Crítica

Mudar de pele

 

Sara Figueiredo Costa

 

maryjohn

 

Ana Pessoa tem escrito romances povoados por personagens juvenis, primeiro em O Caderno Vermelho da Rapariga Karateca, depois em Supergigante e agora neste Mary John. Se esse facto transforma o que escreve em ‘livros juvenis’ é discussão que não cabe aqui, desde logo por semelhante categorização não corresponder a uma definição contundente. Um livro juvenil é para ser lido por jovens? Os adultos não podem lê-lo? Os clássicos a que chamamos juvenis, de Huckleberry Finn a O Vento nos Salgueiros não são bons romances antes de serem qualquer outra coisa? Deixemos as categorias etárias para as livrarias e passemos à leitura, porque um livro é um livro e este é, para além disso, um bom livro.

Mary John tem a forma de uma carta e mantém essa estrutura do princípio ao fim sem nunca perder o ritmo. Nela, Maria João escreve ao Pirata, que também responde por Júlio, paixão antiga, de infância, e obstáculo aparentemente inultrapassável para o passo em frente exigido pela situação e pela idade. Depois de mudar de cidade, deixando para trás a escassa bagagem que compunha o seu mundo ainda reduzido, Maria João enfrenta a consciência de tudo ter feito para que Júlio correspondesse a essa paixão infantil, de esse tudo incluir o modo como construiu boa parte da sua identidade e de nada ter resultado no conto de fadas que sonhou para ambos. Num novo lugar, descobre o que nenhum adolescente parece querer descobrir se a tal não for forçado pelas circunstâncias: que há muitos modos de fazer avançar uma vida, nossa ou dos outros, e que os caminhos se vão trilhando mesmo que pensemos estar parados. Não há tentações de criar um retrato tipificado do que é ser adolescente no Portugal de hoje, nem discursos exemplares sobre a adolescência e as mudanças que implica, nem vestígios de qualquer moral disfarçada numa história. O que há é uma narrativa que cresce com a sua personagem, mostrando-lhe as fragilidades e as dúvidas, tanto como a vontade de assumir decisões. É um romance de crescimento, não no sentido mais preciso e codificado do bildungsroman, mas ainda assim assumindo-lhe algumas características, mesmo que concentradas numa fase breve da vida – assumida pela protagonista de um modo diferente, já que a passagem do tempo não se sente do mesmo modo ao longo da cronologia de cada um e Ana Pessoa sabe tirar dessa percepção o melhor dos partidos.

História de amor, assumida e sem complexos, esta é também uma das mais belas narrativas que se publicaram em português nos últimos tempos. A universalidade está lá, entre a praceta urbana e a vila do interior, porque a universalidade não se mede em geografias, muito menos em faixas etárias, mas antes na complexa escala das emoções, angústias e conquistas, derrotas e recomeços. Também lá está a consciência aguda daquilo a que chamamos condição humana, sem faltar o labirinto, os tropeções, os acessos de desespero e até a vontade momentânea de aniquilar uns quantos inimigos. Mary John é um grande livro e pouco importa saber em que secção devem os livreiros arrumá-lo. Os leitores que o merecerem hão-de saber encontrá-lo.

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