Entrevista

Invejar o outro não nos leva a lado nenhum: Carlos Morais José em Entrevista

Marco Carvalhodsc_8851

Diz, a brincar, que é o melhor escritor da sua rua, mas ao fim de um quarto de século em Macau diz-se preparado para assumir as lides da escrita a tempo inteiro. A primeira obra de prosa ficcional de Carlos Morais José – um registo a meio termo entre a novela e o romance – valeu ao jornalista e editor o convite para estar presente na edição de 2017 do “Correntes d’Escritas”, o mais importante festival literário de Portugal. O autor, que se diz surpreendido pelo reconhecimento, espera que O Arquivo das Confissões – Bernardo Vasques e a Inveja abra portas a um maior interesse pela literatura que se faz em Macau e tira o véu aos seus próximos projectos. Carlos Morais José em grande entrevista.

 

PARÁGRAFO: O Bernardo Vasques, que é a personagem central deste teu romance, quase podia ser um alter-ego de todos nós. A inveja é, de facto, uma das pulsões do ser que nem as almas mais puras conseguem evitar…

Carlos Morais José: A inveja é um sentimento fundamental da Humanidade, infelizmente. Nós somos miméticos e competitivos e muitas vezes temos dificuldades em aceitar o outro. Na verdade, há aqui um jogo importante entre o “eu” e o “outro”. Penso que todos nós sentimos, de alguma maneira, aquilo que o Bernardo Vasques sente; agora o que é preciso é ter estrutura moral para conseguir combater isso e perceber que o sucesso do outro não é a nossa derrota. Ainda assim, não é a isso que nós assistimos todos os dias, desde o princípio da história da Humanidade. Está na Bíblia: Caim mata Abel por inveja. Os gregos tentaram dar a volta a isso: tentaram fazer da inveja um sentimento positivo, chamaram-lhe as questões agónicas, as questões do combate pessoal no sentido em que eu, ao confrontar-me com o outro, posso mostrar o melhor de mim. Posso superar-me a mim mesmo. Mas não passou dos gregos e mesmo entre os gregos, assistimos na Ilíada, na Odisseia a episódios em que a inveja acaba por ser fonte de destruição e fonte de morte ….

Não terá sido tua intenção escrever um texto épico, mas de certa forma temos aqui um épico também. Sem nunca ser nomeado, Camões é omnipresente. E depois há elementos que adensam qualquer epopeia, como por exemplo o motim e a forma como o motim é preparado. O livro tem sido vendido como um romance, mas vai além disso…

CMJ: Se tu o dizes… Falaste do motim … Nesse episódio há também a inveja entre classes sociais, que é um motor da história, a inveja entre grupos sociais, entre grupos mais favorecidos e outros mais desfavorecidos. Neste caso, a inveja, infelizmente também é dual, porque tanto os pobres, que nasceram em condição menor, têm inveja dos ricos, como os ricos têm inveja dos pobres quando os vêem subir na escala social. Isto está, de algum modo, estudado. Tentei ao longo do livro refutar todas as teorias que encontrei sobre a inveja, mostrando que todas elas estão de algum modo incompletas e que as coisas podem ser reversíveis. Ou seja, que a inveja também pode desencadear tanto actos horríveis, como actos criativos de alguma maneira. Em relação ao personagem Bernardo Vasques, há outro sentimento que também o domina desde o início, do qual ele nunca fala e o qual ele nem se apercebe que sente e que é a vaidade. A perspectiva que nós temos de nós mesmos também influencia o modo como nos relacionamos com os outros. Escrevi este livro para o século XXI. Não é um romance do século XVI ou XIX. É um romance para o século XXI. Durante os anos 70, 80 fiquei convencido de que a Humanidade estava de facto a melhorar, de que os acontecimentos dos anos 60 – primeiro a Segunda Guerra Mundial e os horrores de Auschwitz – depois os acontecimentos dos anos 60, a libertação sexual, a negação da religião, vista como algo opressor. Com o fim de tudo isso, pensei que o século XXI se iria afirmar como um século bastante mais equilibrado, bastante mais lúcido. Mas não. Vejo que houve uma espécie de regressão, se é que verdadeiramente chegou a haver alguma verdadeira revolução ou alguma verdadeira metamorfose nos Humanos, e regredimos novamente para um estado muito parecido com o do início do século XX: de incertezas, de fanatismos …

Em que a religião volta a chamar a si um papel preponderante.

CMJ: Exacto. Em que a religião volta novamente e, sobretudo, também um século de um profundo egoísmo, o que é algo completamente errado, porque o egoísmo, na verdade, é fonte de todos os males.

Em termos narrativos, o livro é muito interessante porque há várias narrativas e vários narradores encaixados. Há uma espécie de recuo cronológico até chegarmos a Bernardo Vasques e depois há o regresso, de novo, à contemporaneidade da história, no século XIX. Apesar de Macau não ser nem um cenário, nem um personagem central na trama, há pequenos detalhes da história que só quem tem um bom conhecimento de Macau consegue perceber. Há sub-leituras no texto?

CMJ: Há. Há bastantes sub-leituras. Considero que o texto, quanto mais camadas tiver, mais rico pode ser. E há também pequenos piscar de olhos: há um piscar de olhos às pessoas que conhecem a história de Macau, até porque há personagens que são inspirados em personagens reais da história de Macau. Eu dou a advertência de que a história é ficcional e não possui rigor cronológico porque, indo à história, vê-se que as datas não coincidiriam: a presença do Morrison, o incêndio das Ruínas de São Paulo, tudo isso está fora do tempo. Eu quase sugiro que foram os Jesuítas que atearam o incêndio, embora isso não seja dito. A razão seria para ocultar exactamente o “Arquivo”, mas tudo isto é uma ficção. Não considero este romance um romance histórico, no sentido em que as pessoas não aprendem história com ele, mas utilizo a história a meu bel-prazer para exactamente falar daquilo que o romance fala, que é do interior e das pessoas, que é isso que me interessa mais. São aquelas vozes que nós todos temos nas nossas cabeças, que tentam sobrepor-se umas às outras, que muitas vezes nos impelem a fazer coisas que, se calhar, à partida não gostaríamos de fazer. Interessava-me escrever sobre a capacidade de domínio que temos sobre essas vozes ou até que ponto essas vozes nos controlam, que vozes são essas, de onde é que elas vêm, quais são as suas origens. Penso que isso é muito importante hoje em dia. É muito importante as pessoas terem consciência disso, sobretudo num período em que há tanta informação não filtrada, é muito importante percebermos porque é que estamos a defender isto ou porque é que estamos a defender aquilo, muitas vezes de uma forma não plenamente consciente, tomando os factos como factos puros quando isso não existe. Todos os factos são factos construídos e, no meu entender, é muito importante as pessoas terem essa consciência e essa humildade. Lá está uma vez mais a questão egóica a sobrepor-se à questão do todo, da Humanidade. É claro que todos os filósofos, de Confúcio a Cristo, passando por muitos outros, falaram do “ego” como o grande mal do mundo. Até no exoterismo isso surge, identificando muitas vezes o diabo com o ego, mas a verdade é que os filósofos falam, os pregadores falam, mas depois o comportamento da Humanidade não se modifica.

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Ainda assim o personagem central da história, o Bernardo Vasques, é plenamente consciente da toda a sua vilania, de toda a sua maldade.

CMJ: Sim, ele está plenamente consciente da sua maldade, mas depois arranja sempre como que bodes expiatórios … Sente remorso, mas depois a dor que ele sente também acaba por se sobrepor ao remorso: lá está, as várias vozes de que te falava. A dor acaba por se sobrepor a uma eventual moral que poderia estar naquele momento a emergir. Ele fica até perto do suicídio, mas basta um raio de luz, basta o nascer do dia para que esses pensamentos se dissipem e ele tome uma decisão terrível, que é destruir o outro. Não a vida do outro, mas sim a obra do outro, que é no fundo o seu garante de imortalidade.

Uma opção que acaba por ser, de certa forma, uma maldição, porque há este processo, quase kafkiano, de transformação do Bernardo Vasques no próprio livro.

CMJ: Isso é o preço a pagar, não é? Porque há sempre um preço a pagar. E esse preço que lhe impede a felicidade é este detalhe de ele acabar por ser tomado pelo livro, por ele próprio ser o livro. Mesmo que o destrua, o livro fico dentro dele e ele não é mais do que aquilo. Fica reduzido a voz do outro e isso é, no caso dele, já um prenúncio do Inferno. Ele é um homem que vive a contemplar o Inferno, até enquanto crente. Enquanto crente, sabe que os pecados que cometeu não lhe trarão qualquer outra coisa e assume esse lado: perdido por cem, perdido por mil. Se é este o meu destino, levá-lo-ei até ao fim.

A narrativa da malvadez de Bernardo Vasques acaba por só chegar às mãos do pregador anglicano devido ao tal Arquivo das Confissões, digamos assim. Há uma tentativa, por parte de Vasques, de obliterar as suas falhas e regressar ao perdão da Igreja e ao perdão de Deus. É também uma punição nesse sentido? Ou nem por isso?

CMJ: Bom, para um homem do século XVI … Embora o século XVI tenha servido como pano de fundo ao emergir da descrença ou, pelo menos, é o século em que volta a emergir a descrença, depois da longa noite da Idade Média em que as pessoas eram profundamente religiosas e Deus estava-lhes na pele, até porque a existência de Deus não era posta em causa, o Bernardo Vasques tem sempre esse retorno à crença. Não põe nunca em questão a existência de Deus e, como tal, também não põe em questão a existência da culpa, a existência do pecado e a existência do Inferno e de uma vida depois da morte, em que será julgado pelos seus actos. Bernardo Vasques precisa de contar a sua história: não sei se é remorso, porque muitas vezes os personagens ultrapassam-nos. Quando estamos a escrever, muitas vezes não tempos plena consciência, se calhar, de todas as consequências do que estamos a escrever. Não sabemos ao certo até onde é que as personagens nos vão acabar por levar. Este é um caso desses, porque é um personagem bastante complexo e obsessivo. O Bernardo Vasques tem uma monomania e, nesse sentido, ele precisa de contar, ele precisa de se confessar. Depois de uma vida de crime, ele precisa de introspecção. Isto não quer dizer que ele vá mudar a seguir: houve alturas em que ele parecia que ia mudar e não mudou, tornando-se num ser ainda pior.

Há alguma coisa de auto- biográfico na obra? Reflectes-te em algum personagem, como autor?

CMJ: Acho que não. Por acaso acho que não. Sempre tive muito cuidado com essa questão. Acho que sempre fui muito consciente de que invejar o outro não nos leva a lado nenhum. Talvez tenha sentido um pouco o contrário: das poucas coisas de sucesso que tive na minha vida, muitas vezes já senti obviamente o emergir de um certo mau olhar, da tal “ejaculação do olho”, como diz São Mateus, que é olhar verde, não é? Sinceramente não vejo que esteja aqui nada de muito auto-biográfico, a não ser o amor às letras, o amor à filosofia.

Já que falas na questão da inveja, tens provavelmente noção de que este é o grande romance da Macau pós-transferência de administração, pelo menos em língua portuguesa?

CMJ: Não sei. Bem, eu costumo dizer que sou o melhor escritor em português da minha rua (risos), o que não é difícil porque estamos a falar de um lugar onde mais ninguém provavelmente escreverá em português. Não sei. Acho que isso o futuro é que vai ter de julgar e eu não sei quem é que está aí a escrever. Se calhar há aí um génio escondido, que não publica nada e que está à espera de não sei o quê. Não faço ideia. Só espero agora é que haja mais, não é? Agora conto continuar a escrever. O tema dos sentimentos e das paixões, como diz Descartes, das paixões em geral, foi sempre um tema que me interessou muito. E porquê? Porque é o que rompe com a cultura. Parece que a cultura é feita para dominar as paixões, mas não o consegue fazer. A cultura está sempre cheia de fissuras, cheia de caminhos travessos por onde as paixões se insinuam e a vão fazendo estalar. Eu como tenho uma formação antropológica, de antropologia cultural, sou um estudioso das culturas – da cultura de todos os povos, de vários povos – e nesse sentido sempre me interessou ver como é que as paixões a destroem, a tornam obsoleta, a fazem também mudar. Ao mesmo tempo, sendo a cultura aquilo que constitui a Humanidade e, sobretudo, aquilo que escapa ao ego, porque o que é cultural é de todos, como a língua e a religião. A língua e a religião são coisas que nós entramos nelas e saímos delas e elas continuam, não pertencem a nenhum indivíduo, apesar de não serem nacionalizadas. Esse lado belo da história da Humanidade, que é o lado cultural, é sempre posto em questão pelas paixões. É posto em questão pelas emoções, pelos nossos sentimentos, pelos nossos desejos. Nesse sentido, interessa-me continuar a explorar isto, mas sempre numa perspectiva que estou a escrever no século XXI, que estou a escrever neste momento. Posso usar personagens de outros séculos, mas na verdade aquilo de que procuro falar é do que se passa agora.

Como escritor, como jornalista, como editor pareces ter estas múltiplas facetas bem compartimentadas. O livro foi editado pela Livros do Oriente e não pela Livros do Meio. É importante manter esta distância para ti?

CMJ: É. É muito importante. Para mim foi super-importante porque eu deixei de ter capacidade para me editar a mim próprio. É muito melhor haver alguém que tenha um olhar crítico sobre a obra, que me chame a atenção para determinados aspectos que, quando estás sozinho, muitas vezes nem te passam pela cabeça. Uma coisa é tu editares outra pessoa e aí já tens um olhar distanciado sobre o texto. Sobre o meu próprio texto, é muito difícil ter um olhar distanciado. Às vezes nem vejo as gralhas, coisa que no texto de outra pessoa vejo imediatamente, até porque tenho o hábito de editor, de jornalista, etc. No meu texto, estas circunstâncias às vezes passam-me completamente ao lado. Parece que leio por cima e não vejo, o que é muito estranho. Nesse sentido, é muito gratificante. Por outro lado, o Rogério Beltrão Coelho é um editor profissional há muitos, muitos anos, que tem contactos, que tem uma actividade já fundamentada. Por fim, também me custa muito estar a promover-me a mim próprio. Sinceramente, nunca o fiz. Quando publiquei os meus livros, na verdade era para não estar a chatear os outros. Desta vez, quando o Rogério me convidou para ir a Lisboa, ao Fórum do Livro de Macau, no início do ano e apesar de eu não editar nada com ele e ter os meus livros à parte, eu disse-lhe: “Se é assim eu tenho um livro para publicar e gostava que começasses a publicar os meus livros”. Ele, amavelmente, com o profissionalismo e capacidade que sempre mostrou, prestou-se a isso e editou o livro. Acho que a partir de agora, mesmo alguns livros que eu já editei, gostaria de fazer uma segunda edição, desta vez com a chancela da Livros do Oriente.

Esta parceira, digamos assim, já te valeu um convite para o Correntes d’Escritas.

CMJ:Fiquei muito surpreendido.

Surpreendido, sobretudo?

CMJ: Sim, fiquei muito surpreendido. Fiquei muito surpreendido porque, como sabes, Macau está muito longe e Portugal é complicado do ponto de vista da literatura, como é complicado de quase todos os pontos de vista, quando se trata de trabalho e quando se trata de produção literária ou de produção artística. Eu fiquei um bocado surpreendido porque o Correntes d’Escrita é, de facto, o Festival mais importante do país. Se fico orgulhoso? Sim, fico orgulhoso, mas fico honrado, sobretudo. Acho que é uma oportunidade para mostrar Macau e a literatura de Macau em Portugal, não só a minha, mas a que existe aqui em língua portuguesa. Portugal é o nosso mercado óbvio. Depois temos outros, como o Brasil, mas para já Portugal é a porta de entrada na lusofonia para nós. Obviamente, como todos os escritores, não escrevo a pensar que vou ser muito lido, mas gosto de ser lido. E gosto que as pessoas leiam aquilo que eu escrevo. Este, para mim, é um bom momento: é um momento de alegria, também, por ver o reconhecimento de um trabalho que já tem bastantes anos, que já resultou na escrita de muitas coisas, mas de facto, a prosa, a ficção é mais fácil de atingir as pessoas do que outras formas literárias que eu até agora tenho explorado mais.

É a tua primeira tentativa num romance deste género?

CMJ: É.

Quanto tempo é que demorou esta ideia a amadurecer? E como foi o processo de escrita? Foi um processo doloroso? Escreveste e reescreveste?

CMJ: A ideia demorou muito tempo a amadurecer. Foi uma ideia que eu tive baseada num episódio de jornalismo, na verdade. Esse episódio de jornalismo foi o 1º de Abril. Eu estava à procura de uma mentira para contar às pessoas e apeteceu-me dizer qualquer coisa do género: “Em Macau, numa Igreja, num baú, encontrou-se o Parnaso, de Luis de Camões”. O Parnaso, o livro roubado. Estive para meter isto como mentira do primeiro de Abril. Depois dava muito trabalho, não sei, não houve tempo. Sabes como é que é. Os jornais têm de fechar e nós publicamos outra coisa qualquer mas a ideia começou-me a trabalhar no sentido de começar a pensar porque é que alguém rouba um livro. Porque é que alguém rouba um livro? Porque é que alguém rouba um manuscrito a outra pessoa? É uma coisa que não lhe vai dar dinheiro, não lhe vai dar poder, ninguém pode saber. É uma coisa íntima, é um roubo para a intimidade. Comecei a pensar que tipo de personagem é que poderia fazer isto e o Bernardo Vasques foi crescendo. Isto ainda antes de começar a escrever. Eu na altura escrevi para aí quatro páginas: a confissão tinha quatro páginas, que não eram para publicar. Era sobretudo para ter umas notas. Dessas quatro páginas aproveitei um parágrafo, basicamente. Depois, então, percebi que eventualmente tinha história e quando comecei a escrever demorei para aí uns nove meses, mas não de forma contínua. Não escrevi tudo de seguida, porque nós temos imensas coisas para fazer, imensos afazeres. Mas escrevi o livro por períodos contínuos de vinte, vinte e poucos dias. Mas escrever um livro não é fácil. De facto, não é fácil. Eu até costumo dizer que há pessoas que escrevem poesia, porque não sabem escrever prosa, porque a prosa torna-se um bom bocado mais trabalhosa. Acho que fui exigente comigo próprio. Eu sigo um bocado as doutrinas de Flaubert, que era de uma exigência extrema com a sua escrita: ele não admitia a repetição de um que no mesmo parágrafo, não admitia a repetição de uma mesma palavra na mesma página …

Procuraste de alguma forma cingir-te àquilo que são os moldes do romance clássico? Tiveste esse tipo de preocupação? Há no teu texto a procura de algum tipo de cânon?

CMJ: Não. Eu tive a preocupação de não me cingir a isso. Tive essa preocupação. Um romance clássico implicaria mais personagens, implicaria mais cenas e uma obra maior, uma obra com outra estrutura. Eu não sei se considero isto um romance, se uma novela. Uma novela, talvez devido à sua dimensão, mas eu não queria que fosse parecido com nada que eu tivesse lido, nem na forma, nem no conteúdo. Queria fazer uma coisa original. Devo dizer, no entanto, que escrever prosa é de uma exigência enorme. Eu revi este livro não sei quantas vezes, encontrando sempre pequenas coisas. Ainda hoje, se voltar a ler o livro, estou certo que encontrarei uma palavra ou outra que não deviam lá estar ou que devia estar outro no seu lugar. É um exercício de atenção, é um exercício complicado. Admiro bastante os grandes prosadores, que normalmente são do século XIX, nomeadamente o nosso Eça de Queiroz, que foi sempre uma grande inspiração para mim. Acho, de resto, que tenho uma cena queiroziana neste livro. Entre os grandes prosadores estão o Camilo Castelo Branco, o Dostoievsky, o Tolstoi. Estes escritores foram sempre grandes referências para mim, mas nunca tive o atrevimento de me abalançar para uma coisa assim. Desta vez lá fui eu, mas sofri muito. Gastei muito tempo, muita atenção …

Exigiu alguma forma de introspecção e de isolamento também? Ou nem por isso?

CMJ:Tem de ser. São muito estranhos, os personagens. Há pouco, em conversa, falavas no “fradinho”, não é? Esse personagem aparece-me sem eu querer. Eu não estava a pensar que ele ia aparecer, mas é quando o Bernardo Vasques diz que “todos merecem morrer” que o “fradinho” ganha definição. Quando vou para o capítulo seguinte, a primeira coisa que me vem à cabeça – quase como se fosse o personagem a pensar e não eu – foi a existência de um que talvez não merecesse morrer.

Algo que chega a ser equacionado pelo próprio Bernardo Vasques …

CMJ: Exacto. O frade morre porque é um desajeitado. Porque não consegue lidar com ninguém. É um desajeitado. É um tipo que está num plano tão fora que não consegue lidar com o real. Nem com o real dos da sua classe, nem com o real dos marinheiros e dos soldados. É um personagem totalmente desajustado e que talvez não merecesse morrer, mesmo na opinião do Bernardo Vasques. Surgiu assim. Foi-me imposto, quase, pelo outro personagem.

Tens aqui matéria quase fílmica.

CMJ: Dava um filme. Aliás, eu não escrevi mais cedo prosa porque achei que o cinema, de algum modo, tinha substituído o romance. As séries, o cinema são o instrumento ideal para contar uma história. Isto obriga a que a linguagem seja muito trabalhada. Embora eu não ache que seja um romance complicado de ler, mas tentei que o estilo e a linguagem justificassem não ser um filme, não ser uma série, mas sim uma coisa escrita, literária. Se consegui ou não, agora o público julgará, mas eu acho que sim, acho que poderia ser perfeitamente transformado num filme, com certeza. Falta-lhe uma coisa para ser transformado num filme: falta-lhe o amor. Falta-lhe isso.

Há um pequeno vislumbre na relação que o nunca nomeado Camões mantém com a Dinamene, personagem que Vasques encontra em Malaca. Este encontro com a favorita do poeta motiva como que uma premissa de compaixão por parte do próprio Bernardo Vasques.

CMJ: É. E até de fascínio e de saber que o outro a conhecera. É aquela ideia do: “Ele tocou-lhe. Ele esteve com ela. Ela gostou dele.” Aí pode entrar um bocadinho também a competição: “Será que ela também vai gostar de mim, etc”. Essa Dinamene também me apareceu sem eu estar muito à espera, exactamente porque nós partimos do princípio que a Dinamene terá morrido num naufrágio. E então, se não morreu? Pode não ter morrido, pode ter, como eu conto, sido arrastada para outro lado, agarrada a uma tábua de madeira qualquer e ter-se salvo também. Não sabemos. Mas, de facto, não tratei duas questões fundamentais que são o sexo e o amor.

Há várias vozes subliminares – e não falo já sequer na personagem omnipresente que nunca foi nomeada, Camões – mas da outra faceta mais filosófica do livro, digamos assim. Nos devaneios filosóficos do pastor anglicano encontramos rasgos que vão desde Platão a Malinowski. Estas vozes não têm que ver com narrativa propriamente dita, mas ajudam a completar o livro.

CMJ: Penso que isso é o que dá também algum conteúdo ao livro, porque esses que tu citaste e outros são questionados. Não é um tratado no sentido de expor, mas sim de interrogar. Essas influências, se quiseres, ou essas referências surgem mais como um meio de questionar o real, de pôr em questão aquilo que as pessoas vêem, como é o caso do Malinowski e daquela tribo em que ele vive onde não há ciúme sexual, porque há um conceito diferente da fecundação, que não é o tido por muitas culturas como normal. Isto está de facto no Malinowsky. Nas ilhas Trobriand é assim. Eu falo do comércio kula sem o referir: os homens saem da ilha, vão dar uma volta pelas ilhas todas para fazer comércio, voltam um ano depois e a mulher está grávida. Eles agradecem porque o filho é deles. Isto é um exemplo que eu adaptei ao livro, mas há muitos exemplos. Há muitas referências: por exemplo, a ilha das hermafroditas também é uma referência interessante, que eu apanhei num autor francês do século XVIII que situa essa ilha dos hermafroditas, curiosamente ao largo de Lisboa, sendo que é uma ilha móvel. É uma ilha que se vai movimentando. São coisas da literatura. Eu vivo na literatura, basicamente. É aí que eu vivo e tudo aquilo que eu li, de algum modo, vai-me surgindo. Tenho é de saber, através do meu estilo, através do modo como exponho as coisas, reinterpretar e dar-lhe uma vida sobre outras formas, mas nós não inventamos tudo ou quase não inventamos nada. É importante as referências aos meus antepassados, aqueles que escreveram noutros tempos. Eu gosto muito de literatura clássica – e quando digo clássica, digo grega, romana e também do período do principio do Cristianismo – leio muito essas coisas e acho que isso também influencia em muito a minha linguagem, porque até aos romanos, a Humanidade – sobretudo no Ocidente – colocou-se a ela mesma as questões todas, tanto do ponto de vista metafísico como político. No meu entender, é muito útil estudar a história de Roma, estudar a literatura romana e a filosofia, porque os romanos fogem ao lado mais metafísico e especulativo dos gregos e colocam-nos perante a prática: a honra, a inveja ou o respeito pelo outro. Tudo isso está no Séneca, está nos estóicos em geral. Está no Epicteto, está no grande Marco Aurélio. Isto é um lado. Por outro lado, também há um bocado a influência que me chegou da literatura e do pensamento chinês, que eu também estudo com alguma veemência. Na cultura chinesa fui encontrar algumas coisas que são semelhantes e outras que não o são, devido a uma concepção diferente do mundo que os chineses têm e que penso explorar no meu próximo livro talvez mais um bocado.

Pelo que dizias há pouco, este trabalho vai ter continuidade? Depois da inveja, que pulsão recôndita da condição humana te propões abordar?

CMJ: Estou um bocado indeciso. Tenho várias hipóteses e neste momento não sei ainda para qual irei avançar primeiro. Há um tema que me interessa particularmente, mas que pode ser um pouco árido neste momento, que é a apostasia. Interessa-me a mudança e interessa-me a história de um personagem português, que é o Cristovão Ferreira. Interessa-me esse personagem. Infelizmente o livro dele nunca foi traduzido para português. É um dos primeiros livros do ateísmo europeu, embora tenha sido escrito em japonês. Esse livro encerra uma série de argumentos e eu, as teses que eu li sobre esse livro, não concordo com nenhuma delas e interessava-me, não de uma forma filosófica ou ensaística, estar a discutir com os especialistas, mas sim, de uma forma mais romanceada, por isso em questão. Agora, como, ainda não sei exactamente. Tem de haver um trabalho preparatório da minha parte, tenho de fazer uma estrutura do romance, da história …

Seria uma espécie de resposta ao extremamente pio Silêncio, de Shusaku Endoo. Ou nem por isso?

CMJ: Exacto. Sinceramente, não gosto desse livro. Acho que ele também não percebeu o Cristovão Ferreira. Agora estou à espera de ver o filme do Martin Scorsese, mas do que eles não falam é dos nove anos que o Cristovão Ferreira passou em Macau e do que é que ele fez aqui. Passou aqui nove anos em que estudou profundamente a língua chinesa, a língua japonesa e sobretudo as obras de Confúcio. Na minha opinião, são essas obras de Confúcio que servem, basicamente, para argumentar contra a existência de Deus, a credibilidade da Igreja e até o próprio Cristo. Eu penso que é por aí que gostava de avançar, de ver como é que o contacto com uma outra cultura, com uma outra civilização, põe em questão os valores que tu transportas, da tua cultura – se calhar valores já em tensão, meios esgaçados devido à tristeza da prática – e ver como é que isso pode, no confronto com o outro, criar um movimento de desterritorialização mental que nos pode levar de uma crença à não crença, por exemplo. Para ser uma coisa bem conseguida, preciso de mais tempo e preciso de alguma reflexão e, sobretudo, de não ter mais nada para fazer, que é uma coisa que ainda me é difícil conseguir arranjar. Uma novela, um romance, devido à sua dimensão – não é um poema, que tu produzes num momento e está feito – exige tempo e disponibilidade mental. Isto é um processo menos intuitivo e, para atingir um grau de qualidade que te deixe satisfeito, obriga-te a um grande esforço de concentração e de mergulho nos personagens, nos ambientes, etc.

Temos finalmente o Carlos Morais José escritor a expulsar o Morais José jornalista ou editor da vida dele? Ou nem por isso?

CMJ: Espero que sim, sinceramente. Eu gosto de jornalismo, mas já fiz muito e neste momento não estou a fazer, basicamente. Dou umas orientações gerais, mas quem faz o jornal Hoje Macau são os outros jornalistas que lá trabalham. O jornal está numa época muito boa, temos pessoas muito profissionais e muito competentes e isso permite-me estar mais afastado. Desta vez tenho mais tempo para me dedicar àquilo que realmente gosto de fazer, que é ler, basicamente, e escrever.

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