Entrevista / Literatura Infantil e Juvenil / Livros

A máquina que constrói o mundo

 

Sara Figueiredo Costa

Em busca dos mistérios do cérebro, o pequeno órgão que nos define e nos individualiza, a Planeta Tangerina reuniu uma equipa de especialistas e criou um livro para todas as idades que nos ajuda a perceber melhor o que se passa Cá Dentro.

Um quilo e trezentas gramas é o peso do órgão que faz de nós aquilo que somos. O resto do corpo não será acessório, mas é no cérebro que estão as escolhas, as decisões, as dúvidas, e também os impulsos que nos fazem andar, correr, dormir, comer. Uma massa por onde correm 160 mil quilómetros de fibras nervosas e onde habitam cerca de 86 mil milhões de neurónios.

Há três anos, a Planeta Tangerina fez um livro sobre a natureza. Premiado em vários países, nomeadamente na China, Lá Fora propunha aos leitores que saíssem de casa e descobrissem o mundo natural, olhando para bichos, plantas, pedras, percebendo habitats, eco-sistemas e territórios. Agora, decidiu virar-se para dentro e entre as muitas hipóteses de criar um gémeo deste primeiro livro, do corpo humano ao centro da terra, escolheu o cérebro para tema de uma nova expedição. Cá Dentro, com autoria de Isabel Minhós Martins, Maria Manuel Pedrosa e Madalena Matoso (responsável pelas ilustrações) é um volume com perto de trezentas e setenta páginas onde se explica aos mais novos, mas também a todos os leitores curiosos, como funciona esse órgão sem o qual não existiríamos.

Nenhuma das autoras é especialista em ciências neurológicas. Isabel Minhós Martins é autora de vários livros e uma das fundadoras da Planeta Tangerina. Maria Manuel Pedrosa é consultora na área da Comunicação Para o Desenvolvimento Sustentável. Madalena Matoso é ilustradora e também fundadora da casa. Isabel Minhós Martins contou ao Parágrafo como resolveram a questão: «Tal como o Lá Fora também teve uma equipa grande de revisores científicos, aqui percebemos logo que não conseguíamos fazer o livro sem apoio científico, portanto criámos uma equipa e achámos que era interessante não ter apenas neurocientistas, mas também pessoas da área da filosofia e da psicologia, porque ia haver esse cruzamento, e fizemos esta equipa que nos acompanhou quase desde o princípio. Quando estávamos e estruturar o livro fizeram logo propostas.» Nas páginas finais de Cá Dentro, a equipa apresenta-se e ficamos a conhecer os neurocientistas, neurologistas, investigadores da área da filosofia, da neuropsicologia ou da educação que ajudaram a fazer desta edição um livro a ter em conta por qualquer pessoa, independentemente da idade, que queira perceber o funcionamento do cérebro e confrontar-se com a espectacularidade do que já se sabe sobre este órgão e com a imensidão do que ainda está por descobrir. Nas palavras de Maria Manuel Pedrosa, «foi assim uma espécie de loucura. Sentíamos que íamos embarcar numa viagem daquelas, por não sermos cientistas, tendo antes a experiência do lado da escrita e da comunicação pedagógica. Ao mesmo tempo, podia ser interessante esta visão de alguém que vai escavar não estando na área. O cérebro não é só objeto de investigação científica, também é de filosofia, poesia, quer dizer, as questões sobre como pensamos e sobre as emoções são muitas e isso podia ser a nossa mais valia.»

 

Cá dentro tens um cérebro.

Mas só sabes que tens um cérebro porque tens um cérebro cá dentro.

É com esta frase que abre a viagem pelo cérebro humano e fica desde logo definido o tom de um livro que se quer didáctico e rigoroso, mas onde as perguntas e as dúvidas também encontram lugar. Muitos livros didácticos e científicos pensados para os mais novos escorregam na dificuldade de apresentarem um tema sem cederem ao simplismo e sem perderem o interesse do leitor. A Planeta Tangerina tem tentado contrariar essa dificuldade, que começa logo na ideia do que deve ser um livro para leitores mais novos, como explica Isabel Minhós Martins: «Os álbuns ilustrados ou os livros de ficção para miúdos têm aquele peso de terem de trazer uma mensagem… Acho que foi por isso que começámos a fazer este tipo de livros informativos. Se queremos informar e falar de coisas que não são do domínio da ficção, então vamos fazer livros assumidamente de não-ficção, e aí temos mesmo o propósito de explicar alguma coisa. Em relação ao discurso, ponho-me no papel de leitora e o que quero é um discurso claro, conciso, sem palha, rigoroso e muito honesto. Só se escreve quando está tudo muito bem percebido. Depois há algum humor, que pode ser relevante, ainda que algumas coisas tenham sido refreadas neste livro, pelo facto de o tema ser científico e complexo.» Maria Manuel Pedrosa acrescenta a importância da dúvida: «Quisemos deixar perguntas e dúvidas no ar, o que dá um papel ao leitor. É importante que fique alguma curiosidade e que surjam dúvidas. Quase tudo é dado na escola com um ponto final e parece-nos importante que haja espaço para haver dúvidas e inquietações.»

No passado dia 12 de Maio, a Fundação Champallimaud, em Lisboa, acolheu a apresentação de Cá Dentro perante uma plateia de todas as idades, mas onde predominavam os mais novos. Vários dos investigadores que integraram a equipa de revisores do livro falaram sobre as suas áreas de estudo, as autoras contaram alguns dos desafios envolvidos na escrita e houve actividades e experiências científicas. Nesse momento, Isabel Minhós Martins confirmou a importância das perguntas que podem surgir a partir do que se explica e mostra nas páginas de um livro. «Quando falámos dos neurónios-espelho, que se activam quando reconhecemos uma acção alheia, houve um miúdo que me perguntou se esses neurónios também se activam quando vemos uma pessoa que está a fazer uma coisa que nós reconhecemos, mas que não está a sentir a mesma coisa que nós. Essa pergunta é a questão fundamental, porque a partir daqui começam todos os problemas da humanidade, os problemas de comunicação, os mal-entendidos…»

 

 

Imagens que se lêem

Um livro faz-se com todo o seu conteúdo e em Cá Dentro, as imagens são uma parte essencial do que se mostra e explica. Coube a Madalena Matoso ilustrar este enorme volume sobre o cérebro e o desafio foi criar imagens que complementassem o texto sem o repetir e, por outro lado, que conseguissem explicar algumas coisas que o texto não dizia. Isabel Minhós Martins conta que pediu à ilustradora que o livro tivesse alguma leveza e que as ilustrações tivessem algum humor. «A Madalena não queria nada cair na linha do cartoon, mas queríamos que os miúdos tivessem exemplos do quotidiano, que não fossem ilustrações abstractas. Depois houve uma camada mais artística, nomeadamente nos separadores, onde as imagens podiam ser mais livres, e nas partes onde há imagens dos miúdos numa situação que tem a ver com o tema. É uma terceira voz neste livro, sim, sem dúvida.»

A essa voz coube um processo de trabalho que partiu dos textos já concluídos para a criação de uma linha de imagens que mostrassem, complementassem e, em alguns casos, apresentassem exemplos do quotidiano onde se tornasse clara determinada funcionalidade do cérebro. No fim do livro, era preciso construir imagens rigorosas que dessem a ver os mapas do cérebro, o funcionamento dos neurónios e as suas transmissões, as caracteristicas físicas dos vários módulos que compõem este órgão do corpo humano. Madalena Matoso resume assim o seu trabalho: «Quando comecei a ler os textos estava a fazer texturas e outras experiências, sem ter muito definido o caminho por onde queria ir. Comecei a concretizar os desenhos ainda sem querer ilustrar nenhuma parte concreta e só depois é que comecei a pensar em cada tema. Queria fugir um bocado àquelas ideias habituais, o cérebro como cidade, como labirinto, e evitei ir para essas imagens. A parte final, dos desenhos mais técnicos, foi mais simples, mas as outras obrigaram-me a não ser redundante em relação ao texto. Como é um livro muito grande, convinha-nos usar só duas cores, para além do preto, e tecnicamente foi uma condicionante da qual acabei por gostar. E a ideia era criar imagens que transmitissem o conteúdo do texto sem o repetir e com alguns espaços em branco, no sentido de a imagem não explicar tudo, para ser complementada com a leitura do texto e com os pensamentos do leitor.»

 

Dos impulsos eléctrico-químicos à imensidão da natureza humana

O modo como crescemos, aprendemos, e agimos, os sentidos, a memória e a consciência, as emoções, a ligação com os outros e a experiência estética e criativa, tudo isso nasce e existe naquele quilo e trezentas gramas de massa que guardamos no interior do crânio. Ao longo deste livro, as autoras tratam de explicar cada um destes temas a partir do que se sabe sobre o funcionamento do cérebro, mas também tendo em conta o que conhecemos sobre a natureza humana. É aí que está parte do encanto de Cá Dentro, a capacidade de mostrar que somos feitos de impulsos electro-químicos sem que isso nos retire complexidade, interesse e espontaneidade.

«Acho que o que é brutal é que, apesar de sermos electricidade e química, somos aquilo que somos e isso não retira espectacularidade ao ser humano, pelo contrário. Como é que nós, com aqueles ingredientes que são substâncias e fenómenos físicos e químicos, conseguimos ser quem somos e sentir as coisas que sentimos? Isso é realmente espectacular. Está tudo no nosso cérebro e nas experiências emocionais que tivemos», diz Isabel Minhós Martins. E está quase tudo neste livro, pelo menos o tudo que era possível arrumar em trezentas e muitas páginas, porque nenhum destes temas é simples, como confirma a quantidade de literatura científica produzida diariamente sobre eles. Maria Manuel Pedrosa acrescenta uma outra vertente que foi essencial na definição dos temas de Cá Dentro: «Uma das coisas que quisemos que ficasse em destaque neste livro foi a ideia de que o nosso cérebro é social, precisamos dos outros para crescer. Por mais que isto seja matéria biológica e impulsos electro-químicos, nada disto floresce se não interagirmos. E depois há a ideia da aprendizagem até ao fim e a ideia de cada um de nós ser um ser único, com a sua memória e personalidade.»

Dissecar as diferentes funcionalidades do cérebro humano e explicá-las de um modo simples não terá sido tarefa fácil para as autoras, que tiveram de seleccionar muita informação e tomar algumas decisões sobre o momento em que deveriam parar. O cérebro é uma máquina complexa e sobre a qual sabemos muito pouco, pese embora todas as descobertas que vão iluminando o caminho das sinapses e a sua intervenção naquilo que somos e no modo como agimos. No capítulo dedicado à história do conhecimento sobre o cérebro, acompanhamos a evolução da ciência desde o Antigo Egipto ou a Grécia Antiga, onde se dava mais importância ao coração do que ao cérebro, até ao presente em que diariamente se produzem novos estudos neurológicos. Pelo meio, houve descobertas como as de Archiangelo Piccolomini, que no século XVI percebeu que havia matéria branca e matéria cinzenta no cérebro, ou de Thomas Willis, que no século seguinte defendeu que era o córtex o responsável por guardar as nossas vontades e memórias. E houve os séculos XIX e XX onde se sucederam as teorias, descobertas e invenções que permitiram desbravar caminhos pelo centro de um órgão tão misterioso. Parece que chegámos ao século XXI com uma quantidade tal de informação atestada sobre o cérebro que já pouco restaria por saber, mas nada está mais longe da verdade, como explica Isabel Minhós Martins: «Agora há muitos estudos feitos com aquelas ressonâncias magnéticas funcionais, que conseguem ver o cérebro a trabalhar no momento em que estamos a fazer alguma coisa. Dantes isso fazia-se com as pessoas imóveis, mas agora podemos estar a dançar ou a tocar violino enquanto a máquina nos ‘olha’ para o cérebro. Então, há muitas coisas na imprensa sobre o cérebro, como se agora já soubéssemos quase tudo, e já houve cientistas que vieram pedir alguma calma porque o cérebro continua a ter uma imensidão de coisas por saber.

Há uma boa imagem, usada pelos cientistas, que é esta: o que nós conseguimos saber sobre o cérebro é o equivalente a uma pessoa estar fora de um estádio de baseball, a ouvir os sons do que se passa lá dentro, sem saber as regras, como é o jogo, o que é uma bola, e tentar perceber as regras do jogo só pelos sons que chegam cá fora. A ciência também é isso, ir encontrado peças de um puzzle, percebendo onde se podem encaixar, que ligações se estabelecem para percebermos mais um bocadinho. Creio que as neurociências não são excepção, com imensa gente a descobrir várias peças do puzzle até ao dia em que se percebe um pouco mais. Acho que não haverá um dia em que já se saiba tudo, mas não sei…» Se esse dia chegar, Cá Dentro continuará a ser uma boa introdução para quem não faz ideia do que se passa nos quilómetros de fibra neuronal que nos definem e nos tornam únicos.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s