Entrevista / Rota das Letras/Script Road

A cidade paralela de Dorothy Tse

Sara Figueiredo Costa

Writer Tse Hiu-hang, photograhed for Macau Literary Festival.

Snow and Shadow é o primeiro livro de Dorothy Tse traduzido para inglês e nele se cruzam as sombras de uma Hong Kong feérica com muitos dos pesadelos da contemporaneidade, na China como em qualquer parte do mundo urbanizado.

Dorothy Tse é uma das autoras em ascensão no panorama literário de Hong Kong. Em 2005 publicou 好黑 /So Black, o seu primeiro livro, ao qual se seguiu 雙城辭典/ A Dictionary of Two Cities, em co-autoria com Hon Lai-chu, com o qual venceu o Hong Kong Book Prize. Convidada da última edição do Rota das Letras, trouxe aos leitores de Macau os contos reunidos em Snow and Shadow, um volume publicado em inglês pela Muse, que colige histórias dos seus dois primeiros livros e alguns inéditos.

Surrealismo, violência e um profundo sentido do absurdo marcam a escrita de Dorothy Tse. Os contos perseguem um formalismo cuidado, assente na relação entre o enredo e os modos menos óbvios de o fazer acontecer. Tal como explicou ao Parágrafo depois da última intervenção no festival literário de Macau, a autora não cultiva impulsos realistas na sua escrita, preferindo assumir aquilo a que chamamos realidade como um ponto de partida para reflectir sobre a nossa existência comum, sempre moldada pelo lugar onde vivemos e o modo como nos relacionamos com os outros. «Uma boa parte do meu trabalho é inspirado na vida quotidiana, às vezes em coisas que leio nos jornais, ou apanho por aí. Por exemplo, a história que li na sessão do festival, “Woman Fish”, foi inspirada numa fotografia, de um fotógrafo chinês que creio que se chama Lu Guang, se fixei bem. O trabalho dele aborda a poluição e as doenças que muitas pessoas têm, na China, por causa disso, e as fotografias mostram corpos com algumas deformações. Isso fez-me pensar no modo como os nossos corpos podem mudar e no facto de estarmos a atravessar um tempo que não nos deixa saber que tipo de alterações vai implicar no nosso corpo. E há uma história, “Head”, que nasceu de uma reflexão sobre a família e os valores tradicionais chineses. Para um pai, é muito importante que o filho lhe siga as pisadas, que cumpra as expectativas, e tentei transformar isso numa questão física, com um pai que faz tudo o que está ao seu alcance pelo filho, que não tem cabeça, chegando ao ponto de lhe querer dar a sua própria cabeça num transplante, fazendo dele uma extensão de si próprio. Não costumo escrever num modo realista, mas o que está à minha volta interessa-me muito. Creio que a ficção tem de criar um espelho, uma espécie de lugar utópico que nos permita pensar sobre o nosso próprio lugar no mundo.»

A violência como modo de reflexão

Apesar da elegância da escrita, de um trabalho delicado em torno das imagens e da sua capacidade semântica de descreverem ambientes e subtextos que não se verbalizam, os contos de Dorothy Tse são atravessados por uma violência explícita. Sangue, corpos amputados, agressões físicas, raptos e mortes violentas são elementos comuns nestas narrativas, mas não há nada de gratuito ou exibicionista nesta escolha. Cada situação é descrita com intensidade e contenção verbal em doses iguais, assegurando um efeito perturbador, que intensifica a relação entre personagens e sociedade de um modo capaz de mostrar as entranhas do mundo em que vivemos sem esquecer a velha máxima de haver mais entre o céu e a terra do que conseguimos explicar. Para a autora, o cuidado com a linguagem é central na sua escrita, mas é também a vertente menos controlada do trabalho que desenvolve. «É fácil planear um enredo, mas o trabalho da linguagem não se planeia. É algo que qualquer escritor quer explorar e eu dedico muito tempo à reescrita. Tento dizer menos, cortar. Se tentarmos dizer muitas coisas, os leitores recebem menos e parece-me que devemos deixar-lhes algum espaço, algum mistério, também.»

Entre mundos e idiomas

Várias línguas se cruzam em Hong Kong. O cantonês falado por parte considerável da população, o mandarim que vai ganhando terreno no número de falantes, o inglês deixado pela antiga administração, que permanece como uma das línguas oficiais. E depois todos os idiomas dos muitos imigrantes, sobretudo do Sudeste Asiático, mas também de geografias mais longínquas. Não é exactamente uma babel, mas a diversidade linguística é uma das características da cidade, sobretudo em certas zonas, de Mong Kok às Chunking Mansions. Para Dorothy Tse, essas muitas camadas idiomáticas são um elemento importante quando se trata de escrever. «Hong Kong é um lugar único em termos de língua, porque aquilo que dizemos quando falamos não é facilmente transponível para a escrita. Os diálogos são muito diferentes daquilo que conseguimos escrever. Quando leio as minhas histórias em cantonês, por vezes parecem-me estranhas, porque ninguém fala daquele modo… Em inglês ou mandarim, é mais fácil criar essa aproximação. Alguns escritores de Hong Kong têm tentado experimentar em torno dessa questão, colocando por escrito o cantonês falado no dia a dia, mas é um trabalho ainda muito experimental. Eu não tento fazer isso, porque me agrada a distância em relação ao quotidiano. Com as questões políticas entre Hong Kong e o governo da China continental, muitas pessoas tentam enfatizar a questão do cantonês, mas não creio que essa seja a única língua de Hong Kong a ter em conta e há outras línguas, nomeadamente o inglês, que afectam muito o modo como comunicamos. Toda a gente tem de falar um pouco de inglês todos os dias. Quando acompanhei a tradução do meu livro para inglês, isso fez-me pensar muito na relação entre as duas línguas. Há quem diga que o chinês falado no continente é mais elegante, na medida em que há um padrão a sustentá-lo, mas para mim não há diferenças. Essa ideia de pureza cria algumas fronteiras. Por exemplo, em Hong Kong, e agora falo apenas da língua da oralidade, há imensos vocábulos novos que são criados diariamente, e isso é algo que tem impacto na nossa forma de pensar e de usar a língua. Quanto às outras línguas presentes na cidade, nomeadamente o nepalês e o tagalo, a verdade é que não temos um contacto verdadeiro com elas, porque não fazemos qualquer esforço nesse sentido.»

A cidade e os seus fantasmas

O tecido urbano de Hong Kong e os diferentes ambientes das suas ruas e bairros surgem nos contos de Snow and Shadow de um modo subtil. Não há aqui referências toponímicas ou descrições coincidentes com aquilo que conhecemos do território vizinho, mas nota-se em muitos contos a presença discreta de um certo modo de habitar a cidade. «Há algumas histórias que se relacionam com espaços de Hong Kong, sim, mas não sigo um mapa. Na verdade, tenho um péssimo sentido de orientação. No entanto, há zonas da cidade que me permitem criar uma certa atmosfera… “Blessed Bodies”, por exemplo, reflecte muito a minha imagem de Mong Kok, uma zona muito associada à prostituição, aos gangsters, a uma certa violência. Não é que eu quisesse escrever sobre Mong Kok, mas quem conhece a área conseguirá vê-la nesse conto.» Seria diferente a sua escrita se vivesse em Macau? «Macau é muito pequeno e conseguimos chegar a toda a parte, mas Hong Kong é uma cidade grande. Muitos visitantes não passam da ilha de Hong Kong e mesmo alguns residentes estrangeiros que ali vivem, nunca passam para o lado de Kowloon. E esse lado tem outros ambientes, talvez mais intensos.» Em Snow and Shadow, esses ambientes ecoam em vários contos. No romance que a autora está a escrever neste momento, outras vertentes da cidade assumirão protagonismo, se o trabalho da escrita não encontrar, entretanto, novos rumos. «Comecei este novo romance em 2011 e é uma história sobre um professor e uma boneca de uma caixa de música. A história é passada em Hong Kong, mas a verdade é que estou sempre a alterar-lhe o rumo, talvez devido às próprias mudanças da cidade… Depois do movimento Umbrella, a sociedade mudou tanto que tenho de pensar um pouco no efeito que isso terá no romance.» De acordo com Dorothy Tse, as mudanças a que Hong Kong assistiu nos últimos anos foram muito grandes e alguns dos seus efeitos reflectem-se no modo como as pessoas encaram a sua vida enquanto cidadãs. «As pessoas sentem-se um pouco desesperadas. Depois das manifestações, houve alguns motins em Mong Kok e a ideia que fica é a de algum desespero, as pessoas sentem que não alcançam nada se forem pacíficas, o que é um problema… Há muitas coisas a acontecer. E depois há as reacções do governo chinês. E a imprensa, na qual deixámos de poder confiar. Há demasiadas pressões sobre os media tradicionais e, neste momento, é mais fácil perceber o que se passa lendo os novos media, criados na internet. É complicado e não sei dizer como será o futuro próximo.» De certo modo, é a mesma incerteza perante o futuro em que vivem muitas das personagens de Snow and Shadow. Realismo fora, resta-nos o que verdadeiramente conta na hora de escolhermos rumos e relacionarmo-nos com os outros.

(fotografia de Eduardo Martins/FLM)
Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s