Poesia

Entre memória e futuro

 

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Sara Figueiredo Costa

Dez anos depois do seu último livro de poesia, Manuel Afonso Costa regressa com Memórias da Casa da China e de Outras Visitas (Assírio & Alvim)

As referências à cultura chinesa na poesia de Manuel Afonso Costa não são novas, tendo vindo a ganhar espaço num corpus a que agora se acrescenta um novo volume. No livro anterior, Caligrafia Imperial e Dias Duvidosos (2007), essas referências eram já notoriamente assumidas, reflectindo o interesse do autor e o seu percurso como leitor, conhecedor e também tradutor. Lembremos que é da sua autoria a tradução para português da poesia de Tao Yuanming, publicada em 2013 pela Livros do Meio, em edição bilingue. Depois de uma primeira fase vivendo em Macau, nos anos 90 do século passado, com passagem por Zhuhai e Hong Kong, Manuel Afonso Costa voltou a instalar-se no território em 2011, fazendo deste a sua casa. Percorrendo os poemas deste Memórias da Casa da China e de Outras Visitas percebe-se que esta vivência é um dos alicerces da sua poética actual. Ao Parágrafo, o autor explicou o papel de Macau nessa poética: “Macau tem exercido alguma influência na minha poesia, não por causa de Macau, propriamente, mas antes por causa da China, tanto literária como cultural. Macau tem sido, assim, a ponte para a China. Foi muito interessante ter vivido na China, assim como as viagens que fui fazendo. Além disso, a cultura chinesa, mesmo em língua portuguesa, está mais à mão em Macau do que em Lisboa e pelo facto de estar em Macau acabei por procurar noutras línguas, como por exemplo o francês, uma série de autores que provavelmente não procuraria. E há ainda o cinema chinês pelo qual me interessei muito, tanto o cinema do continente, como o de Taiwan e o de Hong Kong…”.

Dividido em cinco partes, ou cinco livros, se preferirmos, Memórias da Casa da China e de Outras Visitas começa com “Memórias da Casa da China”, um conjunto de poemas onde a cultura chinesa é topos central num diálogo com a paisagem, a religiosidade ou a filosofia, sempre a partir da poesia. Li Bai e Wang Wei são alguns dos nomeados entre versos aparentemente singelos na sua estrutura, mas onde uma leitura atenta detectará os paralelismos sintáctico-semânticos, o ritmo e as aliterações que caracterizam parte da poesia chinesa clássica. Seguem-se “E de Outras Visitas”, “Visitações Tardias”, “Por Velhos Caminhos” e “As Moradas Incertas: seus muros, seus descampados, suas vítimas”, cruzando-se invocações ao topos inesgotável do amor com temas que vão da memória à relação com a terra, passando por observações que os versos transformam em ecos universais. Sobre a organização do livro, o autor explica que não a premeditou: “De algum modo, não preciso de idealizar muito a estrutura dos meus livros, pois as obsessões são antigas, desde Os Limites da Obscuridade, publicado na Caminho. Antes de mais há uma dimensão fenomenológica muito relacionada com o quotidiano das diversas fases da minha vida, mais talvez o mundo rural que a cidade, por uma razão muito simples: a minha família ficou quase toda na aldeia em que nasci e eu voltava lá com muita regularidade. Esse reencontro nada tem a ver com dispositivos de enraizamento ou de uma saudade atávica pela ruralidade. Eu sou citadino, urbano e cosmopolita, mas as idas ao campo representavam uma espécie de reencontro com a essência existencial, e de certa maneira com o sagrado, e portanto ligavam com uma ideia de regeneração ontológica e isto por tudo, digamos assim: a escassez, a solidão, os ciclos vitais, a pobreza, a simplicidade, os rituais festivos, mas também o modo de habitar a casa, a mesa, etc.”

Um dos poemas da quarta parte, “Por Velhos Caminhos”, intitula-se “Agora só, numa certa esplanada em Coloane”. Nos seus versos, a memória apresenta-se sem saudosismo, um elencar de coisas que se foram agregando, pessoas, momentos, pequenos ou grandes episódios, dando forma à história de uma vida, e que são valorizadas por um sujeito poético consciente do presente em que habita e capaz de conviver com os seus fantasmas sem deixar de sentir plenamente o percurso que continua. O topónimo é uma referência explícita a Macau e à vivência do autor no território, e por isso mesmo o questionámos sobre a escolha de Coloane: “Nos anos 90 eu frequentava assiduamente Coloane. Era um escape bucólico, dentro do possível e à falta de melhor. Guardo muitas memórias sobretudo de Cheoc Van. Li muito e escrevi muito nas esplanadas de Cheoc Van.”

As referências transversais de Memórias da Casa da China e de Outras Visitas não são, no entanto, a China ou Macau, por mais que a sua presença se faça sentir abertamente. Onde a poesia de Manuel Afonso Costa firma os seus alicerces é na herança clássica mais abrangente, incluindo-se aqui os clássicos greco-latinos, mas igualmente a Bíblia (veja-se a referência a Amitai, pai do profeta Jonas), a tradição judaico-cristã e o seu cruzamento com as poéticas do Oriente mais próximo da Europa, a poesia chinesa clássica onde estrutura e semântica encontram paralelos com poéticas igualmente antigas. Não que esta seja uma poesia alimentada exclusivamente a referências eruditas. Pelo contrário, longe do mero laboratório ou do formalismo académico, Manuel Afonso Costa socorre-se de uma herança vasta, plural e cronologicamente extensa sem que isso silencie a sua voz e fazendo do diálogo com outras poéticas um ponto de partida para uma gramática própria, onde a relação com a terra e os seus ciclos assume tanta importância como a vivência urbana, uma certa flanerie, um deslumbramento pelo mundo enquanto coisa sem fronteiras ou descontinuidades.

Falando sobre a sua poesia e os temas que trabalha desde que começou a escrever, Manuel Afonso Costa refere a ligação à terra, àquilo a que chamamos natureza e que passa tanto pela matéria animal, vegetal e mineral como pelos ciclos do tempo e os efeitos que produzem. Nas palavras do autor, trata-se da “ própria dimensão telúrica da relação do homem com os elementos” e, sobre o modo como ela se reflecte neste livro e ainda a propósito de referências, diz o seguinte: “Na minha aldeia tudo me lembra os grandes paradigmas clássicos fixados pelos grandes poetas gregos e latinos (os latinos sobretudo), Os Trabalhos e os Dias (este contudo é grego, Hesíodo), o Beatus Ille, o Hoc Erat in Votis e a Aureas Mediocritas (de Horácio), as Bucólicas, mas sobretudo as Geórgicas, de Vergílio. Quando cheguei a Macau e fui à China emocionou-me o ver tão longe de casa a mesma singeleza e o mesmo espectáculo nobre de uma civilização agrícola, mas tudo se alterou bastante nos últimos anos…”

O bucolismo que alimentou a poética dos clássicos greco-latinos ou da poesia clássica chinesa já será difícil de encontrar entre o cimento e o asfalto que têm vindo a ocupar o solo e a paisagem, na China como em Macau. Apesar disso, a poética de Manuel Afonso Costa não vive do imediato ou do lamento pelo perdido e, sabendo olhar para a frente sem perder o apoio imprescindível do que ficou para trás, parece juntar num mesmo gesto tempos e geografias. Talvez por isso os ciclos da terra convivam, nesta poética, com a agitação da cidade, do mesmo modo que a memória se encontra sem conflito com o futuro. Entre mudanças de paisagem e de paradigma, parece ser o tempo e a sua passagem indiferente pelo mundo e por quem o habita a única coisa que vale a pena saber constante.

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