Editorial

Parágrafo #19

Num livro de Madeleine Thien recentemente publicado em português pela Relógio d’Água, Não Digam Que Não Temos Nada, a narradora confessa o seu mal-estar perante a incompreensão do que genericamente designamos por língua chinesa (chamemos-lhe assim por comodidade, sabendo que a designação é imprecisa e tumultuosa). «O meu pai falava mandarim e a minha mãe cantonês, mas eu só era fluente em inglês. A princípio, o puzzle da língua chinesa tinha-me parecido um jogo, um prazer, mas a minha incapacidade para a compreender começou a incomodar-me.» (pg.13). O incómodo terá, neste romance, uma dimensão relevante, que ganhará peso ao longo da narrativa, mas na essência não difere da realidade da maioria dos leitores deste jornal, em Macau ou em Portugal. Entrar numa livraria chinesa pode ser, mas tantos de nós, um tormento comparável ao da preguiça da fábula, que morreu de sede com a água mesmo ali à beira. Milhares de lombadas e nenhuma forma de as decifrar. Certamente poderíamos descrever a mesma situação numa livraria indiana, japonesa ou marroquina, mas é no espaço entre os idiomas falados em Portugal e na China que nos movemos e é aí que a falta de comunicação mais nos pesa. No espaço editorial de língua portuguesa, conhecemos pouco da literatura chinesa. O inverso será igualmente verdadeiro, mas proporcionalmente menos pesado, apesar de tudo. Em Lisboa, o I Fórum Literário Portugal-China propôs um primeiro passo para eliminar esse abismo literário, apresentando um programa de apoio à tradução que quer colocar os editores portugueses a publicarem livros de autores chineses. O tempo será um obstáculo, certamente, mas a História e a Filosofia – e a Física, também – há muito confirmaram que o tempo é relativo. Para já, são poucos os autores chineses traduzidos em português. Daqui a alguns anos, veremos se a situação se alterou, e como.

E por falar em tradução e navegações entre línguas, a crónica de Yao Feng fala, este mês, sobre isso mesmo. Não foi combinado, mas não deixa de ser uma coincidência feliz ler as palavras de um tradutor dedicado a traficar versos e prosas entre o português e o chinês quando divaga sobre as dificuldades de encontrar o vocábulo certo para descrever um estado de alma. Há quem goste de acreditar que só em português existem saudades, como se os outros povos não sentissem a falta de quem gostam… Mergulhar nas tortuosas veredas da tradução, independentemente das línguas de partida e chegada, confirma a cada passo que a maldição de Babel não é exclusivo de um só idioma, ainda menos de uma só palavra.

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