Leituras

Os versos de um Homem livre

Sara Figueiredo Costa

June Fourth Elegies recolhem os poemas que Liu Xiaobo dedicou anualmente à memória do massacre de Tiananmen, em 1989, parte deles escritos na prisão.

Antes de ser preso na sequência das manifestações de Tiananmen, em 1989, Liu Xiaobo era um crítico literário conhecido pelas suas leituras pouco ortodoxas, para além de poeta e ensaísta com um interesse particular pelas áreas da filosofia e da política. Depois desse primeiro encarceramento, que durou vinte meses, Liu Xiaobo regressou à prisão por várias vezes, tendo morrido no dia 13 de Julho deste mês, quando cumpria mais uma pena, desta vez de onze anos.

Ao longo de duas décadas, grande parte delas privado de liberdade, Liu Xiaobo recordou os acontecimentos de Tiananmen todos os dias 4 de Junho, aniversário do massacre, escrevendo um poema. Esses poemas, bem como um conjunto de outros que dedicou à sua mulher, Liu Xia, foram traduzidos para inglês por Jeffrey Yang e publicados, numa edição bilingue, pela Graywolf Pres. O livro saiu em 2012, dois anos depois da atribuição do Prémio Nobel da Paz ao autor chinês, que não pôde recebê-lo porque estava preso – algo que o mundo pôde testemunhar com a imegam de uma cadeira vazia, em Estocolmo, durante a cerimónia de entrega do prémio.

No prefácio destas June Fourth Elegies, o Dalai Lama dedica algumas palavras à luta do autor pelos direitos humanos e pela democracia, na contracapa, Don DeLillo e Paul Auster elogiam a poesia e o seu conteúdo. Auster escreve mesmo que “não se pode falar destes poemas unicamente em termos de poesia”, fazendo notar as referências óbvias ao contexto político e social chinês que ocupam estes versos. Sem margem para dúvidas, a poesia de Liu Xiaobo absorve o seu activismo, incorporando temas e lugares no desfiar dos versos, mas nunca se torna um mero panfleto. Se a censura, a liberdade de expressão, a democracia ou os direitos humanos são tópicos dominantes, a reflexão sobre a história da China e o seu futuro é tema central neste conjunto de poemas, onde o trabalho de linguagem não perde o rigor nem deixa de procurar a medida certa e o ritmo adequado, pese embora todos os escolhos enfrentados por uma tradução que, por escolha própria, não se afastou muito da literalidade (até porque o tradutor não teve como esclarecer dúvidas com o autor, que estava preso e sem acesso a comunicações exteriores, como é de regra numa boa tradução).

No poema “Experiencing Death”, lêem-se os seguintes versos: «On Central Television News/ my name’s changed to ‘arrested black-hand’/ though those nameless white bones of the dead/ still stand in the forgetting». E, mais adiante, em “From the Shattered Pieces of a Stone it Begins”, Liu Xiaobo escreve «In the brain-mass there’s one shoe/ that cannot find the road to memory». A memória enquanto dever será a linha que define todo o livro e os temas que vão sendo abordados, mas é igualmente o topos universal que serve de estrutura ao trabalho poético enquanto tal, convocando modos de referir o que não deve ser esquecido – Tiananmen, mas igualmente a falta de direitos e a necessidade de estes serem, um dia, conquistados – e dialogando, por vezes duramente, com referências de um passado muito anterior a 1989 (de Lu Xun a Qin Shi Huang, primeiro imperador da China). O pormenor de assinalar anualmente o dia 4 de Junho, inscrevendo os poemas nessa efeméride, faz deste livro um gesto que extravasa o espaço poético da letra impressa, inscrevendo-se num outro espaço, mais amplo, a que os gregos antigos chamariam polis. É um espaço que encontra ecos noutros autores, igualmente obrigados ao silêncio e dedicados a quebrarem-no em lugares e épocas diferentes (veja-se parte da poesia de Anna Akhmatova, escrevendo contra o silêncio que lhe foi imposto pelo estado soviético depois da execução do seu marido), sempre consciente da sua universalidade mesmo que parta de um contexto que, no caso de Liu Xiaobo, é a China das últimas décadas.

Atrás das grades, Liu Xiaobo continuou a defender a liberdade de expressão e os direitos humanos, e isso talvez tenha feito dele um herói para tanta gente, mas mais do que isso, continuou a reflectir sobre o mundo e o país em que viveu com o mesmo rigor de pensamento que tinha antes de ser preso, recorrendo à linguagem poética como modo de trabalhar esse pensamento e sabendo conjugar uma gramática poética própria à luz de um cânone literário onde tantas vozes já se viram confinadas às quatro paredes de uma cela sem que o mundo tenha conseguido mudar os impulsos da natureza humana no que toca à liberdade no percurso de muitos séculos. June Fourth Elegies é, por isso, um livro-símbolo de uma luta que talvez não tenha acabado com a morte do autor, mas igualmente um livro que reclama uma longa tradição de poesia social e política capaz de extravasar a condição de panfleto para se colocar, merecidamente, no espaço mais vasto da literatura universal.

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