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戏曲, o Teatro Cantado da China

 

Sara Figueiredo Costa
(imagens: ©direitos reservados)

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Uma das mais reconhecidas expressões da cultura chinesa, a ópera reúne características de diferentes linguagens artísticas. No Museu do Oriente, em Lisboa, uma exposição mostra-a em todo o seu esplendor.

Das salas de espectáculo ricamente decoradas aos palcos improvisados em festas religiosas e populares, a ópera chinesa mantém o seu prestígio ao fim de tantos séculos, reunindo espectadores em torno de repertórios clássicos, muitas vezes relacionados com o património literário chinês e reconhecidos por boa parte do público. No Museu do Oriente, em Lisboa, uma exposição dedicada a esta expressão artística ocupa todo o piso 2 do edifício, reunindo duzentas e oitenta peças pertencentes à colecção Kwok On (que Jacques Pimpaneau iniciou, prosseguindo o trabalho com Sylvie Pimpaneau, e que integra milhares de objectos de algum modo relacionados com as artes performativas asiáticas).

Falamos de ópera, em português, e o termo pode ser ambíguo, remetendo para a tradição europeia ou para a chinesa, eventualmente misturando as duas. Na verdade, e como explica Jacques Pimpaneau num dos textos do catálogo que acompanha a exposição, a palavra 戏曲(xiqu) merecia melhor tradução, não se desse o caso de já estar profundamente enraizada nas línguas ocidentais como referente, também, para aquilo a que chamamos ópera chinesa. Diz o coleccionador: “A palavra ‘ópera’ não é a mais adequada para designar esta performance chinesa. Corremos o risco de assim a confundirmos com criações ocidentais, tais como as composições de Monteverdi. Alguns especialistas reuniram-se e concluíram que ‘teatro cantado’ seria uma melhor tradução para a palavra chinesa xiqu. De facto, as partes faladas ocupam um lugar importante e não há uma composição musical específica para cada peça. Cada uma resulta de uma espécie de nova combinação dos mesmos elementos de sempre, das mesmas séries de árias, de gestos e de indumentárias, como se estes estivessem guardados e conservados num sotão ao qual recorremos para os resgatar e formar combinações sempre diferentes.” Mantenhamos o termo, então, agora sabendo das suas armadilhas.

As origens da ópera chinesa perdem-se na linha da História, mas sabe-se que no século XI já haveria representações semelhantes às que hoje conhecemos e a maioria dos especialistas concorda com uma origem indiana para esta expressão artística. A tradição budista de contar, interpretando com música e movimentos, as lendas associadas às vidas passadas de Buda terá ganho terreno na Índia entre os séculos VII e VIII, chegando depois à China e cruzando-se com outras tradições de narrativa oral que reuniam espectadores em torno de um ou mais contadores e intérpretes. Essas tradições seriam muito antigas, como se mostra na exposição do Museu do Oriente, nomeadamente através das gravuras encontradas em sepulturas que remontam à dinastia Han (206 a.C.-220 d.C.), pelo que a tarefa de traçar uma genealogia segura da ópera chinesa a partir das expressões que se reuniram para a configurar não é tarefa fácil. Certo é que durante a dinastia Song (960-1279) já se encontram registos de um repertório muito variado na ópera chinesa, com temas muitas vezes associados ao budismo, mas também peças de temática histórica.

opera1Guiando-nos numa visita pela exposição, Sylvie Pimpaneau e Sofia Campos Lopes, curadoras, mostram figurinos, adereços e alguns cenários, traçando os momentos essenciais de uma história longa. “Aquilo que conhecemos como ópera chinesa ganha a sua codificação mais actual durante a dinastia Mongol, com as interpretações a perderem o realismo e a adquirirem um forte grau de fingimento, nos gestos e sobretudo nas vozes”, explica Sylvie Pimpaneau. Os actores trabalham num quadro rigorosamente codificado e a sua boa prestação depende da capacidade de superarem essas regras sem nunca as quebrarem. No século XIX, a ópera de Pequim traz novas expressões gestuais para o palco, nomeadamente nas cenas de combate, com as acrobacias a ganharem terreno. É nesse contexto que se destaca Mei Lanfang, já no século XX, actor cujas fotografias em cena e nos bastidores marcam presença nesta exposição. Se até ao século XVIII as mulheres integravam os elencos da ópera, depois disso ficaram proibidas de fazê-lo até 1911 e Mei Lanfang torna-se um actor de culto sobretudo pelas suas intensas interpretações de papéis femininos.

No Ocidente, e com excepção de alguns viajantes e estudiosos, a ópera chinesa torna-se conhecida do público já no século XX. Mostrando a vitrine onde se exibem vários discos de vinil, Sofia Campos Lopes explica que “é quando as editoras começam a gravar registos sonoros de óperas que nos chega a ópera chinesa”. Em exposição, discos com obras do repertório clássico alinham-se a par com óperas cuja temática quebra a tradição. São as óperas do período da Revolução Cultural, quando Mao Tsé Tung proibiu a ópera que até aí se conhecia, fechando companhias, perseguindo actores (com a colaboração intensa da sua mulher, Jian Qing, também ela actriz) e incentivando a criação de novas óperas com a temática revolucionária como pano de fundo.

Numa vitrine maior mostram-se alguns cenários destas óperas revolucionárias, com o vermelho a predominar em fundo e a ausência notória de qualquer personagem identificável com a ópera chinesa tradicional. Em conversa com o Parágrafo, Sylvie Pimpaneau explicou como, apesar da proibição de Mao, a ópera tal como a conhecemos conseguiu sobreviver: “Com a proibição da ópera e das expressões da religião popular, às quais a ópera se associava frequentemente, tudo se transformou. Lembro-me de ter conhecido membros de alguns grupos de ópera que me contaram que, durante a Revolução Cultural, encontravam-se às escondidas para recitarem e cantarem o seu repertório, sem fatos, sem adereços, sem música, de modo a não perderem a tradição. A esperança era a de conseguirem transmitir alguma coisa às gerações futuras e, apesar de todos os obstáculos, acabaram por conseguir fazê-lo.” Para além desta transmissão clandestina, territórios como Macau, Hong Kong e Taiwan, politicamente e administrativamente afastados do que então se passava na China, ajudaram a garantir que o património da ópera não se perdia: “Em Macau, Hong Kong e Taiwan, o cenário foi muito diferente, porque os territórios foram poupados às proibições. Aí, a ópera teve uma continuidade, sem interrupções, e isso também foi fundamental para preservar a tradição”.

Com uma codificação rígida e um lote de personagens cujas características físicas e psicológicas são reconhecidas pelo público assim que surgem em cena, a ópera chinesa tem um repertório definido. Conhecem-se as peças e o modo de as encenar, os enredos e os figurinos e adereços a eles associados. Onde a riqueza desta expressão se torna infinita é na interpretação, musical e teatral, e na variedade de características que marcam os modos de encenar e actuar das companhias de diferentes regiões. Para um leigo, estas características não serão apreensíveis, mas uma visita à exposição do Museu do Oriente ajuda a perceber que, por exemplo, a ópera de Cantão utiliza instrumentos que tornam a sua vertente musical única perante as outras regiões, destacando-se a variedade e a força dos instrumentos de percussão; ou que a ópera de Sichuan, cuja companhia actuou na abertura da exposição perante uma plateia duas vezes esgotada, inclui elementos como as artes marciais, as acrobacias com fogo, marionetas, a dança das lanternas ou a espectacular mudança de rosto (bianlian), testemunhada pelo público lisboeta, que viu dois actores mudarem de aspecto várias vezes numa espécie de passe de mágica.

Para lá das diferenças regionais e da codificação de gestos, formas e repertório, é na relação com a literatura que se encontra uma das características essenciais da ópera chinesa. Como explicou Sylvie Pimpaneau, “boa parte das peças do repertório da ópera é baseada em grandes obras da literatura chinesa, muitas vezes remontando a muitos séculos. Veja-se o caso das óperas baseadas no Romance dos Três Reinos, de Luo Guanzhong, livro do século XIII onde as disputas pelo poder são um dos temas, o que permite vários episódios cénicos marcados por combates, muitas vezes incluindo acrobacias. A literatura e a ópera são, na cultura chinesa, elementos indissociáveis.” Viagem ao Ocidente, de Wu Cheng’en, À Borda de Água, de Shi Nai’an, ou O Pavilhão das Peónias, de Tang Xianzu, são algumas das obras que integram o repertório da ópera chinesa, a par com histórias lendárias cuja origem se perde no tempo. Na exposição que pode ser vista no Museu do Oriente, em Lisboa, até final de 2018, a relação entre ópera e literatura é uma das linhas de força que ajuda a apreender uma história longa, complexa e fundadora da cultura chinesa tal como a conhecemos.

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