Crítica

Um amor muito grego

Hélder Beja

 

capailhasgregas

Se as ilhas gregas e o escritor pudessem ser amantes, dir-se-ia que o que Lawrence Durrell alcançou com este livro foi a mais bela declaração de amor. Mais que uma declaração, um dicionário e um tratado dos amantes.

As Ilhas Gregas inaugura a nova colecção de literatura de viagens da editora Relógio D’Água e vem etiquetado como tal, talvez até com precisão, não se desse o caso de a maioria daquilo a que hoje se chama literatura de viagens ter muito pouco que ver com literatura. Aqui, felizmente, isso não acontece.

Neste relato de mais de 300 páginas, o viajante toma a responsabilidade de tentar abarcar a imensidão de ilhas desse país-corpo estilhaçado, a Grécia. Para tal, chega à terra de Homero e Ulisses pelo “calcanhar de Itália, como se escorregasse por uma meia de Natal cheia de prendas”, com destino a Corfu. E se é verdade que o livro passeia por muitas das principais ilhas gregas – as restantes ilhas jónicas, Creta e a famosa Santorini, Rodes, Samos, Lesvos, Naxos e Paros, Salamina e muitas mais – também é plausível dizer que nenhum outro lugar entusiasma Lawrence Durrell como Corfu, a mais bela. Corfu tem os “criados mais amistosos de toda a Cristandade. Até nos pagam a bebida com prazer, se não tivermos dinheiro ou nos esquecemos de ter trocos” (pp23). Em Corfu, a luz é inigualável. Em Corfu, “levantamo-nos todas as manhãs para um novo dia, para um novo mundo, que tem de ser criado do princípio. Cada dia é um improviso brilhante com orquestra completa”. Em Corfu, “a alvorada grega põe as palavras em fuga e os pintores fora de jogo” (pp42). Claro que depois o livro avança por toda essa “antiguidade quase inimaginável da terra e da língua gregas”, pela mitologia e pela literatura, pela história e pela geografia dos lugares, mas o leitor, como o viajante, já ficou refém de Corfu.

Isto tem explicação: Lawrence Durrell, que nasceu no norte da Índia em 1912, filho de pai inglês e mãe irlandesa, muda-se com a família para Corfu em 1935, antes da II Guerra Mundial que o forçará a abandoná-la, e aí encontra as bases do seu edifício literário, bem como da longa amizade que manteve com o autor Henry Miller. As pessoas, os cheiros e sabores, a paisagem e, acima de tudo, uma sensação de estar-se fora do tempo, ou para lá do tempo, entre a história milenar de um povo e a ainda lenta chegada do progresso, fazem da Grécia um lugar mágico aos olhos de Durrell. Escreveu sobre o país em livros como Bitter Lemons e Prospero’s Cell; encontrou ali o fio da tetralogia que o tornou reconhecido enquanto escritor, O Quarteto de Alexandria; e viveu em Corfu anos marcantes da sua vida conjugal e familiar – o seu irmão mais novo, Gerald Durrell, escreveu My Family and Other Animals, livro muito apreciado que cristalizou esses anos passados pelos Durrell na ilha das ilhas, até à chegada dos nazis em 1940.

Além deste périplo grego com Durrell, a Relógio D’Água propõe nesta nova colecção que se rume à Catalunha com Homenagem a Barcelona, de Colm Tóibín. Seguir-se-ão Roma, de Nikolai Gógol; Paris – França, de Gertrude Stein, e Inverno no Próximo Oriente, de Annemarie Schwarzenbach. Tudo viagens que prometem.

Lawrence Durrell
As Ilhas Gregas
Relógio D’Água

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