Reportagem

Navegar à vista entre letras e caracteres

Sara Figueiredo Costa

O I Fórum Literário Portugal-China aconteceu em Lisboa, no início deste mês, afirmando o início de um programa bilateral de tradução e edição de autores de ambos os países.

São poucos os livros de autores chineses traduzidos em Portugal. Nos últimos anos, é possível fazer uma lista onde cabem alguns volumes de poesia e uma mão cheia de romances, nem todos traduzidos a partir do original. Lu Xun, Li Shang-Yin, Anchee Min, Su Tong, Ma Jia, Mo Yan ou Yu Hua são alguns dos poucos autores que podemos ler em português. Juntemos a estes os livros que vão sendo traduzidos para português em Macau, com chancelas como o Instituto Cultural da RAEM, a Livros do Meio, entre outras, e ainda assim a lista continua a ser pequena. O inverso também acontece, ainda que a presença seja maior. Eça de Queirós é o autor português mais traduzido, de acordo com um estudo publicado pela revista Portu-Nês, dedicada aos estudos lusófonos na China. Seguem-se José Saramago e Fernando Pessoa. Traduções de Camões, Miguel Torga, Soeiro Pereira Gomes, António Lobo Antunes ou, mais recentemente, Gonçalo M. Tavares e José Luís Peixoto estão igualmente publicadas. E pela mão de Yao Feng, poeta e tradutor actualmente radicado em Macau (e colaborador deste suplemento), Camilo Pessanha, Eugénio de Andrade e Sophia de Mello Breyner Andresen tiveram os seus versos escritos em caracteres chineses.

Alterar esta realidade de modo bilateral foi o ponto de partida para a realização do I Fórum Literário Portugal-China, que aconteceu em Lisboa no passado dia 7 de Junho, nas instalações do Centro Científico e Cultural de Macau. A Associação Chinesa de Escritores (ACE) e a Direcção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas de Portugal (DGLAB) reuniram-se numa sessão pública que contou com as intervenções de seis escritores, três portugueses (Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares e José Luís Peixoto) e três chineses (Zhang Wei , Chi Zhijian e Su Tong), e de representantes da DGLAB, ACE e Embaixada da República Popular da China em Portugal. Como se lia no anúncio divulgado pela DGLAB, o fórum decorreu «no âmbito do Memorando de Entendimento entre a República Portuguesa e a República Popular da China no Domínio do Livro e da Literatura, assinado em 2015 em Pequim. Nele está previsto o apoio à divulgação recíproca da literatura chinesa e portuguesa, seja através do apoio à tradução de obras literárias, seja através da participação de autores no outro país.» Para além da sessão pública, que ocupou toda a manhã, o Fórum contou igualmente com uma reunião profissional entre os editores portugueses que quiseram estar presentes, a Associação Chinesa de Escritores e a DGLAB. Durante a manhã, no decorrer das intervenções dos escritores e, sobretudo, de Tie Ning, presidente da Associação Chinesa de Escritores, ficou expressa a vontade de ajudar a implementar este programa de apoio à tradução em Portugal, tendo igualmente ficado claro que, da parte dos autores e editores portugueses presentes, o momento era de descoberta perante um mercado editorial tão vasto.

A imensidão dos números e a barreira da língua

Contrastando com a pouca literatura chinesa que podemos ler em português, a China publica muitos milhares de livros todos os anos, entre reedições de autores clássicos e obras acabadas de escrever. De acordo com as estatísticas disponibilizadas pela State Administration of Press, Publication, Radio, Film and Television, e compiladas no relatório apresentado pelo German Book Office Beijing durante a última Feira de Frankfurt, sobre o mercado editorial chinês, em 2014 publicaram-se cerca de 448 mil títulos na China, 58% dos quais inéditos. Estes números referem-se apenas aos livros impressos (e registados, já que as edições à margem das editoras autorizadas são impossíveis de contabilizar), e não se limitam ao campo literário. De acordo com Tie Ning, presidente da Associação Chinesa de Escritores, os livros que podemos arrumar no âmbito da literatura andarão pelos 50 mil títulos anuais. No campo dos livros digitais, o mesmo relatório regista 1,6 milhões de títulos disponíveis em 2014 e, uma vez mais, os títulos exclusivamente literários são muito menos, com a Associação Chinesa de Escritores a referir 100 mil como número provável. O crescimento tem sido uma constante nos últimos anos, quer em termos de número de títulos publicados, quer ao nível do volume de negócios e facturação global. O mesmo relatório aponta para um crescimento global de 12.8% em 2015, valor que se mantém em linha com o verificado desde 2013 e cuja tendência aponta para um aumento nos próximos anos.

Su Tong

A juntar aos dados sobre o mercado editorial, importa não esquecer que o corpus daquilo a que podemos chamar literatura chinesa percorre pelo menos três milénios de uma cronologia rica e repleta de autores que cultivaram poesia e prosa, mas também ensaio, aforismos, notas de viagem e outras formas literárias. À vastidão desta literatura, que continua a escrever-se com novos autores e obras a surgirem a um ritmo difícil de acompanhar por parte de um mercado editorial proporcionalmente tão pequeno como o português, é preciso acrescentar a questão linguística. Ainda que o mandarim seja apontado como o idioma mais falado do mundo, e que o seu ensino esteja a expandir-se mundialmente a um ritmo notável, é seguro afirmar que a maioria dos editores portugueses, bem como dos leitores, conhece muito pouco do que se escreveu e escreve na China, e que esse desconhecimento se deve também – e talvez principalmente – à barreira da língua. Encontrar um tradutor de mandarim capaz de trabalhar um texto literário não é tarefa fácil e conhecer o que se escreve no original também não. De acordo com Guilherme Valente, da Gradiva, um dos editores presentes na reunião que decorreu durante a tarde do Fórum, «ambas essas realidades limitam a edição de autores chineses em Portugal. Mas ambas desaparecerão no futuro. Rapidamente, creio, pois o interesse pela língua tem crescido exponencialmente e, espero, que também o da cultura cresça finalmente.» Vasco David, da Assírio & Alvim, editora que já traduziu duas antologias de poesia chinesa, bem como um conjunto de poemas de Li Shang-Yin, resume assim as dificuldades de aceder à literatura da China e de a considerar no momento de definir que livros publicar: «A questão da língua e o facto de ser inacessível para o editor (para mim é, certamente) torna muito difícil ter um olhar atento sobre a literatura chinesa e uma escolha informada, e embora alguns autores nos cheguem a partir de traduções para outras línguas e nos entusiasmem, nem sempre é fácil encontrar alguém que ofereça garantias de estar à altura para fazer a tradução. Julgo que também não existem tantos tradutores assim, pelo menos com competência para traduzir um poema, que requer sempre uma sensibilidade especial e um grande conhecimento das línguas de partida e de chegada.»

Consciente desta realidade, que não é exclusiva de Portugal, há já algum tempo que o governo chinês vem mostrando interesse em quebrar as barreiras que impedem tantos leitores de aceder à literatura produzida no seu país. Numa notícia recente da Publishing Perspectives, ficou a saber-se que os responsáveis pelos assuntos culturais do governo chinês estão a trabalhar com a Amazon e a Over Drive (distribuidora e biblioteca de livros digitais) na criação de uma revista que divulgue a literatura chinesa junto dos leitores de todo o mundo. Nessa notícia, um dos responsáveis por este trabalho de promoção, Zhang Yuchen, explicava que era chegada a altura de a literatura chinesa deixar de ter um papel tão discreto no cenário literário internacional, anunciando que o primeiro volume da revista apresentará 40 obras de autores chineses, entretanto traduzidas para inglês, aos leitores, esperando-se que mais traduções de livros chineses comecem a chegar às livrarias internacionais. Independentemente desta vontade expressa pelas instituições chinesas, a formação de editores capazes de trabalharem com textos literários não é um processo rápido e a implementação de um programa deste tipo terá sempre de ser considerada como um projecto a ser concretizado a longo prazo.

Dulce Maria Cardoso

O primeiro passo de uma longa caminhada

Os seis escritores presentes no Fórum Literário Portugal-China falaram ao público sobre o seu trabalho e o modo como encaravam o ofício da escrita. As intervenções pautaram-se pelo registo habitual em festivais literários, com algumas trocas de comentários entre autores chineses e portugueses, quer a propósito das respectivas origens culturais, quer sobre leituras partilhadas por alguns dos autores, como aconteceu com Chi Zhijian quando referiu o facto de ter lido alguns dos livros de Gonçalo M. Tavares em chinês (da série O Bairro). O tom geral do Fórum foi, no entanto, mais institucional, com a Associação Chinesa de Escritores e a Embaixada apresentando o seu propósito de incentivar a edição de autores chineses em Portugal e os representantes das instituições portuguesas, Silvestre Lacerda, da DGLAB, e o Ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, manifestando interesse pelo avanço concreto deste programa de apoio à tradução. Presente apenas na sessão de encerramento da vertente pública do Fórum, o Ministro da Cultura insistiu na ideia de a literatura chinesa ser ainda um território desconhecido em Portugal e declarou que foi «para começar a colmatar e a combater esta carência que se fez este fórum. Espero que tenha contribuído para estreitar relações e espero que tais pontes nos aproximem cada vez mais uns dos outros». Por parte das autoridades chinesas, essas pontes podem estreitar-se já no próximo ano, com a realização de um segundo fórum, desta vez na China.

A presidente da Associação Chinesa de Escritores, Tie Ning, explicou ao Parágrafo que «nos últimos 30 anos, depois da abertura da China ao mundo, os escritores chineses têm tido intercâmbios com escritores de vários países, mas com os países de língua portuguesa esse intercâmbio praticamente não existe. Temos todo o interesse em ter mais contacto com escritores portugueses e publicar obras de escritores chineses em Portugal e noutros países de língua portuguesa.» Sobre medidas concretas, Tie Ning disse que «o Governo chinês tem vários tipos de apoio, nomeadamente financeiro, para tradução de obras literárias, mas mais importante é haver vontade, algo que ficou patente esta manhã, durante o fórum.» Já depois do Fórum, Maria Carlos Loureiro, da Direcção Geral do Livro, dos Arquivos e Bibliotecas, fez um balanço positivo deste encontro, acreditando que «o interesse entre ambas as partes do Fórum é real e virá a dar frutos. Foi uma primeira abordagem, sem grandes custos para a DGLAB, já que a Embaixada da República Popular da China e o Centro Científico e Cultural de Macau foram parceiros inexcedíveis, só tendo nós de agradecer todo o apoio financeiro e logístico.» Sobre a reunião que juntou alguns editores portugueses, a Associação Chinesa de Escritores e a DGLAB, Maria Carlos Loureiro explicou que «ficou decidido que a DGLAB fará inicialmente a ponte entre os editores presentes e a Associação, já que é ela que dá os apoios à tradução de autores chineses no estrangeiro. A Associação ficou ainda de nos encontrar o melhor contacto com a State Administration of Press, Publication, Radio, Film and Television, uma espécie de Ministério para as Artes que regulamenta o sector e dá alguns apoios para a edição na China.»

Para os editores, esta reunião terá sido um momento de prospecção. Cecília Andrade, editora da D. Quixote, disse ao Parágrafo que o encontro poderá servir para abrir portas no futuro, mesmo que, a curto prazo, não esteja nos planos da D. Quixote editar qualquer autor chinês. «Sobretudo, ficámos a saber que há disponibilidade para apoiar a tradução de autores chineses em Portugal e isso é algo que iremos acompanhando.» Também João Rodrigues, da Sextante, não prevê a edição de autores chineses nos próximos tempos, reservando para o futuro possíveis consequencias práticas deste encontro: «A reunião foi sem dúvida interessante, mas foi também apenas a primeira, um primeiro passo, uma espécie de apresentação de alguns desejos e problemas para um possível relacionamento futuro. As duas instituições, DGLB e Associação Chinesa de Escritores, apresentaram as possibilidades de apoio de cada parte à tradução e publicação mútua de autores dos dois países.» Já Guilherme Valente, da Gradiva, confirmou a possibilidade de publicar brevemente um dos autores chineses presentes no Fórum, descrevendo a reunião como «muito agradável, com uma grande cumplicidade, como são sempre os encontros com os nossos amigos chineses, e muito útil. Estou convencido que tudo irá avançar.»

Havendo autores chineses cuja publicação não é permitida na China, uma das questões relevantes sobre o programa de apoio à tradução literária apresentado pela Associação Chinesa de Escritores é a de saber que autores poderão ver os seus livros traduzidos em português. Se uma editora quiser traduzir autores como Ma Jian, Liao Yiwu ou Murong Xuecun, por exemplo, todos eles com publicação proibida na China continental, poderá beneficiar deste apoio financeiro à tradução? Quem responde a essa pergunta, que colocámos à Associação Chinesa de Escritores, é Zhang Tao, Diretor-Geral do Departamento Internacional da ACE: «A partilha literária entre escritores de diferentes países tem como base a leitura das suas obras. Este é o passo mais importante para se compreender a literatura de qualquer país. Assim, todos os autores chineses poderão ser traduzidos. Há muitas formas de apoiar a sua tradução, através de editoras, de candidaturas individuais ou de organizações. Se uma editora portuguesa quiser traduzir e publicar autores chineses, pode dirigir-se a nós para mais informação, se precisar de apoio. Na Associação Chinesa de Escritores temos programas de apoio à tradução de autores chineses por tradutores de outros países.» Aos editores presentes na reunião profissional deste Fórum Literário Portugal-China, nenhuma restrição foi imposta. João Rodrigues, da Sextante, explicou ao Parágrafo que «apesar de virem na delegação chinesa alguns poucos autores (um deles já editado em Portugal) não foi feita promoção específica de nenhum autor. E não pareceu haver qualquer limitação na escolha de quem será publicado. As candidaturas de apoio futuras que os editores portugueses vierem a apresentar através da Embaixada em Lisboa é que nos mostrarão os caminhos que podem ser seguidos e os critérios para os apoios.» Estão, por isso, abertas as portas para um caminho que se prevê longo, se pensarmos na tradução directa a partir do mandarim, mas que poderá ser abreviado se as editoras portuguesas optarem pela tradução através de uma língua intermediária. No sentido inverso, tudo indica que mais autores de íngua portuguesa possam começar a ser traduzidos no imenso mercado editorial chinês. De uma forma ou de outra, a vontade de divulgar a literatura chinesa em Portugal e de conhecer melhor a literatura portuguesa na China ficou claramente expressa na sequência deste primeiro Fórum Literário Portugal-China. O futuro próximo mostrará de que modo se concretizam as intenções dos editores e instituições que o integraram.

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