analisar se é de compensar ou não o tempo sonegado, apesar da minha insistência em que o dito «banho» não é um luxo mas uma necessidade fisiológica, sobretudo para quem passa 23 horas por dia iluminado apenas por uma ténue luz artificial. Não sei que tipo de análise é necessária.

Quando começámos a abordar questões acerca da censura, mostrou-se aborrecido com o que ele chama de «questões insignificantes», ao que retorqui que os livros são os únicos amigos que temos na situação em que nos encontramos, pedindo-lhe que não lidasse com essas «questões» de forma tão leviana. Tratei desse assunto diretamente com o Sr. Manuel (tratado por todos como «chefe Lito», mas eu não me permito essas confianças), que também estava presente na sala e que, não tendo dito tudo, disse alguma coisa:

3 — Limite de livros na cela = três. Posso pedir que me tragam o código penal, pois «toda a gente tem direito a conhecer a lei», e ser-me-á também entregue uma cartilha com o regulamento interno que, fiquei a saber ali, deveria ter-me sido entregue no momento do meu internamento, juntamente com o uniforme. Quanto aos livros estrangeiros (ou em língua estrangeira), como nenhum deles fala línguas, tiveram de remetê-los a reeducadores de outras instituições. O livro não é proibido pelo simples facto de estar escrito noutro idioma (disse-me o próprio diretor).

Quando pergunto pelos critérios de avaliação/reprovação levo dribles e evasivas. Insisti no livro do Pepetela, que está lá parqueado há mais de duas semanas. Vai olhar mais, ainda não analisou o suficiente. Lamentou a quantidade de tarefas que tem, mas isso não é meu problema. É possível trocar livros com os outros, mas o melhor é triangular sempre com eles para que possam ter o controlo de onde está determinado livro em determinado momento. Para terminar, pedi que justificassem formalmente qualquer tipo de recusa/censura de literatura.

Abordámos a seguir as questões das visitas, e aqui tive a única agradável surpresa:

4 — Percebi bem, sim, e horário de visitas = visitas podem chegar no início do horário estipulado e só ir embora no fim. Mostrei-me aborrecido por não nos estar a ser concedida essa benesse e mais uma vez ele se desculpou pelos desvios, agradecendo o facto de ter levado à sua a atenção esta preocupação e prometendo corrigir o desvio. Manuel «Lito» tirava anotações. Tenho a impressão de que não simpatiza comigo, tal é o trombil que enverga em permanência.

5 — Assunto cabelo e barba: o diretor abriu o regulamento interno, procurou e lá estava — cabelo no máximo com três centímetros. Já tinha decidido cortá-lo à escovinha, mas amanhã peço para medir e se estiver dentro do limite não corto porra nenhuma, porque a Mónica me pediu para manter. Se não estiver, vou cortar mesmo até ao terceiro centímetro, nem mais uma unha.

6 — Se as condições são para manter enquanto durar a prisão preventiva (novas evasivas e desabafo reiterado): «Eu quero que vocês vão já embora para casa, não vos quero ver nesta situação. Todos os dias nas redes sociais lemos que as prisões estão a vos tratar assim e assado. Não gosto de vos ver assim, também sou humano.» Enfim, esta questão ficou indefinida, como eles gostam de tratar das coisas neste país, porém já foi entregue a men­sagem de que passaremos a considerá-lo violação dos direitos humanos.

Retrocesso: os meus banhos-de-sol e do Nito passarão a ser em horas distintas. Não podemos falar-nos, não podemos ver-nos. Já não sei o que falta mais para nos cortarem do mundo.
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