Livros / Panorama

Os versos da língua comum

 

Sara Figueiredo Costa

1540-1Uma antologia da novíssima poesia brasileira chega às livrarias. São dezoito poetas dos mais distintos pontos do Brasil a darem conta da vitalidade e da diversidade de um panorama poético entusiasmante.

 

Folheando Naquela Língua. Cem Poemas e Alguns Mais percebe-se a dificuldade dos linguistas que dedicaram décadas ao mapear da variação dialectal num território tão grande e diverso como o Brasil. Não é que o livro publicado pela Elsinore se dedique à dialectologia, mas as linhas que sulcam esses velhos mapas, mostrando áreas isoladas, zonas de cruzamento e uma imensidão de traços tão heterogénea como o país que a alberga, bem podiam comparar-se com as linhas torrenciais que ajudam a traçar um quadro da poesia brasileira contemporânea. Na verdade, talvez não seja apenas um quadro, mas muitos: encontros, editoras de pequena ou média dimensão, revistas, sites, sessões de poesia nos sítios mais improváveis e muitos, muitos poetas.

A tarefa de escolher um grupo de autores da nova geração da poesia brasileira coube a Francisco José Viegas, autor e editor de uma outra casa, a Quetzal, que cumpriu na Elsinore o papel de cicerone desta imensa paisagem poética. O convite surgiu no âmbito da Festa da Poesia, uma organização da Câmara Municipal de Matosinhos produzida anualmente pela Booktailors. Como explicou Francisco José Viegas ao Parágrafo, esta é já a terceira antologia, depois de 100 Poemas para Salvar a Nossa Vida e 100 poemas sobre o Mar. «Até agora, todos os anos mudámos de editor – Quetzal no primeiro ano, Abysmo no segundo e Elsinore este último ano. E todos os anos escolhemos um tema… No primeiro, uma viagem pela poesia do nosso território: desde a tradição árabe e judaica até à modernidade, com António Botto para fechar. A única excepção era Jorge Luis Borges, cujo poema justifica o título (na verdade, o título é de Paulo Ferreira, da Booktailors). Depois, poemas sobre o mar – na tradição portuguesa. E este ano atravessámos o mar, fomos fazer uma ponte com o Brasil.» São dezoito poetas, ordenados alfabeticamente, cada um escrevendo na língua comum a que chamamos português e cada um reinventado o idioma à medida do seu ritmo e das suas imagens.

As dificuldades que tendem a surgir quando se trata de fazer uma antologia, nomeadamente as que envolvem a decisão sobre quem deixar de fora, que linhas literárias ou ideológicas privilegiar, que nomes são representativos desta ou daquela escola foram fintadas numa nota introdutória onde se assume que nenhum destes critérios serviu de base a este volume. No terceiro parágrafo dessa nota, lê-se: “Num meio tão atomizado e individualizado, em que cada poeta cria o seu próprio universo e linguagem (a poesia convive estreitamente com a solidão dos seus criadores), desenvolver um exercício de arrumação, estética ou até geracional, seria um ato de profunda arrogância e uma inevitável traição à diversidade de vozes que se apresenta neste volume.” Sem querer definir linhas, escolas ou afinidades, que critérios seguiu, então, o editor desta antologia? «Diversidade. Quer dizer, procura de diversidade temática e de diferentes formas de escrever. Há também poetas de origens geográficas diferentes – há uns anos seria impossível, pois o eixo Rio-S.Paulo seria completamente dominante, mas depois os autores do Sul (Florianópolis, Porto Alegre) começaram a impor-se e poetas de outros estados também ganharam projeção. Há uns anos, num país daquela dimensão, seria impossível um autor de Goiás, por exemplo, ter acesso à edição nacional. Com a internet essa barreira foi sendo demolida. Por outro lado, há uma ligação muito estreita entre poesia e música em alguns autores – foi uma das dimensões a que foi possível dar destaque.» Percorrendo os mais de cem poemas seleccionados, alguns deles inéditos até agora, confirma-se que essa diversidade é pedra de toque de Naquela Língua. Apesar disso, não deixa de ser possível reconhecer algumas linhagens, dos modernistas aos concretistas, do ritmo arrumado do samba ao grito desregrado do baile funk, ou de observar afinidades temáticas e poéticas. Diego Callazans e Maria Rezende parecem partilhar uma certa noção de ritmo, o verso anafórico em alguns fonemas, o uso do quotidiano mais íntimo como matéria poética (aqui, já partilhando outras afinidades, por exemplo com Laura Liuzzi). Roberta Ferraz e Luca Argel encontram-se nalguns versos atravessados pelo sarcasmo, quase disfarçado de cinismo. Tatiana Pequeno e Naiana Amorim trabalham no território da memória, convocando infância e passado para os gestos diários do presente. Outras leituras resgatarão outras ligações, claro, e desse modo se cumprirá a vontade expressa na nota introdutória de que cada leitor possa “encontrar as suas afinidades e implicâncias”.

Naquela Língua. Cem Poemas e Alguns Mais não é a primeira antologia publicada em Portugal da novíssima poesia brasileira, ao contrário do que se anuncia na contra-capa, mas no seu miolo guarda-se um panorama rico e plural do que hoje se escreve, em verso mais ou menos arrumado, no Brasil. Se compararmos esta antologia com uma outra, publicada em 2008 pela Exodus e intitulada Antologia de Poesia Brasileira do Início do Terceiro Milénio, curiosamente, também com dezoito poetas, percebemos facilmente o quão difícil seria arriscar uma escolha canónica, não só porque os cânones não se constroem no momento da criação, mas sobretudo porque a vastidão da produção poética brasileira de hoje é assinalável.

Colocando as duas antologias lado a lado, e apesar de apenas oito anos as separarem, não há um nome coincidente. O facto podia dever-se à quantidade e à diversidade de propostas existentes na novíssima poesia brasileira, ou às preferências estético-literárias de cada um dos seus organizadores, Cláudio Daniel, no caso da Exodus, Francisco José Viegas, na antologia da Elsinore. O editor desta última avança uma resposta: «Isto diz muito sobre a capacidade de renovação da poesia brasileira e sobre o aparecimento de novos autores. Em Portugal há poetas de cinquenta anos que continuam a ser considerados da “novíssima poesia portuguesa”, o que dá uma ideia da gerontocracia dominante. Os poetas portugueses que um dia foram considerados “novíssimos” nunca mais querem retirar o selo… Tenho pena que esses escritores não aceitem que envelhecem, que são mais velhos, que tenham prazer em envelhecer (como eu…) ou que, pura e simplesmente, aceitem a ideia de que os anos passem. No Brasil essa renovação é muito mais natural – e existe uma tal velocidade, com as novas plataformas de publicação, que é difícil repetir “poetas novíssimos”… O mais conhecido e, provavelmente, o mais maduro deles é Luís Maffei.»

Autor de três livros, todos publicados na Oficina Raquel, Luís Maffei integra Naquela Língua. Cem Poemas e Alguns Mais com um conjunto de poemas que talvez pudesse ser porta de entrada para esta polifonia poética onde o presente do Brasil ecoa em mundos distintos, convocando a música e a literatura para o mesmo terreno do Carnaval e do futebol, um Brasil que reconhece academistas e tropicalistas mas que parece mais interessado em indagar presente e futuro do que em viver repetindo os versos do passado. Se daqui a oito anos uma nova antologia procurar cartografar a poesia brasileira que então será novíssima, talvez nenhum destes nomes volte a surgir, porque certamente que das revistas que circulam pelo país, dos sites que alimentam a partilha e a discussão poética e das muitas sessões de leitura, em salas arrumadas ou no pó do ar livre, terão saído mais uma mão cheia de outros novos poetas para descobrir. Nessa altura, o cânone poderá começar a fazer balanços e a observar quem terá conseguido prosseguir o ofício poético a que se propunha. Até lá, resta-nos descobrir o que dizem estes dezoito poetas Naquela Língua.

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