Entrevista / Rota das Letras/Script Road

Memória e absurdo na cidade que não dorme

Sara Figueiredo Costa

Vencedor do concurso de contos Rota das Letras na categoria de língua chinesa, Loi Chi Pang afirma-se como uma voz a ter em conta no panorama da literatura de Macau

É a segunda vez que Loi Chi Pang vence o concurso de contos promovido pelo festival literário Rota das Letras, na categoria de contos em língua chinesa. Em 2013, o seu conto “Pequena Loja” foi escolhido e publicado no volume Dois Dará, editado no ano seguinte. Agora, foi a vez de “O Absurdo da Galinha”, uma história atravessada pela falta de sentido que pode surgir nas situações mais banais do quotidiano, mas também sobre o modo como as mudanças urbanísticas e sociais que vão moldando Macau interferem na vida dos seus cidadãos. Director do Museu de Macau, Loi Chi Pang tem com a cidade uma relação profunda, acompanhando as suas mudanças com o olhar crítico de quem conhece a história e as histórias que se guardam no território e que nem sempre são visíveis por entre o desenvolvimento urbanístico, a agitação dos negócios e a necessidade sempre urgente de conquistar mais terra ao mar.

Depois da entrega do prémio, que recebeu das mãos de Ana Paula Cleto, da Fundação Oriente, na última sessão do Rota das Letras deste ano, Loi Chi Pang conversou com o Parágrafo, deixando clara a relação entre a cidade onde nasceu e vive e a sua escrita. «Sendo Macau uma cidade pequena, as pessoas têm alguma dificuldade em expressar-se. À superfície, tudo parece muito calmo, normal, rotineiro, mas quando alguma coisa é desencadeada por algo aparentemente insignificante, as coisas pequenas e insignificantes alteram-se e transformam-se em algo absurdo. À superfície, parece tudo calmo, mas às vezes basta um gatilho.» É esse gatilho que vemos surgir logo no início do conto com que venceu o concurso, um momento de desvario protagonizado por Ming, que, no fim de um banquete de casamento onde tudo parecia ter corrido bem, ameaça o noivo, seu filho, com uma faca de cozinha. Ressentimentos, traumas e histórias mal resolvidas são, a partir daí, trazidas ao corpo do texto, mostrando a complexa teia de relações de família e o modo como a proximidade ajuda a cimentar o rancor. «Em cidades muito grandes, é mais fácil criar outro tipo de histórias, mas aqui, precisamente por causa da proximidade física entre as pessoas, é mais difícil expressarmo-nos. Por exemplo, haverá coisas que eu gostaria de dizer às pessoas que me são mais próximas, mas por isso mesmo penso duas vezes e acabo por guardá-las para mim próprio. Deste modo, expressamo-nos menos e habituamo-nos a achar que as coisas são todas normais, mas na verdade basta um pequeno motivo para transformar as coisas em algo absurdo.»

À medida que a discussão entre Ming e os diferentes elementos da sua família se desenvolve no conto, numa escrita onde o sarcasmo e o humor apoiam um trabalho de linguagem muito focado nas relações e nos equívocos que delas nascem, Macau vai ganhando espaço enquanto personagem omnipresente. O preço das casas, o desaparecimento de algumas tradições e a mudança acelerada da sociedade começam a imiscuir-se na discussão familiar:

O noivo bufou de desdém. “Pai, eu escutei-o durante anos. Dois mil dólares por metro quadrado era caro para si. Quatro mil por metro quadrado era caro. Seis mil por metro quadrado era caro. Bem, agora é nove mil por metro quadrado, e você considera demasiado. Eu sei que é caro, claro que sei, mas no futuro sê-lo-á ainda mais. Este é o Monte Carlo do Oriente, o parque de diversões do mundo, onde o dinheiro é gasto do pé para a mão. O pai ainda acha que este é o Macau de outrora.” Neste instante, o tempo parou. Certamente este não era o Macau que conhecíamos. Já não podemos ir às Ruínas de São Paulo porque estão cheias de turistas. Não podemos comprar um apartamento porque o sector imobiliário está descontrolado. Não podemos ser nada excepto impessoais porque os bairros ficaram mais complicados. Não podemos ser condescendentes com o comércio tradicional porque o que agora existe são cadeias de lojas … São demasiados ‘nãos’ que criaram um Macau que nos é estranho.

De certo modo, Loi Chi Pang revê-se nesta fala do noivo ameaçado: «Nasci em Macau, a minha família é de cá, por isso sou testemunha das enormes mudanças que a cidade tem sofrido ao longo dos anos. Sabemos que o tempo não anda para trás e isso traz um certo sentimento de impotência, no sentido em que não há muito que possamos fazer. O meu percurso profissional está ligado à História, por isso este tema das mudanças é algo que me interessa muito, esta ideia de mudança constante e de impotência perante o que muda, que só nos dá espaço para assistir, como se fôssemos fantasmas, e talvez registar o que se vai passando, mas nunca para interferir. Há alturas em que sinto falta das relações que se estabeleciam entre as pessoas no passado, mas actualmente essas relações são mais distantes, as pessoas estão mais isoladas, mesmo que continuem muito próximas fisicamente. O que tento fazer é escrever sobre essas mudanças e permitir que as próximas gerações saibam alguma coisa sobre como era a cidade e o modo de vida dos seus habitantes no passado. Através do que escrevo, e do que outras pessoas escrevem, podemos passar esse testemunho.» Entre a missão de não perder a memória e de com ela trabalhar pensando no futuro, sem saudosismos mas com consciência de que o passado tem de ser valorizado, Loi Chi Pang planeia continuar a escrever. E depois de “O Absurdo da Galinha”, não será muito arriscado dizer que o seu trabalho terá uma palavra a dizer no panorama plurilinguístico (e infelizmente com poucas portas comunicantes entre os diferentes idiomas) da literatura feita em Macau.

(na fotografia, Loi Chi Pang recebendo o prémio entregue por Ana Paula Cleto, da Fundação Oriente.Eduardo Martins/FLM)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s