Livros

A nostalgia num prato de minchi

 

no-tempo-do-bambuUm livro de Marisa Gaspar reflecte sobre a identidade macaense a partir dos encontros lisboetas de um grupo que vive longe da terra sem nunca de lá ter saído.

Quem são os filhos da terra? Não é esse o eixo central do trabalho de Marisa Gaspar, recentemente publicado pelo Instituto do Oriente, mas como qualquer análise sobre a questão macaense, é por aí que começa. No Tempo do Bambu é o resultado de um trabalho académico na área da antropologia e o seu objecto de estudo centra-se num grupo de macaenses habitando em Portugal. A partir das informações recolhidas junto desse grupo, Marisa Gaspar traça um percurso pelas questões da identidade, centrando-se no papel que a construção de uma memória comum assume nesse processo e nos modos como essa memória é construída colectivamente. O grupo, organizado em torno de uma associação informal denominada Partido dos Comes e Bebes, encontra-se regularmente à volta da mesa, em Lisboa, partilhando pratos da gastronomia macaense em festas que incluem música, dança e muita conversa, umas vezes sobre histórias antigas, outras sobre a melhor maneira de cozinhar o minchi. Com as notas e as informações recolhidas nesses encontros, e também em entrevistas individuais, a autora mostra como os processos de construção e afirmação de uma identidade não são lineares nem necessariamente baseados apenas em dados mensuráveis.

Antes de chegar ao Partido dos Comes e Bebes, Marisa Gaspar traça, então, os percursos necessários sobre a identidade macaense, sempre remetendo o leitor para as referências teóricas que lhe serviram de enquadramento. Identidade não é um tema simples e quem já perguntou a meia dúzia de pessoas diferentes o que é isso de ser macaense sabe que o mais certo é acabar com meia dúzia de respostas diferentes. O que é, afinal, a identidade macaense? Resposta difícil e com muitas curvas, às quais a autora não se furta ao longo deste livro, centrado numa comunidade macaense muito específica: «A comunidade que eu aqui estudo é a comunidade euroasiática macaense, ou seja, os indivíduos que descendem de uma mistura étnica sucessiva em Macau. Euroasiático quer dizer precisamente isso, uma mistura étnica entre europeus e asiáticos, e as misturas são muito variadas e sucedem-se ao longo dos séculos. A teoria mais aceite sobre a origem da comunidade defende que os portugueses chegam a Macau e instalam-se ali já com famílias oriundas da Índia, de Malaca e do Extremo Oriente. Seriam famílias de classe alta, ou pelo menos com um certo estatuto social, que dariam origem às chamadas famílias tradicionais. Por coincidência ou não, sendo que para mim não é coincidência, é precisamente essa teoria que as famílias tradicionais defendem para a origem da comunidade. Os cruzamentos com chineses aconteceriam muito mais tarde no tempo, talvez mesmo pelo século XIX, XX, não sabemos. De qualquer modo, não me interessava ir por aí, porque não sou historiadora, sou antropóloga e o que quis fazer foi um estudo antropológico e contemporâneo. Mas isto ajuda a dar uma imagem daquilo que as pessoas com quem falei me foram dizendo: o próprio parentesco é muito construído, guarda-se aquilo que se quer guardar para chegar a determinada ascendência e cortam-se ramos dessa árvore genealógica que possam não interessar tanto, como seria uma bisavó chinesa. E de repente, não se sabe nada sobre esse lado da família… Enfim, a mim interessava-me esta questão da construção e a ideia de uma mistura sucessiva entre indivíduos de origem europeia e asiática, que não se reduz de todo ao binómio português-chinês.»

A construção da identidade é, aliás, o eixo de No Tempo do Bambu e ainda que o seu foco esteja apontado aos elementos do Partido dos Comes e Bebes, o enquadramento que acompanha as informações recolhidas e a argumentação que decorre das observações feitas no trabalho de campo é um contributo fundamental para a discussão mais vasta sobre a identidade macaense. Como nos explicou Marisa Gaspar, «mais do que uma definição bio-antropológica ou genética, temos de perceber que a categoria ‘macaense’ tem uma definição muito ampla. De certo modo, os próprios macaenses ainda a procuram e isso também define a sua identidade. É uma definição muito plástica, adaptável às condições. Se antes a origem portuguesa e o vínculo europeu era muito forte, as definições que ouvimos hoje, e que eu ouvi quando falava com os meus informantes, têm muito mais que ver com uma questão quase sentimental, com o macaense a ser definido como uma forma de ser e de estar.»

O tempo e a sua passagem talvez ajudem a refazer muitos destes processos de construção identitária, e está por estudar, como nos disse a autora do livro, o papel que as gerações mais novas assumem neste processo em inevitável mudança. Apesar disso, há elementos constantes no modo como os macaenses se vêem a si próprios e se relacionam com a sua herança. A gastronomia macaense tem nos encontros do Partido dos Comes e Bebes um lugar de destaque, lugar esse que acaba por reflectir o seu papel em todo o processo identitário: «A comida é, de facto, a maior atracção das festas deste grupo, mas depois há o resto: o estarem juntos, o reencontrarem-se, partilharem as memórias que os unem, porque foram colegas de escola, frequentaram os mesmos bailes, os mesmos espaços. Esse é um vínculo muito forte no grupo e a nostalgia assume aqui um papel muito importante. Estas festas do Partido dos Comes e Bebes são mesmo um regresso ao passado, onde se cantam as músicas das bandas que eram famosas em Macau, na época, canta-se em patuá, é um ambiente muito nostálgico. E a comida assume uma importância central nesta nostalgia, porque não é só a comida, é o acto de comer, são os cheiros, a memória que vem com os cheiros. E é o facto de as pessoas estarem juntas a partilharem essa nostalgia.» O minchi pode já não ter o mesmo sabor que tinha há dez, vinte ou trinta anos, quando era cozinhado em casa da família, em Macau, mas o que faz dele uma porta de acesso a um passado comum e de boa memória continua a ser o ingrediente dominante.

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