Bibliotecas / Reportagem

Memória e futuro na Biblioteca do Patane

Elisa Gao e Sara Figueiredo Costa
Fotografias de Eduardo Martins

A nova Biblioteca Pública do Patane abriu as portas em Dezembro de 2016, recuperando um conjunto de edifícios devolutos, e já conta com uma média de 700 utilizadores diários.

Talvez haja quem ainda se lembre das lojas que aqui existiam, ocupando os pisos térreos destes sete edifícios com arcadas junto ao Porto Interior, na Rua da Ribeira do Patane. Construídos no início da década de 30 do século passado, os edifícios que hoje albergam a nova Biblioteca do Patane conjugam elementos arquitectónicos europeus e do sudeste asiático, revelando na sua estrutura a dupla função para que foram criados: espaços comerciais, no rés-do-chão, e residenciais, no primeiro andar. Com o passar dos anos, os seus habitantes socorreram-se de alguma criatividade arquitectónica para conquistarem o espaço que lhes faltava e algumas destas construções foram acrescentadas com um piso intermédio, irregular, invisível a partir do exterior e pouco firme, que foi naturalmente apagado nesta nova vida concedida a velhas casas. Os sete edifícios formam agora um complexo único onde a Biblioteca do Patane se instalou e a sua recuperação foi feita a pensar na nova função, a de acolher livros e leitores.

A História debaixo do entulho

RT Lam Kai Wun é engenheiro da Divisão de Estudos e Projectos do Departamento do Património Cultural e foi o responsável por coordenar a equipa que recuperou estes imóveis. As velhas casas dos anos 30 estavam muito danificadas, mas a estrutura mantinha-se firme e a decisão de aproveitar tudo o que fosse possível sobrepôs-se à hipótese de demolir e construir um edifício de raiz, como explicou ao Parágrafo: «Este lugar foi testemunha da prosperidade do bairro, com as suas lojas e armazéns. Recuperar um edifício antigo é melhor, porque se preserva uma história, uma memória. Foi por isso que decidimos manter tantos elementos dos edifícios antigos. Por outro lado, um edifício com estas características é mais acolhedor para as pessoas do bairro, que ainda têm memória dos edifícios antigos, do que seria uma construção completamente nova.» As escadas originais foram mantidas, assim como os soalhos, em todas as áreas onde isso foi possível. Quatro dos sete edifícios tiveram maior intervenção, porque a estrutura assim o obrigava, mas vários pormenores permaneceram, como a estrutura de ferro que servia para descarregar os produtos a partir dos contentores que chegavam de barco ao Porto Interior, e muitos elementos recuperados da demolição surgem agora no novo espaço. As portas originais destas casas foram colocadas nas paredes interiores e ainda que a cor original esteja algo sumida, o efeito de ligação entre passado e presente é notório.

O engenheiro responsável pelos trabalhos de recuperação não se esquece do aspecto do lugar quando começaram as obras: «O espaço estava devoluto há muito tempo e havia lixo por todo o lado. Tudo o que conseguimos fazer no princípio foi remover estruturas ilegais, que tinham sido acrescentadas aos edifícios originais, e retirar lixo. Tirámos 20 ou 30 contentores de lixo aqui de dentro. Nessa altura, as pessoas que passavam à porta apressavam o passo, mas quando o local começou a ficar limpo, começaram a aparecer para ver como era e as crianças do bairro estavam sempre aqui. Nesse momento as coisas tornaram-se divertidas.» Cinco anos e 26 milhões de patacas de investimento governamental transformaram um complexo devoluto e decadente numa biblioteca equipada com as mais modernas valências. Para além dos livros, elemento central, há periódicos, CD’s, DVD’s, salas para estudo em conjunto, computadores e espaços mais descontraídos, onde se pode comer e conversar sem preocupações com o ruído. E há, no exterior, um posto automático de recepção de livros que permite devolver os livros requisitados a qualquer hora do dia ou da noite. A sala de leitura infantil mereceu um cuidado particular na planificação, com estantes baixas e todos os livros à altura de uma consulta directa pelos leitores mais novos. A pensar na utilização do espaço por mães com bebés, destinatários de parte da programação cultural da biblioteca, há uma sala de amamentação e fraldário disponíveis.

Patane Public Library in Macau.

Nem só de livros se faz uma biblioteca

Na entrada principal, situada a meio do complexo de edifícios, os bancos de jardim são a primeira barreira entre o caos do trânsito lá fora e o silêncio venerando do interior. Há quem pare para descansar uns minutos, pousando os sacos de compras, mesmo sem chegar a entrar na biblioteca. Passadas as portas de vidro, não restam dúvidas que são muito mais os que entram do que aqueles que ficam à porta: num dia de semana e à hora de almoço, todas as salas tinham gente, da sala infantil à sala de leitura geral, passando pela zona dos periódicos, uma das mais concorridas da biblioteca. Elvis Lam Kin Seng, chefe funcional das Bibliotecas da parte Oeste de Macau, confirma a impressão que temos ao atravessar a sala onde se dispõem os periódicos: «Muita gente vem aqui para ler os jornais, especialmente leitores mais velhos. Às vezes, quando chegamos de manhã para abrir a biblioteca, alguns desses leitores já estão à espera.» São cerca de 80 títulos de jornais, incluindo a imprensa local de Macau, em chinês e português, e mais de 600 revistas sobre os mais variados assuntos, das generalistas às especializadas em música, literatura, gastronomia ou desporto.

Na sala de leitura geral, as estantes alinham-se de parede a parede em corredores paralelos. Elvis Lam Kin Seng explica que há cerca de 13.000 livros, para já, mas o fundo bibliográfico pode crescer nos próximos anos sem preocupações com o espaço disponível. No andar de cima, ocupando o piso superior de um dos edifícios originais, a sala de audiovisuais guarda cerca de 4.000 CD’s com música e DVD’s que registam filmes de vários géneros. Em escaparates colocados no centro do espaço, os bibliotecários seleccionam regularmente alguns destaques, acompanhando efemérides, épocas festivas ou temas que merecem atenção. Música e filmes podem ser requisitados e levados para casa, tal como os livros, mas quem preferir ouvi-los e visioná-los na biblioteca tem à disposição postos de som e imagem individuais. Quando é dia de exibir filmes para a comunidade, coisa que acontece duas vezes por mês, um écrã extensível abre-se sobre a parede e o espaço da sala preenche-se com cadeiras.

Lugar de conhecimento, mas também de memória

Desde que abriu as portas ao público, em Dezembro do ano passado, a Biblioteca do Patane tem recebido uma média de 700 leitores diários. Não é possível saber quantos desses leitores requisitam apenas jornais e revistas, ou quantos visitam a biblioteca para utilizarem os seus computadores, sem consultarem qualquer livro, mas há muito que uma biblioteca pública deixou de ser apenas um lugar onde se lêem livros. No Patane, para além de assegurar as muitas funções culturais e sociais previstas pela UNESCO no seu Manifesto Sobre Bibliotecas Públicas, a biblioteca cumpre ainda um papel patrimonial, mantendo com o passado do bairro uma ligação efectiva através da reutilização de um conjunto arquitectónico que o passar do tempo parecia ter condenado à ruína. No último andar do edifício, uma pequena janela em forma de elipse oferece uma panorâmica privilegiada sobre as águas e os barcos do Porto Interior. O engenheiro RT Lam Kai Wun explica que se quis manter essa abertura, criada a partir de uma pequena janela do edifício original, «para não se perder a ligação entre o edifício e a sua envolvente espacial». Para além do espaço, também o tempo se faz notar no complexo de casas transformado em biblioteca. Não são apenas as portas e janelas resgatadas do entulho e colocadas nas paredes, é também a preservação de alguns materiais, o aproveitamento de volumetrias pré-existentes e detalhes como uma parede cujo reboco final não foi aplicado, «deixando ver os tijolos da construção primitiva e permitindo perceber as antigas técnicas de construção.» De certo modo, é como se a biblioteca assumisse a sua missão de ser um pólo de transmissão de conhecimento não apenas a partir dos fundos bibliográficos que disponibiliza, mas logo a partir da sua estrutura arquitectónica, uma ponte entre passado e presente que deixa à vista partes de uma cronologia que será mais familiar para quem habita no Patane há várias gerações, mas que é parte integrante da memória colectiva de uma cidade.

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