Crónica

Camilo Pessanha num quarteto

 

Amor

Você acolheu as rosas por engano e ficou com as mãos cheias de espinhos, em lugar de metáforas amorosas.

Sem amor, não tem onde ficar. Sem amor, deixou de amar a si próprio, de amar quem quer que seja.

Fez de si próprio um órfão, que não caberia no seu país. Portugal, um orfanato demasiado pequeno!

Partiu para o exílio, sonhando com aquela terra distante mas habitável para a alma. Não encontrou, porém, o lugar do ser senão a fragilidade do amor, ainda maior. Rodeado de corpos, nunca aconteceu o amor.

A realidade é um rato roedor do coração, a saudade é uma doença sem cura, e você, é o rei do Reino da Solidão sem rainha.

Mar

É um tremendo obstáculo. É o caminho mais vasto do mundo. Você optou por este caminho para escapar do seu país, para se despedir de si próprio.

Ondulando, as vagas a desabrocharem como flores brancas, tão brilhantes ao sol que lhe feriram os olhos. Então a noite caiu, cingindo-o.

E lá no céu, as estrelas, agarradas à escuridão como as unhas, para não caírem. Sente-se tão desabrigado no vazio da noite, e tão pouco na vastidão do mar.

O que você quer alcançar não passa de uma fonte, mas é o mar que está a gotejar pela sua clepsidra, como se fosse inesgotável lágrima.

 

Ópio

Uma vez que não alcançou a rosa, entregou-se ao cultivo da papoila, numa alma-terra sombriamente fertilizada pela tristeza. Deitado no leito, incendiou um ponto de partida, começando a tecer um caminho por meio de sinuosa fumaça.

Assim, ignorou o caminho do real. Assim, as cinzas serviram para remediar a ferida, profunda como se fosse o abismo. Assim, roubou a chave da serenidade por cinco gramas de ilusão.

Viver a vida é morrer um pouco cada dia. Viver a vida é morrer um pouco cada dia. Fumar a vida é desposar uma donzela bela e viciosa.

Poesia

Graças à poesia, você morreu sem a morte. Graças à poesia, você encontrou uma lâmpada para suportar o peso da sombra.

A poesia é o único que lhe resta, sendo uma possibilidade dentre as impossibilidades.

Pela poesia, subiu até à torre alta onde viu o rosto mais pálido do amor. Pela poesia, desceu até à cova deslizando como um verme.

Com a poesia, nunca pretendeu ter com a Musa mais sim para espelhar o seu Ser. Para si, a poesia é um refúgio, uma sombra, um afastamento, um caminhar solitário, umas núpcias hipotéticas… Enfim, é como quem na poesia encontra uma forma de luto.

 

Yao Feng

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