Entrevista

Isabel Valadão em entrevista: “Foi o papel da mulher chinesa que me interessou”

Hélder Beja (texto e fotografia), em Lisboa

Depois de vários títulos sobre os muitos anos passados em Angola, a escritora Isabel Valadão decidiu situar o seu novo romance em Macau. O Rio das Pérolas nasceu da curiosidade e das experiências acumuladas por esta mulher que viveu no território durante a década de 1980. A condição feminina é o grande tema que atravessa o livro.

Amor, guerra, vício, sexo, ópio, religião, etnias, costumes e famílias atravessam as páginas de O Rio das Pérolas (Bertrand), de Isabel Valadão. A autora – natural de Paço d’Arcos, mas que chama casa a Angola, onde viveu desde os seis anos até à independência daquele país – decidiu apontar a caneta a Oriente e escrever sobre a cidade onde viveu entre 1983 e 1986.

Narrativa sobre “o papel subalternizado da mulher” na sociedade chinesa, O Rio das Pérolas segue os destinos de Mei Lin e Luísa, duas raparigas que farão percursos muito diferentes numa cidade atravessada pelos resquícios da II Guerra Mundial. À distância de muitos anos e quilómetros, Isabel Valadão conta que foram as leituras acumuladas a ajudar na construção da Macau que encontramos no livro, cidade à qual nunca regressou mas que nunca esqueceu.

Comecemos por falar de Macau. Esteve lá na década de 1980. Como e por que motivo foi parar ao território?

Isabel Valadão: Estávamos aqui em Portugal e as coisas começaram a correr um bocado mal no negócio do imobiliário, que era onde o meu marido se movimentava. Tínhamos em Macau um amigo, que tinha sido director da revista Notícia [de Angola]. Falámos com ele e do pé para a mão fomos até Macau. Chegámos e lá nos ambientámos. Foi difícil, a princípio, era completamente diferente. A nossa ideia era ‘pronto, África acabou mas há-de haver qualquer coisa que seja parecida com África, a extensão de África, porque isto aqui em Portugal é tudo completamente diferente, as pessoas são todas diferentes’. Fomos à procura de outro género de vida. Esse amigo, o João Fernandes, era director do Jornal de Macau, do Carlos Assunção, nessa altura, e foi fácil conhecermos o meio, especialmente a comunidade macaense, porque o Carlos Assunção era o tubarão da comunidade. Começámos a ter muita vida social. Durante o tempo em que lá estive, andei muito por Macau, atraía-me aquela cultura diferente. Por outro lado, faziam-me confusão aquelas coisas que os chineses tinham, de cuspir para o chão e de nas filas dos correios passarem e irem logo direito ao balcão. Havia uma situação difícil de equacionar… mas gostei. Nós chegámos talvez em Julho de 1983 e em Setembro apanhámos logo o primeiro tufão, o Ellen, que foi uma coisa memorável. Estávamos no nono andar de um edifício de 18 andares, ao pé da Igreja de São Lourenço, e nesse dia só víamos o edifício fazer assim [leva as mãos a um lado e ao outro] e pensávamos ‘Vamos cair! Vamos cair!’. Foi realmente uma experiência muito forte. Tudo isso, juntamente com as leituras que fui fazendo posteriormente, ajudou-me. Tenho uma amiga que também é escritora, a Manuela Gonzaga, e que tem toda a colecção da Revista de Cultura do Instituto Cultural de Macau, e emprestou-ma. Fui lendo, lendo, e também na internet, as coisas do Henrique Senna Fernandes… Fui lendo e formando ideias. Estive lá nos anos 1980 mas não era sobre essa altura que me interessava ler. Fui sempre para trás e interessava-me apanhar a fase da guerra, que é muito curiosa – a guerra ali à volta e Macau era o oásis, só que cheio de refugiados.

Disse noutra ocasião que houve um artigo de antropologia da Revista de Cultura, sobre o papel da igreja e das ordens religiosas na vida das crianças órfãs, o papel subalternizado das mulheres e o papel das famílias luso-chinesas, que a interessou muito. Foi esse o ponto de partida para esta história de O Rio das Pérolas?

Devo confessar que encontrei um artigo de antropologia de um professor de uma universidade americana, exactamente sobre a miscigenação, as órfãs, as chamadas ‘noivas portuguesas’, o destino da maior parte das crianças chinesas do sexo feminino, que não eram bem aceites e que por isso eram abandonadas ou coisas piores. Tudo aquilo me começou a despertar um grande interessa e disse: ‘Vou falar sobre isto, vou contar uma história sobre isto’.

Referiu que, quando foi para Macau, procurava alguma coisa parecida com a sua experiência em África, porque Lisboa e Portugal eram muito diferentes. Encontrou o que procurava?

Encontrei uma coisa completamente diferente. Quero dizer, encontrei também uma vida diferente da metrópole, de Portugal. Encontrei uma cidade onde o género de vida das pessoas atraía. E depois aquelas três comunidades – chinesa, macaense e portuguesa – todas muito elitistas, muito indiferentes umas às outras, difíceis de penetrar umas nas outras…

Conheceu pessoas importantes na estrutura social de Macau, como Carlos Assunção. Que memórias tem dele?

Era um homem muito simpático e elegante, extremamente educado, mas tinha lá no íntimo aquela faceta oriental. A mulher dele era totalmente europeia, médica, mas era uma família macaense muito engraçada, muito típica. Recebiam muito bem e, como íamos através do João Fernandes, fomos também bem acolhidos. Guardo dele uma boa recordação.

Começando a entrar no livro, a Isabel decide recuar 40 anos face à experiência que teve em Macau. Esta opção deve-se à vontade de situar a história na época da II Guerra Mundial ou há outros motivos?

Não só por causa da guerra, porque vi também os anos 1930, comecei a ver como tinha sido Macau naquela altura, e comecei a interessar-me de facto pela história de Macau naquela época. Fui, é claro, muito mais atrás, mas depois foi sobre aquela época que decidi trabalhar e onde me senti mais à vontade com as leituras que fazia e o conhecimento que tinha de Macau. Por exemplo, eu não conheço a Macau de hoje, mas tenho a certeza de que, na Macau de quando lá estive, bastava andar pelas ruas para se tomar o ambiente de anos atrás, do período anterior.

E em relação ao submundo de Macau que descreve, como investigou para escrever sobre isso?

Li muito sobre o ópio e as guerras do ópio. Já tinha lido o Tai-Pan, gosto muito de James Clavell, d’A Casa Nobre também. Comecei a ler e interessei-me mesmo por saber como aquilo era, porque de facto quando lá estivemos havia um edifício na [Avenida de] Almeida Ribeiro que me disseram que era um fumatório, e é o fumatório que eu ponho no livro. Depois, há a Rua da Felicidade, que atrai qualquer um. Comecei a ler sobre as meninas, sobre as ‘pei-pa-chai’, e fui trabalhando as histórias.

Maria (Mei Lin) e Luísa, as duas personagens centrais de O Rio das Pérolas, têm pontos de partida semelhantes mas destinos bastante diferentes. Uma é rebelde, a outra submissa. Uma vive uma existência errante e ligada ao submundo de Macau, a outra recebe uma educação formal e religiosa, aguardando por um casamento que há-de vir. Como lhe surgiram estas duas personagens?

A Mei Lin, a mais rebelde, surgiu logo. Foi a heroína que eu escolhi e tinha de ser assim. Tinha de passar pela Casa das Flores e ser uma flor dessa casa. A Luísa surgiu porque, quando comecei a ler sobre as ‘noivas portuguesas’, era de facto o perfil dela. Ela esteve no colégio, era muito boa a fazer bordados, era uma menina muito prendada, que depois acaba por ter o destino normal dessas raparigas, que ou vão para uma casa de família servir ou são perfilhadas, e depois acabam por casar dentro da comunidade macaense. Ela também me surgiu quase logo no início, como filha de uma prostituta.

Numa entrevista disse: “Meto-me na pele das minhas heroínas, para construir a trama e o ambiente”. Foi fácil meter-se na pele de duas mulheres tão diferentes e ambas chinesas?

Faço esse exercício muito bem. Vou imaginando como é que seria, o que é que faria agora? Sou rebelde? Vou fugir do convento? Vou para onde? O que me vai acontecer? Já com os meus romances históricos sobre Angola, fiz o mesmo. As minhas heroínas, no primeiro [Luanda – Escravas, Donas e Senhoras], eram uma degredada e uma dona; e no segundo, Angola – As Ricas Donas, eram duas donas reais, a famosa Dona Anna Joaquina dos Santos e Silva e Dona Anna [Francisca Ferreira] Ubertaly. Para eu criar, tenho realmente de fazer como se estivesse na pele delas.

Neste caso com a dificuldade adicional de serem duas mulheres chinesas, com uma cultura que não é a sua.

Sem dúvida, uma cultura que não é a minha. Mas para isso, como li muito, fui retirando daí as suas idiossincrasias. Não me abalancei muito a meter-me na pele de uma pessoa chinesa, tal e qual. Aquilo que acho que seria normal acontecer, foi a história que decidi criar.

Este é um romance que trata muito da condição da mulher, como aliás já acontecera em algum do seu trabalho sobre Angola. É um dos seus temas de eleição? Aparece na sua obra pelo facto de ser mulher ou muito pelas experiências que viveu em Angola e Macau?

Interessa-me mais o tema do feminino pelas experiências que tive, por haver em Angola aquelas mulheres que eram muito poderosas quando Luanda era um mundo essencialmente masculino. Não havia mulheres praticamente nenhumas, mas as que havia eram muito poderosas, eram grandes escravocratas, entre outras coisas. Em Macau, foi o papel da mulher chinesa que me interessou, os pés de lótus, a questão de serem afogadas à nascença, abandonadas à porta de orfanatos e igrejas, isso fez-me muita confusão. Muitas não sobreviviam, morriam ainda crianças, mas outras conseguiam sobreviver à custa sabe-se lá de quê, de uma luta muito grande. O papel da mulher chinesa é sempre muito subalterno, muito apagado e humilde.

Com as diferentes personagens que apresenta neste romance, havia também a ideia de pintar um quadro da sociedade de Macau naquela época, de uma realidade desconhecida em Portugal?

Macau era muito longe, eram muitos milhares de quilómetros, Portugal praticamente não estava… Tinha lá a Administração, é certo. Depois, havia sempre aquela dicotomia entre a parte portuguesa e a parte chinesa; e os macaenses que não eram tidos nem ouvidos na administração da sua terra. Com as minhas personagens tentei recriar e classificar aquelas sociedades tão diferentes e ao mesmo tempo tão intrincadas, porque ao fim e ao cabo a comunidade macaense era resultado da miscigenação de goeses, portugueses, franceses… A comunidade portuguesa estava lá só para ganhar dinheiro, o máximo possível. A comunidade chinesa era – não sei se continua a ser – aquela parte mais humilde dos pescadores…

Não, mudou muito. Continua a haver uma franja humilde da comunidade chinesa, porque é a maior, mas as grandes esferas de poder são também hoje as esferas da comunidade chinesa.

Ainda bem que mudou, então. Foi uma reviravolta.

Nunca regressou a Macau. Teve a tentação de voltar durante o processo de investigação para este livro?

Tive. Havia coisas de que me lembrava muito bem, mas houve outras em que recorri ao meu marido, que esteve lá mais tempo e teve mais contacto com a comunidade chinesa e macaense, não tanto com a portuguesa. Ele lembrava-se de mais histórias.

Como é que uma mulher que trabalhou tanto tempo ligada à análise química de solos decide estudar História da Arte e, também, escrever romances?

Foi exactamente pela formação em História. Deixei de trabalhar em laboratório e solos quando saí de Angola. Quando regressámos de Macau, já tinha esta ideia de ir estudar e entrei para História da Arte na Faculdade de Letras, muito por influência do meu marido. Depois dos quatro anos de História da Arte, a investigação e tudo aquilo começou a apaixonar-me muito. Primeiro, comecei a investigar e a escrever sobre o património. Depois, a escrever narrativas. A primeira coisa que escrevi nem foram os romances históricos, mas as minhas memórias, que nem eram para ser publicadas. Foi o segundo livro a sair, escrevi-o mais por os meus pais terem falecido e ter começado a ver todas aquelas fotografias de quando era criança, todas aquelas histórias. A memória estava cá, muito nítida. Tinha seis anos quando embarquei aqui em Lisboa no [navio] Timor, com a minha mãe, em direcção a Angola, e foi uma infância de experiências muito fortes – o mato, as fazendas de sisal. Depois fomos para Luanda e apaixonei-me por aquela cidade, a minha cidade do coração. Casei lá, as minhas filhas nasceram lá, e ficou muito agarrada a mim. Saímos de Angola nas vésperas da independência, fomos para a África do Sul. Estivemos um ano em Joanesburgo e depois é que viemos para Portugal.

Disse numa outra entrevista que não gosta da palavra “retornada”. Como olha para esse grande número de portugueses que regressaram das ex-colónias? Há alguma coisa que os una?

Há e é muito forte. Primeiro, por todo o processo que decorreu e que foi completamente catastrófico. Todas as pessoas que aqui vieram parar, umas retornavam, outras nunca cá tinham posto os pés. Tudo o que aconteceu, a luta que essas pessoas tiveram de empreender para conseguir sobreviver, com muitas a ficar pelo caminho… A minha mãe teve um trauma tão grande que não sei se a doença de Alzheimer que ela desenvolveu não foi por ter saído de Angola e de Luanda, da casa dela, da vida dela. Conheço outras pessoas que também se foram abaixo. Mas existe isso que nos une, tanto que quando há uma série ou um livro [sobre o tema], as pessoas sentem, porque muitas coisas não se disseram, não se contaram, há ainda muita mágoa. Para mim, por exemplo, ter ido para Angola e vivido lá os anos que vivi, foi um privilégio. O maior privilégio que tive foi ter ido parar àquela terra e, graças a isso, sou a pessoa que sou. Podia ter ficado uma metropolitana, completamente diferente, mas fui lá parar e foi um privilégio ter conhecido e cheirado aquela terra.

Também, como no caso de Macau, nunca voltou a Angola?

Não. Quando viemos de Joanesburgo, não éramos para ficar em Portugal mas para ir para o Brasil, porque o Brasil era a nossa continuação, mas não se realizou esse projecto.

E, regressando ou não ao território, pensa voltar a escrever sobre Macau?

Tenho a ideia de escrever mais e já tenho pessoas que me pedem para fazer uma sequela, sobre o que teria acontecido a Mei Lin. Morreu? Não morreu? Acho que pode haver uma continuação, ainda tenho coisas engraçadas para contar. Mas para já vou voltar a escrever sobre África, desta vez sobre o reino do Congo.

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