Crítica

A Cidade Maravilhosa

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Sara Figueiredo Costa

O mais recente livro da colecção de viagens da Tinta da China é uma armadilha. Impossível lê-lo e dominar a vontade de apanhar o primeiro avião para o Rio de Janeiro, esperando desembarcar numa cidade maravilhosa que se apresente com todos os seus bairros e ruas ecoando cada uma das histórias que Ruy Castro conta enquanto traça uma biografia da sua cidade.

O Carnaval assume papel de fio condutor e talvez não pudesse ser de outro modo, já que tanto no Rio de Janeiro se liga à sua celebração. Não são apenas os meses preparatórios, que no caso das Escolas de Samba podem durar um ano inteiro, nem os dias de festa, mas coisas como a moda, a música, a relação dos cidadãos com o espaço público ou a política ligam-se umbilicalmente ao Carnaval. Uma das muitas histórias contada por Ruy Castro é a da tentativa de mudar o Carnaval para Junho, decretada em 1892 pelo Prefeito do Rio de Janeiro. O resultado foi um ano com dois carnavais, já que a população ignorou metade da ordem, celebrando em Fevereiro como todos os anos, aceitando apenas a outra metade, celebrando também em Junho. No ano seguinte, a ordem foi cancelada e, como conta o autor, “o barão do Rio Branco, pai da diplomacia brasileira, constatou divertido que, no Brasil (no Rio, ele queria dizer), só havia ‘duas coisas organizadas: a desordem e o Carnaval’” (pg.78)

A cidade contada por Ruy Castro recua ao tempo em que os tupinambá viviam sossegados, sem poderem imaginar que barcos vindos do outro lado do oceano trariam homens que mudariam para sempre a face do lugar (e, de caminho, haveriam de roubar, matar, escravizar, trazer outros homens e algumas mulheres, numa sucessão de factos que também fazem a história, não sem deixarem alguma vergonha pelo caminho). O autor não assume, ainda assim, um discurso de denúncia, dedicando-se antes a encontrar na linha dos acontecimentos os pequenos gestos que ajudam a definir uma espécie de identidade carioca. Nessa identidade cabe tudo, do conquistador aos índios, dos escravos trazidos de África aos filhos da miscigenação, dos europeus com poucos hábitos de higiene aos locais que não concebiam o quotidiano sem dois ou três banhos diários. É no detalhe que está o que interessa a um autor capaz de abarcar séculos e construir através deles uma linha narrativa absolutamente familiar, mesmo para quem nunca pisou o Rio de Janeiro ou sequer o Brasil. Ruy Castro escreve como se tivesse vivido tudo aquilo, não de um modo ficcional, como quem imagina acontecimentos históricos antiquíssimos e os recria em tom romanesco, mas antes naquele jeito muito próprio de quem ama uma cidade e lhe conhece as histórias de tal modo que o que aconteceu se transforma em parte da sua vida. Que essa parte inclua um Carnaval no qual participou, um boteco onde realmente já bebeu uns quantos chopes, ou a chegada da corte portuguesa ao Brasil entre fatos quentes e cabeleiras insuportáveis e as escaramuças entre tupinambás, temiminós, portugueses e franceses não faz qualquer diferença. Tudo é parte de uma história que o autor faz sua e a cronologia não tem como evitá-lo.

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